Capítulo 4
BEATRIZ NARRANDO :
Entrei no prédio da Ferrarezi Group segurando firme minha bolsa, com a pasta de documentos presa contra o peito e o coração batendo naquele ritmo acelerado de toda manhã. O saguão era o de sempre: moderno, todo em vidro, mármore polido, cheiro de café caro no ar e gente andando apressada, falando ao telefone, com pasta debaixo do braço e café na outra mão.
A recepcionista sorriu de leve quando me viu passar. A Ju era sempre gentil.
— Bom dia, Bia.
— Bom dia, Ju.
Apertei o botão do elevador e me olhei discretamente no reflexo da porta de inox. Passei a mão no cabelo, ajeitei a blusa e puxei um leve sorriso pro espelho. O tipo de sorriso que a gente veste pra parecer segura, mesmo quando o coração tá uma bagunça de ansiedade.
O elevador chegou e subiu direto pro 17º andar, onde ficava o setor executivo. Quando as portas se abriram, o clima mudou de imediato. Aquele silêncio corporativo pesado, vozes baixas, passos contidos no carpete cinza. As salas com divisórias de vidro mostravam pessoas sentadas, sérias, em frente a telas com gráficos, planilhas, números que pareciam outro idioma.
Passei pela copa, dei bom dia pra Dona Vera, que sempre tava com um café passado na hora e uma palavra carinhosa.
— Tá chegando o dia, hein, noivinha? — ela disse com aquele sorrisinho maroto.
— Tá sim — respondi, rindo. — Contando as horas.
Segui até minha mesa, logo ao lado da sala do Arthur, e sentei com cuidado, abrindo o notebook e checando os e-mails do dia. Meu canto era arrumado, com algumas fotos minhas com a Patrícia, um vasinho pequeno com uma suculenta e um bloquinho de anotações colorido.
Poucos minutos depois, o elevador de acesso exclusivo soou com aquele “plim” discreto, e eu nem precisei olhar pra saber que era ele chegando.
Arthur Vasconcellos.
O homem mais sério e metódico que eu já conheci. O tipo que não perde tempo com conversa fiada, não sorri à toa e anda como se o chão tivesse sido feito pra ele. Alto, elegante, com o paletó impecável e um olhar que atravessa. Ninguém respirava alto demais quando ele passava.
Ele andou firme até a sala dele e, como de costume, passou por mim com um leve aceno de cabeça. Nem um "bom dia". Só aquele aceno contido e a presença que falava mais que qualquer palavra.
Abri a agenda do dia e me preparei pra começar as confirmações de reuniões, organizar os contratos que ele deixaria em cima da minha mesa, e ligar pro cerimonial ainda no horário de almoço, como tinha prometido ao Henrique.
Era mais um dia normal.
Rotina. Trabalho. Preparativos.
Estava concentrada respondendo alguns e-mails quando vi a notificação do sistema piscar:
– Arthur Vasconcellos, precisa confirmar a reunião com a equipe de fusões às 10h. Solicitar assinatura em contrato.
Suspirei.
Levantei devagar, ajeitei a blusa mais uma vez, peguei a pasta com os documentos e caminhei até a sala dele. Bati duas vezes na porta de vidro semiaberta.
— Senhor Arthur? Posso?
Ele não respondeu com palavras. Apenas fez um leve movimento com a mão, chamando pra entrar, sem desviar os olhos do computador.
Entrei, me aproximei com cautela, como sempre. A sala dele era ampla, minimalista, impecável. Tudo em preto, branco e cinza. Fria, do jeito que ele era. Nenhuma foto, nenhum enfeite pessoal. Só ele e aquele ar de que não precisava de ninguém.
— Vim confirmar a reunião das 10h com a equipe de fusões e aquisições e trazer o contrato da corretora L&B pra assinatura — falei, tentando manter a voz firme.
Ele digitava algo no notebook. Os olhos fixos na tela. Nem se deu ao trabalho de levantar a cabeça.
— Deixe em cima da mesa.
Fiz o que ele mandou. Pousei a pasta com cuidado, sem fazer barulho.
— Precisa de mais alguma coisa?
Silêncio.
Ele rolou a tela do computador por mais alguns segundos, depois apenas balançou a cabeça negativamente. Ainda sem olhar pra mim.
Me senti uma sombra ali dentro. Invisível. Um ruído de fundo na rotina impecável dele.
— Certo. Qualquer coisa, estou na minha mesa — murmurei, já virando pra sair.
Quando cheguei na porta, ouvi ele falar, sem emoção, sem sequer mover o tom:
— A reunião com o jurídico foi antecipada pra amanhã às 9h. Atualize a agenda.
— Sim, senhor — respondi automaticamente.
Fechei a porta devagar, respirando fundo.
Voltei pra minha mesa tentando não me deixar afetar, mas a verdade é que, me afetava.
A indiferença dele me atingia de um jeito estranho. Eu sabia que ele era assim com todo mundo, reservado, focado, distante, mas mesmo assim, doía. Era como se eu fosse invisível ali.
Porque mesmo sendo só a secretária, eu tentava fazer tudo certo. Me antecipar. Ajudar. Ser útil.
E nem isso parecia ser o bastante pra ele erguer os olhos uma vez.
Sentei novamente, respirei fundo, e abri a agenda de reuniões. Levantei da mesa alguns minutos depois, precisando de um café urgente.
Fui até a copa do andar, onde a Dona Vera tava terminando de repor as garrafas térmicas e alinhando as xícaras na bancada. Ela era daquelas senhoras que pareciam enxergar tudo, mesmo quando ninguém dizia nada.
— Vem buscar ânimo na cafeína, Bia? — ela brincou, com aquele sotaque leve do interior e um sorriso acolhedor no rosto.
— Vem que hoje tá puxado — respondi, pegando uma xícara e enchendo até a metade.
Ela me olhou de canto, como quem já sabia que o puxado vinha com nome e sobrenome.
— É o chefe, né?
Sorri sem graça, soprando o café pra disfarçar.
Ela se aproximou devagar, com aquele jeitinho fofoqueiro cheio de carinho.
— Vou te contar uma coisa, mas ó… não fui eu quem disse. — Ela se inclinou um pouco mais, abaixando a voz. — Esse homem aí lindo, elegante, tem aquele ar poderoso… mas vive de cara fechada. Nunca vi sorrir de verdade.
— Ele é bem reservado mesmo… — murmurei, tentando não parecer curiosa, mas era impossível negar que queria ouvir mais.
— Dizem por aí que ele já foi noivo. Bonitona, advogada, toda arrumada… largou ele às vésperas do casamento com outro. Desde então, ele virou esse bloco de gelo. Nunca mais se envolveu com ninguém. Só trabalha, trabalha e finge que sentimento não existe.
Arregalei os olhos, surpresa.
Aquilo explicava muita coisa.
A frieza. O jeito seco. O distanciamento de tudo e de todos.
— Caramba… não sabia disso.
— Pois é. Ninguém sabe direito os detalhes, mas o pessoal do jurídico antigo que ainda tem contato com ele diz que, depois daquela mulher, ele não quis mais saber de nada que envolvesse o coração.
Fiquei em silêncio por uns segundos, mexendo o café distraída.
Parte de mim entendeu.
A outra parte… doeu. Porque alguém ferido desse jeito costumava ferir os outros também, mesmo sem perceber.
— Mas deixa pra lá, minha filha. Tu é muito doce pra se abalar com amargura alheia. Só pega o café, ajeita a coroa e segue sendo essa menina certinha que tu é — Dona Vera completou, dando um tapinha leve no meu braço.
Sorri com gratidão, sentindo o calor do café misturar com um certo aperto no peito.
Voltei pra mesa ainda pensando naquela história.
Continua.....