Felipe narrando…
Saí da academia com o corpo ainda quente, o suor secando na pele enquanto o ar da manhã batia mais frio do lado de fora. Já tinha amanhecido de vez, o céu começando a clarear e o morro entrando naquele ritmo de sempre — gente subindo, descendo, moto passando, barulho de vida acontecendo.
Peguei o boné e coloquei de volta, ajeitando na cabeça enquanto caminhava em direção ao carro.
Leonardo vinha do meu lado, ainda rindo de alguma coisa.
Leonardo:
— Tu viu a cara da mina quando tu ignorou ela? Coitada, ficou perdida.
Soltei um riso curto, abrindo a porta da Hilux.
Felipe:
— Já devia saber como funciona.
Afonso vinha logo atrás, mais calado como sempre, mexendo no celular.
Afonso:
— Já comecei a puxar informação da caravana.
Assenti.
Felipe:
— Quero isso redondo antes deles chegarem.
Leonardo entrou no carro do lado do passageiro, batendo a porta.
Leonardo:
— Relaxa um pouco, p***a… tu só pensa nisso.
Felipe:
— É por isso que eu ainda tô aqui.
Antes que ele respondesse, uma voz feminina cortou o ar atrás da gente.
Patrícia:
— Eita… o chefe acordou de bom humor hoje?
Nem precisei virar pra saber quem era.
Mas virei.
E lá estava ela.
Patrícia.
Encostada no portão da academia, com aquele sorriso cheio de malícia, short curto demais, top apertado, corpo à mostra sem vergonha nenhuma. Cabelo solto, olhar direto… provocando.
Como sempre.
Leonardo soltou um assobio baixo.
Leonardo:
— Ih… chegou tua preferida.
Revirei levemente os olhos, mas não escondi o sorriso de canto.
Felipe:
— Fala demais.
Fechei a porta do carro e dei a volta, indo na direção dela.
Ela não se mexeu.
Só me olhou.
De cima a baixo.
Sem pressa.
Patrícia:
— Sumido, hein, amor…
A palavra saiu fácil da boca dela.
Como se fosse verdade.
Parei bem na frente.
Inclinei levemente o rosto, chegando perto o suficiente pra sentir o perfume dela.
Felipe:
— Já falei pra tu parar com isso.
Falei baixo.
Direto no ouvido dela.
— Não tem amor nenhum aqui.
Ela riu.
Baixo.
Provocante.
Patrícia:
— Mas eu gosto de te chamar assim…
Ela passou a mão devagar no meu peito, sem pedir.
Sem medo.
— Combina contigo.
Segurei o pulso dela antes que subisse mais.
Não com força.
Mas firme.
Felipe:
— Combina com dinheiro.
O olhar dela brilhou.
Patrícia:
— E tu paga bem…
Soltei o pulso dela, deixando um leve sorriso escapar.
Felipe:
— Porque tu faz valer.
Ela mordeu o lábio de leve.
Leonardo gritou lá de dentro do carro:
Leonardo:
— Vai resolver isso aí ou a gente vai assistir o show completo?
Patrícia virou o rosto na direção dele.
Patrícia:
— Quer assistir também, Léo?
Leonardo riu alto.
Leonardo:
— Eu não recuso nada, não.
Balancei a cabeça, voltando o olhar pra ela.
Felipe:
— Ignora esse i****a.
Ela deu de ombros.
Patrícia:
— Eu gosto de plateia.
Cheguei mais perto dela.
Agora sem espaço entre a gente.
Minha voz saiu baixa.
Felipe:
— Hoje à noite eu vou na boate.
Ela travou por um segundo.
Só um segundo.
Depois sorriu.
Patrícia:
— Vai?
Inclinei a cabeça, chegando ainda mais perto do ouvido dela.
Felipe:
— Quero te ver dançar.
Pausa.
— Só pra mim.
Senti o corpo dela arrepiar de leve.
Ela puxou o ar devagar.
Patrícia:
— Hm… assim você me deixa animada.
A mão dela voltou, agora descendo pelo meu braço.
Devagar.
Provocando.
— Vai ficar só olhando… ou vai querer mais?
Soltei um riso baixo.
Felipe:
— Tu sabe como termina.
Ela sorriu de lado.
Sem vergonha nenhuma.
Patrícia:
— Sei…
Se inclinou mais perto.
— E gosto.
Leonardo bateu no volante.
Leonardo:
— p***a, isso aqui tá melhor que novela.
Afonso, ainda no celular, soltou:
Afonso:
— Depois não reclama quando dá problema.
Ignorei os dois.
Meu foco tava nela.
Felipe:
— Hoje eu passo lá.
Ela cruzou os braços de leve, inclinando a cabeça.
Patrícia:
— Então eu vou caprichar.
Passei a mão pelo queixo dela, erguendo levemente o rosto.
Felipe:
— Tu sempre capricha.
Ela sorriu.
Mas aí… o olhar dela mudou.
Ficou diferente.
Mais sério.
Mais… ambicioso.
Patrícia:
— Um dia eu ainda vou sair daquela boate.
Franzi levemente a testa.
Felipe:
— E vai pra onde?
Ela não desviou o olhar.
Patrícia:
— Pra um lugar melhor.
Deu um passo mais perto.
— Eu quero mais.
Cruzei os braços.
Felipe:
— Mais o quê?
Ela respondeu sem hesitar:
Patrícia:
— Eu quero ser a mulher mais respeitada daqui.
Pausa.
— A rainha da Rocinha.
O silêncio caiu por um segundo.
E então…
eu ri.
Mas não foi uma risada leve.
Foi desacreditada.
Felipe:
— Rainha?
Balancei a cabeça.
Felipe:
— Tu viaja demais.
Ela não gostou.
Dava pra ver.
Patrícia:
— Por quê?
Olhei direto pra ela.
Sem suavizar.
Felipe:
— Porque aqui não é conto de fada.
Pausa.
— E ninguém vira rainha dando o que tu dá.
O olhar dela endureceu.
Mas ela não recuou.
Patrícia:
— Eu posso ser mais que isso.
Aproximei de novo.
Mas dessa vez… mais frio.
Felipe:
— Pode.
Pausa.
— Mas comigo?
Balancei a cabeça.
— Não.
Silêncio.
Pesado.
Direto.
Ela respirou fundo.
Depois sorriu de novo.
Mas agora… diferente.
Mais controlado.
Patrícia:
— Então por enquanto eu fico só sendo tua preferida.
Leonardo bateu palma dentro do carro.
Leonardo:
— Aí sim, p***a! Aceitou a realidade.
Olhei pra ela.
Felipe:
— Faz isso que tu já ganha bem.
Ela deu uma piscada.
Patrícia:
— E ganho mesmo.
Se virou devagar.
Rebolando sem fazer questão de esconder.
— Hoje à noite te espero.
Parei olhando ela se afastar.
Sem pressa.
Sabendo exatamente o efeito que causava.
Leonardo abaixou o vidro.
Leonardo:
— Tu não presta, mano.
Entrei no carro, ligando o motor.
Felipe:
— E tu gosta.
Ele riu.
Afonso finalmente levantou o olhar.
Afonso:
— Só não mistura isso com o resto.
Olhei pelo retrovisor.
Patrícia já sumindo na rua.
Felipe:
— Nunca misturo.
Engatei a marcha.
Felipe:
— Cada coisa no seu lugar.
O carro começou a descer o morro.
E minha cabeça…
já tava em outra coisa.
Sempre tava.
Porque no meu mundo…
distração custa caro.
E eu não erro.