A promessa

1006 Words
SAFIRA NARRANDO Eu sabia que promessa pesa diferente quando a gente ta olhando nos olhos de quem a gente ama. Desde a conversa no quarto, quando a tia pediu que eu ficasse ao lado do Nathanael e da Raissa , algo dentro de mim ficou errado. Como se cada palavra dela viesse embrulhada de despedida. Eu respondi “eu prometo” e, desde então, a frase bate no meu peito como se estivesse escrita a ferro. Eu prometi. E ela falou como quem estava me ensinando a caminhar sozinha. Agora eu tô sentada no tapete do quarto da Raissa , com as pernas cruzadas, olhando minha bebê preferida lutar contra o próprio corpo. Ela se empurra pra frente, faz força com os bracinhos gordinhos, treme, cai pro lado, volta. A cabeça firme, os olhos brilhando, e aquele esforço gostoso de quem tá descobrindo o mundo com nove meses. — Vai, minha estrela, senta — eu incentivo, com as mãos perto, mas sem segurar. — Isso, isso, isso… Ela arqueia o corpo, endurece, sustenta por três, quatro, cinco segundos e despenca no travesseirinho que eu coloquei como “colchão de quedas”. Ri um riso rouco, daqueles que dão vontade de apertar, e me olha como se eu fosse o espetáculo inteiro. — Você é forte, que nem a sua mãe — eu digo, ajeitando a fralda. — A sua mãe é feita de rocha e luz. As palavras da tia voltam, como faca afiada: “Ela pode chamar qualquer uma de mãe, porque não vai lembrar de mim.” Não, eu penso. Não. A minha lembrança da minha mãe ainda vive, mesmo com o acidente me levando tudo. Eu tinha quatro anos. Eu lembro do rosto dela torto pelo medo e pelo amor, do braço preso, da mão que me segurou. Eu não esqueci. Não vou deixar a Raíssa esquecer da mãe dela. — Você tem mãe, ouviu? — sussurro, beijando a testa dela. — A sua mãe chama Elizabeth. E a sua mãe é o tipo de mulher que segura o mundo com uma mão e me acolheu com a outra. Eu vou contar pra você cada história que a sua mãe viveu. Eu vou fazer você saber o nome dela antes do seu. Eu prometo. A noite está quente, grudenta, dessas que fazem a casa respirar devagar. O ar-condicionado dá conta, mas o calor mora na pele. Brinco mais um pouco com ela, deixo ela se concentrar em um mordedor, e quando percebo já é tarde; Terror ainda não chegou. Tento não pensar onde ele está, o que ele foi resolver, qual morro recebeu o peso do nome dele hoje. — Hora do banho, princesa — eu anuncio. Carrego a Raíssa pro banheiro pequeno que fica acoplado ao quarto dela, coloco a água morna, passo um sabonete de bebê que cheira a leite. Ela chuta, espirra, me molha toda e eu rio, porque essas coisas curam a alma da gente. Enxugo com uma toalha de capuz, visto um macacãozinho leve com estampa de nuvens, e voltamos pro quarto. A mamadeira já tá pronta na mesinha. Eu sento na poltrona — Devagar — falo baixinho. — Devagar que não é competição. Ela mama com vontade e, rápido, o peso do sono vem. Eu canto baixinho uma música que a tia me ensinou. Quando a mamadeira esvazia, eu boto pra arrotar, beijo a bochecha, deito ela no berço de ladinho, com o ninho de proteção e a naninha preferida. Admiro por um minuto o peito subindo e descendo: a vida é isso, eu penso, respirando. Deixo o quarto quase sem barulho, apago a luz do teto, deixo o abajur baixinho. O corredor me recebe com o calor da noite e, quando eu passo pelo jardim interno, vejo o brilho da piscina. A água, com o aquecedor ligado, ondula como se chamasse meu nome. Eu não tô com sono. Minha cabeça tá um formigueiro. Subo pro meu quarto, tiro a roupa e visto um biquíni. Pego uma toalha, prendo o cabelo em um coque alto. Na descida, minha pele arrepia só de pensar na água. Entro pelos degraus, um pé, outro, e, quando mergulho, o mundo silencia. Debaixo d’água, a casa vira apenas contorno, a vida vira apenas bolha. Eu nado de um lado pro outro, devagar, braços longos, deixando o corpo trabalhar por mim. Penso na tia. Penso no jeito que ela segurou minha mão hoje cedo, na firmeza sem raiva da voz, no “promete, minha menina”. Penso no doutor falando difícil, penso em como a palavra “câncer” entrou aqui sem convite e fez da nossa casa um hospital. Penso, pela primeira vez, no vazio de uma vida sem a tia. Eu nunca tinha deixado essa imagem entrar. Agora que ela entrou, eu tremo. — Não — eu digo pra mim, saindo pra pegar ar. — Não vai ser assim. Eu ouço o motor de um carro à distância. Reconheço o som da caminhonete do Nathanael eu já sei distinguir. Mas a garagem subterrânea é do outro lado; ele não vai passar por aqui. Volto a nadar. Eu tento me cansar até o pensamento aquietar. Quando o corpo pede pausa, eu saio da água numa escada de inox, pego a toalha e me enrolo. O céu está uma coisa uma pintura de estrelas espalhadas. Eu lembro da escola. Sinto saudade do barulho dos corredores, do giz na mão, do recreio dividido com pacotinho de biscoito comprado na venda. Lembro da Moana minha melhor amiga. Moana tinha o cabelo preso num r**o alto e ria de tudo. Como será que ela tá? — Você ia rir de mim agora, né, Mona? — eu falo para o céu. — Nadando de madrugada pra não chorar no travesseiro… Volto pro quarto, deixo o biquíni num cesto e tomo um banho rápido pra tirar o cloro. Visto um baby doll leve, apago a luz e deito. O sono vem como quem puxa uma cortina. OBS: PARA MAIS CAPÍTULOS COMENTEM E DEIXEM BILHETES LUNARES ..
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD