Às vezes eu achava que meu maior talento era complicar as coisas na minha própria cabeça.
Porque, se eu fosse mais prática, já teria aceitado a verdade que parecia tão óbvia: Mathias não gostava de mim.
Não falo no sentido de “não gostar” de conviver. Claro que ele era educado, sempre dava bom-dia, sorria quando precisava… mas havia uma barreira invisível. Uma distância que ele mantinha como se estivesse sempre me lembrando: você é só a irmã do Lucas.
E talvez fosse exatamente isso que eu era.
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Na escola, isso ficava ainda mais claro. Eu estava no primeiro ano, tentando me acostumar com professores novos, horários e provas que pareciam impossíveis já na primeira semana. Já o Mathias estava no terceiro ano — último, decisivo, cheio de responsabilidades que o deixavam ainda mais distante do meu mundo.
Enquanto eu carregava meus cadernos coloridos e rabiscava corações nos cantos da folha, ele caminhava pelos corredores como se já tivesse um pé no futuro. Alto, confiante, cercado de pessoas. Sempre com Lucas ao lado. Sempre no centro de tudo.
E eu, mais uma vez, na sombra.
— Você viu o Lucas e o Mathias ontem? — uma das meninas da minha sala cochichava no intervalo. — Eles arrasaram no futebol.
— Claro que vi. — outra respondeu, suspirando. — O Mathias é perfeito.
Eu fingia não ouvir, mas cada comentário parecia uma pontada. Era estranho, porque eu deveria estar acostumada. O Mathias sempre chamou atenção, sempre foi admirado. Só que, agora, ouvir aquilo me incomodava de uma forma que eu não sabia explicar.
Talvez porque, no fundo, eu tivesse esperança de que ele me enxergasse diferente.
Mas, se enxergava, não demonstrava.
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E, para piorar, ainda havia o que tinha acontecido ontem na cozinha.
Eu não conseguia tirar da cabeça a cena. Primeiro, à tarde, quando entrei no quarto do Lucas com os refrigerantes. Estendi uma das latas para o meu irmão, e a outra para o Mathias. Foi nesse instante que a mão dele encostou na minha, devagar, como se não tivesse pressa nenhuma de se afastar.
Um toque simples, rápido… mas que mexeu comigo como se tivesse sido muito mais.
Eu tentei disfarçar, recuei um passo, mas não consegui ignorar o olhar que ele lançou em seguida. Intenso, direto, como se tivesse alguma coisa ali que ninguém mais poderia ver.
E, à noite, quando eu desci para beber água, lá estava ele de novo. Encostado na bancada, mexendo no celular, tão à vontade dentro da minha casa como se fosse morador.
Ele levantou os olhos e me cumprimentou com um “oi” simples, mas que ecoou dentro de mim como se tivesse muito mais peso do que deveria.
Eu fui dormir sem conseguir tirar essas imagens da cabeça. Passei horas me virando de um lado para o outro, tentando entender:
Se ele realmente não gosta de mim, então por que fez aquilo? Por que olhou daquele jeito?
A dúvida me consumia.
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Em casa, a situação não ajudava em nada.
O planejamento da festa se tornara rotina. Minha mãe falava de decoração, lista de convidados e, inevitavelmente, do príncipe.
— Tiana, precisamos marcar a prova do vestido logo. — ela dizia, animada.
— Tá cedo ainda, mãe… — eu respondia, tentando cortar o assunto.
— Cedo? Estamos em fevereiro, filha! Junho chega rápido. E, olha, o Mathias vai precisar de traje também.
O nome dele na boca da minha mãe soava como um lembrete c***l.
Era como se todo mundo já tivesse aceitado aquela ideia: eu e ele dançando juntos, sorrindo para as fotos, vivendo uma noite de conto de fadas.
Só que ninguém parecia perceber que, para mim, isso não era tão simples.
Lucas, claro, não ajudava em nada.
— Você devia estar agradecida, Tiana. — ele provocava. — O Mathias é praticamente o cara mais disputado da escola, e ele vai ser seu par.
— Não é bem assim, Lucas. — eu resmungava.
— É sim. — ele ria. — Só não surta no dia da dança, senão vai pagar mico na frente de todo mundo.
Eu queria responder, gritar, jogar um travesseiro na cara dele. Mas, no fundo, sabia que Lucas falava sem maldade. Ele não fazia ideia do que se passava dentro de mim.
E eu rezava para que continuasse assim.
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Mas o pior ainda estava por vir.
Naquela semana, decidi ficar até mais tarde na biblioteca, tentando resolver exercícios de matemática que eu não entendia nem sob ameaça. O corredor já estava quase vazio quando ouvi vozes conhecidas.
— Mano, essa festa de quinze vai ser top. — era o Lucas, rindo. — Você sabe que minha mãe não mede esforços.
— Eu sei. — a voz do Mathias respondeu.
Meu coração disparou só de ouvi-lo. Eu não queria, mas meus pés me levaram para mais perto, escondida atrás da estante.
— E como você tá se sentindo com isso? — Lucas perguntou.
— Com o quê? — ele fingiu não entender.
— Com o papel de príncipe, ué. Vai ter que dançar com a minha irmã na frente de todo mundo. — Lucas riu alto.
O silêncio que se seguiu pareceu eterno.
— Ah, tranquilo. — finalmente Mathias respondeu, a voz baixa. — É só uma dança, nada demais.
“Nada demais.”
As palavras ecoaram dentro de mim como um soco.
Eu deveria estar aliviada — afinal, era isso que eu queria ouvir, que para ele não passava de uma formalidade. Mas, em vez disso, uma dor estranha se espalhou pelo meu peito.
Talvez porque, para mim, nunca fosse “nada demais”.
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Naquela noite, deitada na cama, tentei me convencer de que estava exagerando. Ele não tinha obrigação de sentir nada. Nem deveria. Eu era só uma menina do primeiro ano, imatura, confusa, presa em uma fantasia impossível.
Mas, quanto mais eu pensava nisso, mais lembrava da forma como seus olhos prenderam os meus na cozinha. Do toque que pareceu durar mais do que deveria.
Será que eu tinha imaginado tudo?
Talvez sim. Talvez fosse só isso: uma ilusão criada pela minha cabeça.
Porque, se dependesse das palavras dele, eu não passava de um dever a cumprir.
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Na manhã seguinte, desci para a cozinha ainda sonolenta. Minha mãe já estava lá, preparando café.
— Bom-dia, filha. Dormiu bem?
— Uhum. — murmurei, me servindo de leite.
Foi então que ouvi passos atrás de mim. Virei e quase derrubei a xícara: Mathias estava ali, com os cabelos ainda bagunçados, usando uma camiseta simples que, de algum jeito, parecia feita para ele.
— Oi. — ele disse, como se nada fosse.
— Oi… — respondi, tentando não gaguejar.
Lucas apareceu logo depois, rindo de alguma piada que só os dois entendiam.
E eu, mais uma vez, fiquei invisível.
Naquele momento, tive certeza: não importava o quanto eu tentasse, Mathias nunca me veria do jeito que eu o via.
E talvez essa fosse a parte mais dolorosa de todas.
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Mas o destino tem uma forma curiosa de brincar com a gente.
Porque, naquela mesma noite, quando todos estavam dormindo, desci à cozinha para pegar água. E adivinha quem estava lá outra vez?
Sim.
Ele.
Encostado na bancada, mexendo no celular.
Era como se o universo insistisse em me colocar diante dele, só para provar que, por mais que eu tentasse fugir, não havia como escapar.
E, naquele instante, eu soube: por mais que doesse, eu já estava presa demais para voltar atrás.