SAFIRA NARRANDO
CONTINUAÇÃO..
Já fazia uma semana desde que a Íris tinha chegado naquele casarão. No começo, confesso que até foi estranho, mas eu me forcei a acreditar que talvez fosse uma coisa boa afinal, de primeiro momento, ela até me deixou ajudar com a Raíssa. Eu cuidava, dava banho, ninava, e por uns três dias consegui sentir que, mesmo com todo aquele peso em volta, eu ainda podia ser necessária pra alguém. Só que essa sensação durou pouco.
No quarto dia, tia Elizabeth simplesmente cortou tudo. Do nada, sem me explicar nada, disse que eu não precisava mais ficar tão perto da Raíssa. Quem iria cuidar dela agora seria a Íris. Desde então, parecia que a menina grudou na bebê, mas não por amor, não com o mesmo cuidado que eu dava.. parecia mais uma obediência cega ao Terror do que responsabilidade de verdade. E eu ficava ouvindo os choros de longe, no meu quarto, sem poder me aproximar. Já fazia mais de quatro dias que eu não via a carinha da Raíssa. Era como se alguém tivesse arrancado um pedaço de mim.
Foi nesse clima que, naquela tarde abafada, tia Elizabeth entrou no meu quarto. Eu estava sentada na beira da cama, mexendo no celular só pra distrair a mente, quando ouvi o barulho da porta se abrindo sem bater. Levantei o rosto e ela entrou com aquele jeito sério, mas tentando suavizar com um sorriso.
Elizabeth — Safira, posso falar com você um instante? — perguntou .
Assenti em silêncio. Ela se aproximou, sentou ao meu lado na cama e tirou um envelope da bolsa. Entregou nas minhas mãos.
Elizabeth — Aqui tem um dinheiro pra você. Quero que vá ao shopping amanhã, compre o que tiver vontade. Roupa, sapato, maquiagem.. o que quiser.
Franzi a testa, sem entender nada.
— Pra quê isso, tia? — Ela respirou fundo.
Elizabeth — Porque você precisa viver, menina. Não pode ficar presa aqui o tempo todo, só se dedicando à criança. Você tem dezessete anos, quase dezoito. Precisa conhecer pessoas, sair um pouco. Cadê aquela sua amiga da Penha? Como é o nome dela mesmo?
— Moana — respondi, engolindo em seco — E eu tenho dezesseis anos ..
Elizabeth — Isso, Moana. Você devia procurar ela. Sair um pouco com essa sua amiga.
Aquela fala me deu um aperto no peito. Porque tudo o que eu queria era justamente estar com a Raíssa, e não sair pra shopping ou baile nenhum. Abri a boca pra responder, mas ela não deixou. Tirou outra pasta da bolsa, dessa vez com documentos.
Elizabeth — Também quero que saiba outra coisa. Coloquei um apartamento no Leblon no seu nome. Está tudo registrado, certinho. É pro seu futuro. Além disso, tem uma conta bancária no seu nome. Assim que fizer dezoito anos, vai poder usufruir. Tem bastante dinheiro lá, suficiente pra você viver bem.
Olhei pras folhas na minha mão, meio sem acreditar.
— Tia, eu não preciso disso. Eu só queria.. só queria ficar perto da Raíssa.
Ela suspirou fundo, como quem já esperava aquela resposta.
Elizabeth — Eu sei que dói, mas você precisa pensar em você. Deixar a criança um pouco. Hoje mesmo vai ter um baile na Penha. Quero que você vá, se divirta — Balancei a cabeça, indignada.
— Eu não quero ir em lugar nenhum.
Elizabeth — Pensa, Safira. Você precisa respirar. Não pode se trancar aqui dentro — disse ela, levantando-se. Antes de sair do quarto, deixou a pasta em cima da cômoda. — Só pensa no que eu disse.
E saiu, me deixando sozinha, com o peito queimando de raiva e frustração.
As horas foram passando. Eu tentava me distrair, mas era impossível não pensar na Raíssa. Aquele vazio me sufocava. Ouvia, de vez em quando, o choro abafado dela em algum quarto, e aquilo me partia em pedaços. Queria abrir a porta, correr até ela, mas não podia. Não me deixavam. Era como se estivessem arrancando de mim o único motivo que eu tinha de sentir algum sentido na vida.
Mas à noite, quando fiquei sozinha no quarto, o silêncio foi me consumindo. Peguei o envelope de dinheiro, olhei de novo pros documentos, e a voz da tia ecoou na minha mente: “vai ao baile, se divirta, procure sua amiga da Penha.” Suspirei fundo. Talvez ela tivesse razão em uma coisa: trancada ali dentro eu só estava me destruindo.
Então, pela primeira vez em dias, decidi me arrumar.
Fui até o armário, escolhi um vestido preto colado, longo, com um decote discreto mas marcante. Vesti devagar, sentindo o tecido agarrar na pele. Depois soltei o cabelo. Meus cachos, que batiam no ombro, estavam um pouco rebeldes, então passei creme e defini fio por fio. O espelho me mostrou uma versão de mim que eu já não via há muito tempo. Passei um batom vermelho, marquei bem os olhos com lápis. Calcei um tênis preto, confortável mas estiloso. Quando me vi pronta, por um instante quase sorri.
Atravessei o corredor em silêncio. Não encontrei ninguém, parecia que todos estavam ocupados em outros cantos do casarão. Desci até a garagem e o motorista já me esperava.
Motorista — Boa noite, dona Safira. Pra onde vamos? — perguntou educado.
— Pra Penha — Ele assentiu, ligou o carro, e seguimos.
As ruas estavam escuras, cheias de sombras que me davam arrepios. A cada esquina eu imaginava que podia ser emboscada, que alguém podia surgir armado. Essa era a vida que eu tinha aprendido ali: ninguém era confiável, qualquer um podia virar inimigo do dia pra noite. O medo corroía, mas tentei disfarçar.
Quando nos aproximamos da Penha, senti o peito aliviar. Aquele lugar, por mais perigoso que fosse, ainda tinha um pedaço de mim. Sorri involuntariamente. O motorista passou tranquilo, conhecia o caminho.
Motorista — Vou te deixar perto da quadra. Quando quiser ir embora, volto no mesmo ponto — disse ele.
— Não precisa esperar.
Motorista — Então vou dar uma volta e volto mais tarde — respondeu, sem discutir.
Desci, ajeitei o vestido e segui pelas vielas até a casa que lembrava ser da Moana. O coração batia forte. Toquei na porta.
Quem atendeu foi um homem alto, tatuado, olhar atrevido. Sorriu safado quando me encarou.
— A Moana tá? — perguntei, tentando não desviar o olhar.
Uma voz feminina veio de dentro.
Xxx — Quem é? — E logo ela apareceu. Moana. Nossos olhos se encontraram e foi como se o tempo não tivesse passado. Ela arregalou os olhos, depois riu, quase chorando.
Moana — Não acredito! Safira?
— Eu mesma! — respondi, rindo nervosa.
Nos abraçamos forte, emocionadas.
Moana — Que saudade, mulher — disse ela, ainda surpresa. — Você tá linda, olha só.
— Vim preparada pro baile — Moana riu.
Moana — E eu que ia ficar em casa? Uma amiga minha, a Yasmim, me chamou pra ir, mas eu tinha desistido. Agora você aparece toda produzida… claro que eu vou!
Entramos, e enquanto ela se arrumava, ficamos colocando a vida em dia. Ela falava animada sobre o bairro, sobre a galera. Eu ouvia, mas por dentro só conseguia pensar na Raíssa. Quando fui checar a hora no celular, a tela se acendeu com a foto da bebê sorrindo. Meu peito apertou. A culpa me invadiu. Como ela devia estar me chamando… e eu ali, me maquiando, pronta pra um baile. Era covardia o que faziam com a gente. Mas eu não tinha escolha.
Moana apareceu pronta, deslumbrante, e seguimos juntas até o baile.
A quadra estava lotada, a música batendo forte, luzes piscando. Todo mundo olhava pra gente quando entramos. Moana riu.
Moana — Parece que chamamos atenção — Enquanto dançávamos, ela se inclinou perto do meu ouvido — Pelo visto, meu irmão gostou de você — Arregalei os olhos.
— Que irmão?
Moana — O Eduardo. Aquele que abriu a porta — Lembrei, de repente, de um menino magrelo da época da escola, que vivia me zoando por causa do cabelo curtinho.
— Não acredito… aquele gato é seu irmão?
Moana — Pois é. As coisas mudam. E mais: ele é sub do Busu agora — Assenti, surpresa. Aquilo ficou martelando na minha cabeça.
Mais tarde, já com a noite fervendo, Eduardo se aproximou. Chegou confiante, me puxou pela cintura.
Eduardo — Vem dançar comigo — Fiquei sem graça.
— Não tem vergonha na cara, não? Eu sou mais nova que você — Ele riu, me olhando nos olhos.
Eduardo — Comigo não tem essa. Mulher é mulher. E você é bonita. Pouco papo.
— Você é um descarado — retruquei, empurrando ele de leve.
Ele apenas sorriu, como se tivesse certeza de que uma hora eu cederia.
Continuei dançando com Moana até quase amanhecer. Quando já passava das cinco, Eduardo ofereceu carona. Levou a gente até a casa da irmã.
Eduardo — Quer que eu te leve direto em casa? — perguntou olhando pra mim.
Antes que eu respondesse, Moana interveio.
Moana — Dorme aqui, Safira. Amanhã ou melhor .. daqui a pouco vai ter um pagofunk na casa do dono do morro. Eu quero ir, mas não quero ir sozinha. Vamos comigo.
Pensei na Raíssa. Pensei no vazio de ficar no casarão sem vê-la. Respirei fundo. Talvez fosse melhor mesmo ficar ali.
— Tá.. eu fico — E entrei na casa com Moana, sem imaginar o quanto aquela decisão mudaria os próximos dias da minha vida.
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