Promessa

1188 Words
SAFIRA NARRANDO Nunca fui do tipo de menina que carregava muitas lembranças de infância. Talvez porque o destino tenha arrancado isso de mim cedo demais. Mas existe um dia que eu nunca esqueci, por mais que os anos tenham passado. Eu tinha apenas quatro anos quando tudo aconteceu. O acidente. Às vezes, quando fecho os olhos, ainda consigo ouvir o barulho do metal se retorcendo, o grito da minha mãe, o cheiro forte de gasolina no ar. Lembro da chuva batendo contra o vidro, da noite escura engolindo a estrada. Meu pai lutava para manter o carro no controle, mas o impacto veio como um soco que virou o mundo de cabeça para baixo. O carro capotou. Eu estava no banco de trás, presa pelo cinto que minha mãe apertou com tanta força que parecia que queria colar meu corpo ao banco. Ela segurou minha mão até o último segundo, mesmo quando o braço dela ficou preso na ferragem. Lembro do rosto dela virado pra mim, dos olhos marejados mas cheios de amor. Ela me manteve ali, protegida, até o fim. E por isso eu sobrevivi. Tive apenas uma torção no pé, alguns arranhões. Enquanto isso, perdi tudo. Meu pai ficou preso, esmagado no ferro. Minha mãe… ela nunca saiu de lá viva. Naquela noite, deixei de ser filha. Me tornei órfã. E foi também naquela noite que conheci quem se tornaria meu porto seguro. Elizabeth. A irmã da minha mãe. Eu já tinha ouvido falar dela, mas não guardava lembranças. Era uma figura distante, quase uma estranha. Só que ela apareceu no hospital como se tivesse esperado a vida inteira pra me encontrar. E não hesitou. Mesmo recém-casada, vivendo a lua de mel com Nathanael, ela me pegou nos braços e disse que eu não ficaria sozinha. Ela não precisava. Podia muito bem ter me deixado com os avós paternos, ou até deixado o Estado decidir meu destino. Mas não. Elizabeth me levou pro casarão. Me deu um quarto, me deu cuidado, me deu amor. E com o tempo, eu a chamei de tia, mas o que ela fez por mim foi coisa de mãe. Cresci cercada por aquele ambiente estranho, entre a rigidez do Nathanael e a doçura da Elizabeth. Eu não entendia direito quem ele era. Só mais tarde percebi que o homem que eu chamava de tio era também o chefe do Comando, o Terror que até a polícia temia. Mas pra mim, ele era só o marido da minha tia, o homem que, apesar de carrancudo, sempre manteve a palavra de proteger a família. Foram anos de adaptação, de crescer num mundo que não era comum. E, quando achei que já tinha sofrido demais, a vida voltou a testar a gente. A leucemia chegou. Pouco tempo depois do nascimento da Raissa , a bebê que virou a alegria da casa, veio o diagnóstico. Eu nunca vou esquecer a cara do Nathanael no dia em que ouviu a palavra “câncer”. Foi como se o homem mais forte do mundo tivesse levado um tiro invisível. Elizabeth tentou sorrir, tentou passar força, mas eu via no olhar dela que tinha medo. Agora, com dezesseis anos, eu entendo melhor. Passei a maior parte dos últimos meses cuidando da pequena Raissa , já que muitas vezes a tia não tinha forças para segurar a filha no colo por muito tempo. Não que ela não quisesse, pelo contrário. Mas o corpo dela foi ficando fraco, e cabia a mim ajudar. E eu ajudava sem reclamar, porque sabia que não suportaria perder mais alguém. Não depois dos meus pais. Não depois de tudo que já vi. Naquela noite, eu estava no quarto com ela. Nathanael tinha saído, chamado para resolver algum problema no morro vizinho. Fiquei sentada na beira da cama, com Raissa aninhada no meu colo. A bebê sugava a mamadeira com calma, e Elizabeth acariciava os fios finos de cabelo da filha com uma ternura que só as mães conhecem. Elizabeth — Ela é tão pequena ainda.. — disse Elizabeth, o olhar fixo na filha. — Mas é forte, tia — respondi, ajeitando a bebê contra o braço. — Puxa a mamadeira como se tivesse dez anos. Ela riu, fraca, mas riu. Esse som sempre foi minha música favorita. Elizabeth — Ela será capaz de chamar qualquer pessoa de mãe — engoli em seco fingindo não ouvir — até mesmo você — a encarei — Porque ela chamaria outra de mãe ? Se existe você.. — Ficamos em silêncio por alguns minutos, só ouvindo o barulho da Raissa mamando. Até que ela soltou a mamadeira e adormeceu contra o meu peito. Elizabeth se virou pra mim. O olhar dela estava mais sério do que eu estava acostumada. Elizabeth — Safira.. — Hum? Elizabeth — Preciso que você me prometa uma coisa — respiro fundo , tem dias que tudo que faço é prometer , já sabia que eu não ia gostar do que vinha a seguir , era sempre pedia a mesma coisa .. — Que coisa, tia? — Ela respirou fundo antes de falar. Elizabeth — Que você vai cuidar do Nathanael. Que vai ajudar ele com a Raissa Olhei pra ela, chocada. Era a primeira vez que ela colocava o nome dele na promessa — Tia, por que tá falando assim? Parece que tá se despedindo.. Elizabeth — Não estou me despedindo. — A voz dela saiu firme, mas suave. — Só estou sendo realista. Não sei quanto tempo ainda tenho, Safira. E se eu não estiver aqui.. Nathanael vai precisar de você. — Mas.. ele é o Terror. Ele é forte, tia. Ele aguenta tudo — Ela sorriu triste. Elizabeth — Por fora, sim. Mas por dentro, Nathanael é um homem quebrado. Você não vê como eu vejo. Ele precisa de alguém ao lado dele. Não tô pedindo pra você viver a sua vida inteira presa aqui, nem carregar a minha filha como se fosse sua. Só quero que nos primeiros momentos, quando eu não puder mais.. você esteja com ele. Que você não os abandone. Meus olhos marejaram, a garganta fechou. — Não fala assim, tia. Por favor. Eu não aguento perder você também — Ela pegou minha mão com a pouca força que tinha e apertou. Elizabeth — Você é mais forte do que pensa, Safira. Eu sei que vai cumprir essa promessa — As lágrimas escorriam, quentes, pela minha bochecha. Eu balancei a cabeça, sem conseguir falar — Promete, minha menina. Promete pra mim. — Eu prometo.. — sussurrei, com a voz embargada. — Eu prometo que vou cuidar dele. Que vou estar aqui por eles .. Elizabeth sorriu, fechou os olhos por um instante e voltou a acariciar os cabelos da filha. Naquele momento, percebi que minha vida nunca seria simples. Eu não era mais só uma menina órfã. Era alguém carregando o peso de uma promessa feita ao lado da cama da única mulher que me deu um lar. E por mais que meu coração doesse, eu sabia que não podia falhar. OBS: PARA MAIS CAPÍTULOS COLOQUEM O LIVRO NA BIBLIOTECA.. META PARA O PRÓXIMO 300 COMENTÁRIOS..
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