SAFIRA NARRANDO
CONTINUAÇÃO..
Acordo cedo. O celular vibra e eu espio a hora: faltam dez pras oito. Pulo da cama com aquela sensação de que já tô atrasada pra uma coisa que ninguém me pediu. Visto um short jeans, uma blusa branca simples, amarro o cabelo num r**o de cavalo alto. Passo um protetor labial e saio.
Abro a porta do quarto e quase esbarro no Nathanael no corredor. Ele vem na direção contrária, ombros largos, rosto fechado, olhos que guardam tempestade.
— Bom dia — eu falo, numa voz que sai mais baixa do que eu queria.
Ele inclina a cabeça.
Terror — Bom dia. Dormiu?
— Dormi. A Raissa.. — eu começo.
Terror — Eu vejo ela já — ele corta, mas não com grosseria; com pressa. Ele passa por mim, e eu sinto aquele perfume dele , amadeirado, limpo e o peso de estar perto. Eu desço logo atrás.
Na sala, a tia Elizabeth está de pé, pálida, mas firme, e ao lado dela uma garota da minha idade. Talvez um pouco mais nova. Ela segura as mãos na frente do corpo e me olha com atenção. A tia vira quando nos vê.
Elizabeth — Bom dia — ela diz. — Acordaram cedo.
Nathanael — O que é isso? — pergunta direto, o olho cortando em direção à garota. — O que você acha que tá fazendo?
Elizabeth ergue o queixo. Ela sempre fez isso quando quer mostrar que a decisão é dela.
Elizabeth — Essa é a Íris — ela anuncia. — A Íris vai trabalhar aqui — Eu dou dois passos, confusa.
— Trabalhar.. como?
Elizabeth — Como babá da Raissa — ela responde, sem rodeio.
— Babá? — Minha voz sobe. — Tia, a Raissa não precisa de babá. Eu cuido dela. Eu já cuido dela! Por que a senhora tá contratando outra pessoa?
Íris baixa os olhos com constrangimento, mas fica. Nathanael cruza os braços, o maxilar tenso, observando sem interferir.
Elizabeth — Você cuida — fala, e o tom é macio na superfície e duro por baixo. — Cuida agora. E até quando? E quando você quiser sair? Namorar? Arrumar um trabalho, uma faculdade, uma vida sua? Você ainda vai cuidar da minha filha? De uma filha que não é sua?
Eu engulo em seco. A frase entra como tapa.
— Eu… eu prometi — eu digo, sentindo a garganta fechar. — Eu prometi pra senhora que…
Elizabeth — Prometeu que estaria ao lado do Nathanael e da Raissa nos primeiros momentos, se eu faltar — ela completa. — Eu ouvi. Eu pedi. E confiei. Mas eu também sou mãe, Safira. E mãe coloca redes, não só esperança. Eu vou morrer. — Ela fala a frase como quem abre uma janela pra entrar ar. — Comece a lidar com esse fato. Você vai crescer. Vai querer ter sua vida. E minha filha precisa de acolhimento que não dependa da sua culpa.
— Não é culpa! — eu rebato, sentindo o rosto arder. — É amor! Eu amo ela. E amo a senhora. E eu não vou…
Elizabeth — Eu sei — ela diz, e os olhos brilham. — Eu sei. Justamente por saber, eu não vou fazer da sua promessa uma prisão. A Íris vai ficar. Vai aprender a rotina. Vai me ajudar e vai ajudar o Nathanael com a casa, com recados, com o que for preciso — Ela se vira pro Nathanael — A partir de hoje, do que você precisar — suas mãos treme — a Íris te serve. Fale com ela.
Nathanael — Elizabeth ..
Elizabeth — Essa conversa acaba aqui — cortou — Safira .. mostre a rotina da Raissa a Iris ..
Eu dou um passo pra trás. É como se a tia estivesse me tirando de uma família que eu lutei para chamar de minha. Como se estivesse dizendo: “obrigada por tudo, mas seu lugar não é aqui”.
— Seja bem vinda ..
Iris — Obrigada. Eu… eu não quero tirar o lugar de ninguém.
— Lugar não é cadeira — eu digo. — Lugar é onde dói quando a gente pensa em sair — Silêncio. A tia fecha os olhos por um instante, talvez cansada, talvez vencida por dentro. Eu sinto o peso do que ela carrega e o peso do que eu acabei de perder.
Na cozinha, o cheiro de café me agarra. Dona Cida mexe o bule, bate a colher na xícara, já separando pão e fruta.
Cida — Aconteceu o quê? — ela pergunta baixo, porque ela sabe ler clima.
— Chegou uma babá — eu respondo, enxugando uma xícara que nem molhada está. — Pra Raissa.
Cida — Ah — ela diz, entendendo mais do que eu falei. — Às vezes, renúncia é amor.
— E às vezes, é recado — eu retruco. — Recado de que eu posso ir — Respiro fundo sentindo o nó se forma na garganta ..
A tarde corre num ritmo estranho. Eu ensino a Íris a organizar a bolsa da Raissa , mostro a rotina de lavagem dos brinquedos, a lista das papinhas. Eu me pego falando como se a casa fosse minha. E é isso que mais dói: talvez não seja.
Mais tarde, lá pelas cinco, eu tento ler. Sento na biblioteca, aquele cômodo cheiroso de papel onde o silêncio parece mais bonito. Pego um livro qualquer da estante nem vejo o título. Abro, mas a letra vira borrão. Minha cabeça não tá aqui; tá naquela sala, na frase “eu vou morrer”, no “comece a lidar com esse fato”, na Íris de caderno aberto, no olhar de Nathanael tentando não tomar lado nenhum.
Eu deito o livro no colo e fico só olhando pela janela a copa das árvores. O ar tá mais fresco agora; a noite vem devagar, colorindo os cantos de roxo.
Passos. Eu ouço antes de ver. Reconheço o peso.
Elizabeth — Eu não quis te machucar — a tia diz. — Eu quis te preparar.
— Preparar pra quê? — eu pergunto, a voz baixa. — Pra vida sem você? Como se desse pra se preparar.
Elizabeth — Não dá — ela admite. — Mas dá pra deixar redes. A Íris é rede. E você… você é coração. Coração não pode rasgar todo dia.
— Eu não sou fraca — eu falo, olhando pro chão.
Elizabeth — Eu nunca disse que era. Eu te conheço desde que o mundo te feriu. Eu só não quero que você confunda o amor que você sente com a obrigação de se trancar aqui pra sempre.
— Eu não tô presa — eu respondo. — Eu tô aqui porque eu quero.
Elizabeth — E poderá continuar — ela diz, com doçura. — Mas se um dia você quiser ir, eu quero que você vá sem culpa. E que a minha filha esteja segura — Silenciamos. Eu escuto o relógio de parede marcando uma hora sem pressa.
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