Eu cresci com o Lucas. Nossas mães sempre foram amigas, e isso significava que, desde pequenos, éramos inseparáveis. Onde um estava, o outro sempre aparecia — aniversários, viagens, feriados, férias de agosto… se você olhasse qualquer álbum de fotos da família Tardelly, lá estaria eu, no meio deles, rindo ou fazendo alguma careta.
E foi justamente por isso que o erro começou.
Não sei quando meus olhos começaram a enxergar Tiana de forma diferente. Lembro apenas da sensação: ela não era mais a “irmãzinha do Lucas” que corria atrás de nós. Crescia, mudava, ganhava brilho próprio. Eu me odiava por perceber isso, por sentir que algo dentro de mim reagia de maneira que não deveria.
Mas era impossível ignorar.
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A festa dos quinze anos dela foi o primeiro grande lembrete do que eu precisava esconder.
Na visão da família, eu seria o príncipe da noite. O garoto confiável, amigo do Lucas, capaz de conduzir a irmã dele pelo salão com segurança. Era o papel que todos esperavam que eu cumprisse sem questionar.
Só que ninguém sabia o quanto aquilo mexia comigo.
Ver o sorriso dela se iluminar ao ouvir sobre o “príncipe” era doloroso. Porque, por mais que eu tentasse me convencer de que era apenas um gesto familiar, meu coração não aceitava. Eu sabia que já estava perdido.
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Ontem, no quarto do Lucas, aconteceu algo que ninguém poderia entender.
Ela entrou trazendo refrigerantes. Meu instinto me dizia para manter distância, mas quando nossa pele se tocou, mesmo que por um instante, algo em mim se desestabilizou.
Um toque rápido, inocente? Sim, para o mundo. Mas dentro de mim, parecia que o chão tinha sumido.
Eu queria me afastar. Devia me afastar. Devia lembrar de tudo que estava em jogo.
Mas, por alguma razão que eu não conseguia controlar, meus olhos ficaram presos nos dela.
— Tiana… — murmurei baixinho, como se pudesse desfazer o que tinha acabado de acontecer. Mas ela já tinha recuado, e o silêncio tomou conta do quarto.
A intensidade do momento me fez perceber que, quanto mais tentava fugir, mais corria na direção dela.
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Na escola, tudo era um espetáculo.
Lucas e eu éramos populares, o centro das atenções. Todo mundo nos observava, comentava nossos trejeitos, nos imitava sem perceber. Eu deveria aproveitar disso. Fingir que nada me afetava.
Mas Tiana… Tiana conseguia atravessar essa fachada. Cada olhar dela me deixava vulnerável. Cada gesto pequeno, cada jeito de desviar os olhos ou mexer no cabelo, me desarmava por completo.
Ela acreditava que eu não gostava dela, e talvez fosse isso que tornava tudo mais perigoso. Se ela soubesse o que eu realmente sentia… se Lucas soubesse… eu não poderia me perdoar.
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E então veio a noite na cozinha.
Eu estava lá, sozinho, tentando clarear a cabeça. Talvez fosse só a sede, talvez fosse o acaso que me colocava na frente dela.
Ela entrou, meio hesitante. O ar parecia mais pesado, carregado de algo que eu não sabia nomear.
— Oi. — disse eu, tentando parecer casual, como se não tivesse passado horas pensando nesse momento.
— Oi… — respondeu, desviando o olhar, e meu coração disparou.
Quando nossas mãos se tocaram, foi rápido, quase imperceptível. Mas o efeito foi devastador. O toque, simples para ela, me fez perder o controle interno por segundos que pareceram eternos.
Eu devia ter recuado. Devia ter me afastado. Devia ter lembrado que ela era a irmã do Lucas, que tudo que sentia era proibido, errado.
Mas não fiz.
Porque a verdade é clara: por mais que tentasse ignorar, eu não conseguia. E, se algum dia Lucas descobrisse, eu não perderia apenas a amizade dele. Talvez eu perdesse tudo que tinha.
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Agora, enquanto observo ela de longe, no meio da escola, nos corredores lotados, sinto a mesma coisa: impossível, errado, inevitável.
A festa ainda vai acontecer, e quando chegar o dia… sei que nada será mais simples.
Porque Tiana já não é mais a menina do oitavo ano.
Ela cresceu. Ela me olhou. E eu sei que, mesmo sem admitir, isso mudará tudo.
E eu já não quero fugir.