Capítulo 03

3352 Words
>> Maria >> A noite na casa do B-boy foi tranquila. Depois de fazer a minha oração e pedir a Deus perdão por ter cometido o mesmo erro que tantas vezes eu jurei não cometer mais. Eu consegui dormir tranquilamente. Bem até demais para alguém que estava na casa de um desconhecido que supostamente quer te deixar careca. A casa de B-boy era bem diferente da casa de minha mãe, um pouco mais luxuosa… Eu diria. O dono do morro consegue ter em meses o dinheiro que metade da população que acorda cedo para trabalhar não conseguem a vida toda. A vida era injusta, mas como dizem os cristãos… O mundo já é maligno e não temos nada a fazer sobre isso. Portanto, os beneficiados aqui na terra são quase sempre aqueles que cometem o m*l. Eu acordei cedo. Mais do que deveria e mais do que eu realmente queria, mas eu estava na casa dos outros, não queria ficar com fama de aproveitadora ou preguiçosa. Mas tomei na cara já que não se ouvia um pé de pessoa do outro lado da porta, o que me fez esperar mais um pouco, até a minha barriga roncar. Me sentei novamente na cama e respirei fundo enquanto olhava para a parede com um tom de azul claro. Eu queria sair desse quarto, eu estava com fome, entediada e não tinha nada aqui que fosse meu. Contudo, eu não queria correr o risco de acordar os outros e ser aquela que incomoda enquanto está na casa alheia. A minha luta interna acabou quando a minha barriga roncou novamente, eu fiz uma careta, choramingando e me levantei indo em direção a porta. Respirei fundo antes de colocar a mão na maçaneta e abrir a porta segundos depois, eu olhei para o corredor, garantindo que ninguém além de mim estava acordada e em passos silencioso eu comecei a caminhar até a escada, olhando tudo em minha volta, a casa podia ser o B-boy, mas tava na cara que a decoração foi feita pela Morena, era tudo bem a cara dela aqui. Me dirigi até a sala, pronta para catar todas as minhas coisas e me preparar para rir embora, mas quando a minha barriga começou a roncar outra vez, eu decidi que o melhor a se fazer era procurar algo para comer. O homem já tinha me dado uma cama para dormir e se ele era parceiro do meu irmão o suficiente para me deixar dormir aqui, ele também seria parceiro o suficiente para me alimentar. Pelo menos é isso o que eu espero… Fui até a cozinha e abri a geladeira sem fazer cerimônia, ninguém estava acordado. Suspirei decepcionada quando percebi que não tinha nada além de água. — Será que se eu falar que sou prima do B-boy alguém me dá desconto? — Pergunto tristonha para mim mesma, enquanto contava mais uma vez as dezenas de moedas de dez centavos que eu tirei do bolso e coloquei no balcão assim que fechei a porta da geladeira. — Você branca assim? Vão nem acreditar — Ele diz me fazendo tomar mais um pequeno susto. Olhei para o homem que estava na porta sério e com os braços cruzados. Meu corpo gelou, ele não era como os traficantes abobalhados que eu estou acostumada a conviver. — Seria mais fácil tentar a sorte dizendo que é Mulher. — Qual o seu problema com fazer barulho ao chegar nos lugares? — Perguntei enquanto olhava para ele com as sobrancelhas um pouco franzidas, ele deu risada - sem muito humor - e caminhou até a banqueta que estava na minha frente. — Tem comida no armário, só é fazer — Ele diz girando a banqueta para ficar de frente a mim. Eu engolir em seco quando sentir o seu olhar analisar o meu rosto. — Aproveita e já paga pela hospitalidade, princesa. Ele soltou uma piscadela e eu tive que morder os lábios para não abrir um sorrisinho malicioso. — O Junior também vem tomar café? — Perguntei com um sorriso, eu amei aquela criança. E já era algum assunto para puxar com o homem que mesmo com a expressão de ogro no rosto me ajudou a não ter que encarar meus pais ontem a noite. — Se você pensa que vai me colocar na coleira babando o meu filho… — Tudo o que eu fiz foi revirar os olhos e caminhar até o armário fazendo o homem parar de tagarelar e rir. Comecei a procurar nos armários alguma coisa para fazer, e ao contrário do que eu imaginei que teria quando ele disse que "tem comida no armário, só é fazer", o armário estava cheio de miojo. — Vocês só comem isso? — Perguntei de forma incrédula e ele olhou para o armário, assentiu com a cabeça quase de imediato, como se fosse algo super normal. — Sabe que isso dá câncer, né? Uma vez ou outra tudo bem… Mas isso não é alimento adequado para uma criança, B-boy. — No dia que eu quiser opinião sobre a forma que eu crio o meu filho, eu te pergunto. Já é? — Ele falou grosso olhando para mim, eu semicerrei os olhos olhando para o jumento em minha frente e bufei. — Então se f**a! — Disse irritada e me virei para o armário pegando três miojos. Ninguém merece ser tratado com grosseria quando só está tentando ajudar. — Fala comigo assim de novo e eu raspo a p***a da sua cabeça, princesa. — Meu corpo inteiros gelou e a minha única reação foi colocar meu cabelo para o lado do meu pescoço e segurar o mesmo com as duas mãos enquanto me virava a minha atenção para o homem que me encarava sério. — Desculpa! - Dei um sorriso falso sem mostrar os dentes e o mesmo continuou me olhando sério. Pai do céu, tua filha sabe que não merece, mas perdoa os meus pecados e não permita que esse ogro toque nos meus cabelos. Amém! Me virei para frente novamente e procurei alguma panela para começar a fazer os miojos. Não demorou muito para que estivesse pronto. Eu como gosto de fazer as coisas na cozinha de um jeito diferente coloquei alguns ovos dentro da panela para complementar o prato. Eu não sei cozinhar, mas pelo menos um miojo eu sabia fazer. Coloquei miojo para mim, para ele e deixei um pouco na panela porque a Roberta vai acordar daqui a pouco, eu acho, não é possível que a guria durma a manhã toda. — Sabe dizer se o rato já chegou? — Perguntei olhando para o mesmo que quase enfiava o prato no rosto para beber o caldo. m*l educado! — Virei fiscal? — Perguntou colocando o prato no balcão e olhou para mim, eu apenas revirei os olhos e continuei comendo enquanto tentava prestar atenção no meu prato e não no lindo preto em minha frente. — Bom dia meu amor. — Roberta entrou na cozinha com um sorriso e quando o irmão dela iria responder, a morena de tranças vermelhas o interrompe — Você não, a Maria, não falo com pão duro. — Bom dia! — Digo com um sorriso quando a mesma abraçou os meus ombros e beijou a lateral da minha cabeça. — Termina aí que eu quero saber da vida da Elisa — Ela me faz rir enquanto vai até a panela e abre a mesma, a forma que ela olhou para o miojo foi como se ele fosse a coisa mais saborosa que existe — Casa comigo? — Com toda certeza! — Pisquei para a mesma em resposta e ela fez uma dancinha de comemoração que me fez rir. Ela pegou uma colher e saiu da cozinha com a panela. Acho que eles não são acostumados a usar pratos aqui. — Gosta de mulher? — Ele me perguntou curioso e eu quase dei risada da cara de decepção que ele tentava esconder por trás da sua expressão séria. — Não viu isso na minha ficha também? — Retruquei com uma das sobrancelhas erguidas, encarando o mesmo que apenas deu com os ombros e voltou a comer. Quando eu terminei de limpar, eu olhei para ele que estava mexendo no celular. — Obrigada por me deixar dormir aqui, mesmo que não me conheça bem. — Seu pai é Sub do morro lá né? — Perguntou sem prestar muita atenção em mim e eu afirmei com a cabeça — Se não fosse por isso, você dormia na rua. — Não precisa ser um ogro o tempo todo… — Sussurrei mais para mim do que para ele, assentindo com a cabeça em sinal de concordância e saí da cozinha indo direto para a sala, onde Roberta já se encontrava pronta para sairmos. Ela foi o caminho todo me perguntando sobre as coisas que eu gostava, onde eu costumava e o que eu costumava fazer para me divertir. Eu acabei rindo quando ela percebeu que a minha vida não era tão divertida e movimentada quanto a dela. Chegando da casa do Rato e não demorou muito para que ele abrisse a porta, o que me fez agradecer já que os olhares curiosos dos moradores caiam sobre mim. — Qual foi, Rata. Tá fazendo o que aqui uma hora dessas? — Ele perguntou confuso olhando para mim e revirei os olhos por causa do apelido. — Ela dormiu lá em casa ontem — Roberta respondeu enquanto dava com os ombros e o meu irmão me olhou de cima a baixo como se estivesse procurando por alguma coisa fora do lugar — Cadê minha mulher? Rato parou de me analisar e olhou para a Roberta na mesma hora, fez um cara de quem estava com nojo dela e colocou a mão na cintura, de um jeito um pouco afeminado. Foi a vez da Roberta de colocar uma careta de nojo. — Minha mulher, tá dormindo — Ele responde olhando para ela com a cara de quem comeu e não gostou. Roberta jogou o cabelo para o lado e entrou na casa enquanto me puxava pela mão — Oh pra isso. Ousada pra c*****o, hein! — Não gostou? Só lamento! — A Roberta diz enquanto olhava para ele como se o desafiasse e o mesmo deu risada enquanto negava com a cabeça. — Eu vou é pra boca… Essa casa do nada meio que ficou contaminada demais — Ele diz em um tom de deboche enquanto olhava para a Roberta que revirou os olhos e estendeu o dedo do meio para ele — Quando a Elisa avisa que eu tô lá. Afirmei com a cabeça e fiquei assistindo enquanto o meu irmão passava pela porta. Eu olhei para a Roberta e acabei rindo quando ela pegou uma blusa do meu irmão com as pontas do dedo e jogou no chão, com a maior cara de nojo que eu já vi alguém fazer. [...] Eu estava me achando preguiçosa por ter acordado às dez, mas agora eu sei que nada se compara a Elisa que passou a tarde inteira dormindo. Fui no quarto duas vezes para garantir que ela estava bem, a Roberta ficou o dia inteiro resmungando sobre a Eliss ter transado a noite toda e, acredite, imaginar o meu irmão e ela transando não foi algo que eu possa chamar de satisfatório. — Mulher, tu não vai acreditar, a gente tava saindo do baile, né. Quando apareceu a mulher dele e… — Roberta parou de falar assim que a Elisa abriu a porta do quarto, olhou para ele de forma confusa, tomando um leve susto e piscou algumas vezes como se quisesse garantir que não estava vendo coisas. Nós duas estávamos jogadas no sofá, assistindo filme e comendo alguns salgadinhos que eles tinham no armário. — Por que vocês estão aqui tão cedo? — Perguntou enquanto coçava os olhos ainda sonolentos e a Roberta olhou para mim como se estivesse perdendo a risada. Olhei no relógio antes de responder a ela. — Cedo? Sete da noite? — Perguntei para a mesma que olhou para o relógio na mesma hora e arregalou os olhos quando percebeu que eu estava falando a verdade. Foi quando o meu olhar desceu do seu rosto para o seu decote e assim como eu, a Roberta abriu um sorriso largo quando viu o chupão em seu peito. — Parece que a noite de ontem foi boa em — Roberta diz com uma cara maliciosa, eu coloquei um sorriso safado no rosto na mesma hora, a Elisa fez uma careta enquanto estendia o dedo pra ela. — Eu até te perdoo por não tá aqui quando eu mais precisava de uma amiga — Falei de forma manhosa e coloquei os braços nas "costas" do sofá, a cabeça apoiada neles e olhei para ela com uma cara de pobre coitada. Roberta colocou a mão no peito fazendo cara de ofendida enquanto me olhava. — Nossa, valeu! Cancela o casamento tá? - Ela diz fingindo melancolia. Dei risada e empurrei o ombro dela de forma descontraída enquanto assistia a Elisa caminhar até o banheiro. Foi quando o meu celular apitou, duas vezes para ser mais sincera. Uma delas era uma mensagem perguntando como estava a Elisa e apesar de saber que ela não deve nada a ele pelo simples fato dos dois apenas terem ficado algumas vezes, algo dentro de mim se identificava com a posição em que ele se encontrava. Nós dois éramos pessoas apaixonadas por alguém que não retribuía os nossos sentimentos. A Elisa estava fazendo com ele, sem querer, a mesma coisa que o Victor fazia comigo. Ela sabia que o Gabriel gostava dela, sabia que o menino tinha gamado na morena, branquela de olhos verdes e mesmo assim era incapaz de conversar com ele da forma correta. Eu respirei fundo, tentando deixar de lado o assunto que não tinha nada haver comigo. Mas quando eu abrir a notificação que tinha me avisado que o Victor tinha postado um story, todo o meu mundo pareceu se deteriorando aos poucos. Era um vídeo dele e da Ingrid comendo chocolate com morango enquanto assistia um filme romântico juntos. Eu era doida para fazer isso com ele. Sentir a minha garganta se fechando e a vontade de chorar retornar ao mesmo lugar que eu custei fazer com que ela saísse. Ninguém merecia passar por isso e eu acho que foi isso que me fez tomar a atitude para dizer o que eu pensava assim que a Elisa se sentou no sofá. — Gabi perguntou sobre você e seu avô — Eu disse com um pouco de desdém na voz enquanto mostrava para ela o celular em minha mão de forma acusadora. A menina me olhou por alguns segundos, como se estivesse pensando no que responder. — Quem é Gabi? — Roberta perguntou curiosa, intercalando a sua atenção entre mim e a Elisa que nos encaramos sem qualquer outra reação. — Ele é… — Pausei como se procurasse a palavra certa para descrevê-lo e Elisa suspirei entediada enquanto se jogava no sofá ao lado da morena — O segundo namorado da Elisa. — Maria! — Ela se sentou com as colunas reta na mesma hora e olhou para mim com os olhos arregalados. Roberta olhou para ela como se estivesse abismada com a minha revelação. — Quem vê cara, não mede fogo. Quem diria… — Ela diz em um tom cheio de deboche — E eu aqui pensando que era a única safada do grupo. — O Gabriel não é meu namorado, a gente não tem nada! — Ela disse entre os dentes, enquanto me olhava como uma mãe que repreendia a sua cria. Eu revirei os olhos e umedeci os lábios, engolindo em seco enquanto pensava em uma resposta. — E você já disse isso a ele? —Perguntei com um certo rancor na voz, se o Gabriel estava sendo usado de amante ele pelo menos tinha o direito de escolher ser ou não. Ela encolheu os ombros e ficou calada como alguém que não tinha mais argumentos. — Gente… E o Rato? Ele aceitou isso numa boa? — Roberta pergunta ainda mais surpresa do que já estava antes — Eu pensei que ele era mais ciumento… Por que é só eu falar que você é minha mulher que corro o sério risco de ser expulsa daqui aos tiros. E olha que você nem faz meu tipo. Elisa deu risada, mas eu não consegui achar graça. Eu mais do que ninguém sabia o quanto era doloroso ter alguém brincando com o seu coração e pouco se fudendo para os seus sentimentos. — Ele é… O meu melhor amigo. — Ela respondeu, como se quisesse convencer mais a ela mesma do que a Roberta ou a mim. Mas a verdade é que nem ela acreditava naquelas palavras, tampouco eu ou a Roberta. — Ah Elisa, não fode — Roberta fala rindo, mas seu sorriso vai desmanchando aos poucos quando ver que a expressão dela continuava a mesma — Tá falando sério? — Não pareceu só isso hoje de manhã… — Mas uma vez, eu deixei que a raiva que eu sentia de toda essa situação tomasse conta de mim e disse ainda com a cara fechada. Como se desafiasse ela a continuar mentindo para mim. Eu amo a minha amiga, mas ela tem que entender cedo ou tarde que isso não está certo. — Olha, eu não sei, Tá legal?! Antes de eu vir pra cá a minha cabeça estava ótima, no lugar. Eu tinha a minha vida, a minha melhor amiga, o meu melhor amigo e também o carinha por quem eu estava acostumada a achar que estava apaixonada. — Começou a falar sem sequer parar para respirar enquanto nós duas a olhávamos com uma expressão de susto pelo surto repentino. — Mas por causa da Maria… Apontou para a minha direção, fazendo com que eu franzisse a testa sem saber o que exatamente era a minha culta. — Eu vim aqui e beijei o rato. Comecei esse lance de ser fiel por causa do seu irmão — Apontou para a Roberta que estava tentando esconder a vontade de rir - E do nada comecei a sentir coisas pelo Rato que eu nem imaginei que um dia eu poderia sentir. Então, pelo amor de Deus, parem de me olhar como se estivessem me julgando. Por que eu já faço isso todos os dias. Eu já estou me sentindo um lixo, ok? Nós duas continuamos olhando para a Elisa. Eu não estava mais com raiva, com rancor ou coisa do tipo. Eu fiz uma careta quando percebi que eu tinha pesado demais com ela por causa das minhas próprias dores e me encolhi na poltrona onde estava sentada. Roberta abraçou a minha melhor amiga e colocou a cabeça da Elisa em seu ombro enquanto começava a fazer um cafuné. A porta foi aberta segundos depois, e depois de um tempo Rato apareceu com uma expressão séria. O que me fez cogitar a ideia de que o mesmo poderia ter ouvido a confusão que estava na mente na mente da mulher que ele amava desde que eu me conheço por gente e talvez esteja se sentindo culpado - ou talvez triste - por ser a causa da dúvida de alguém. Por que ele conseguia ser perfeito ao ponto de ser extremamente sensível pelos sentimentos dos outros, às vezes… — Baile daqui a uma hora. É melhor vocês se arrumarem. — Foi tudo o que ele disse antes de tirar a sua camisa e ir direto para o banheiro sem nem olhar para uma de nós e quando a Elisa fez uma careta de quem tinha pegado pesado quando nós duas olhamos para ela. Bom, pelo menos o meu irmão sabe que ele, de certa forma, mexe com a Elisa. Ao contrário de mim que nem sei o que o Victor ainda sente em relação a mim. — Eu vou me arrumar. Deus que me perdoe, mas hoje eu quero encher a cara — Disse enquanto me levantava e caminhava em direção a porta do quarto da Elisa.
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