>> Elisa >>
— Um passarinho me contou que a Maria ficou com o B-boy — Rato abraçou a minha cintura por trás e beijou a lateral da minha cabeça enquanto eu cortava os pães. No seu tom a certeza era nítida, mas ainda sim, eu faria o possível para que ele deixasse de lado esse assunto.
— Deu pra falar com passarinhos agora? Que tipo de droga você está usando? — Perguntei fingindo preocupação, me virei para ele e coloquei a mão na cabeça dele como se medisse a febre, fazendo com que o meu melhor amigo, e agora namorado, colocasse uma careta no rosto.
— Para de graça, Caraí! — Ele afastou a cabeça rindo e se sentou na cadeira à minha frente, colocou o cotovelo na mesa que estava ao seu lado e olhou para mim com curiosidade — Mas papo reto, não gosto dela ficando com ele…
— Mas quem tem que gostar de ficar com ele é ela, ela não é sua filha, Rato, e sim sua irmã — Dou de ombros e ponho os pães na mesa, me sentando na cadeira ao lado do homem que - neste momento - está fazendo bico igual uma criança birrenta de cinco anos — E o B-boy me parece ser melhor do que aquele homem.
Eu odeio tanto o ex da Maria que nem o nome gosto de falar muito para não trazer má sorte. É como se ele fosse o Voldemort ou coisa do tipo. O Victor foi o primeiro namorado da Maria, ele fazia a menina de gato e sapato enquanto ela ficava toda boba correndo atrás dele. Maria pode parecer bem madura às vezes, mas até eu que tô namorando sério pela primeira vez e perdi a virgindade com vinte anos sabia que a p***a daquele relacionamento estava errado. Eu pedi tanto para que Deus abrisse os olhos dela que quase fui para um culto quando ela finalmente largou daquele traste.
— Ele não curte esse lance de fiel e a Maria é emocionada — Ele faz uma careta, como se lembrasse de alguma coisa que a irmã fez, me fazendo rir e negar com a cabeça — Tá rindo de que? palhaça!
— Há alguns meses alguém que eu conheço muito bem vivia dizendo: "Eu não sou fiel, sou bicho solto, meu lance é ficar e não se apaixonar" — Repetir o que ele sempre falou para todas as mulheres que ele ficava, enquanto engrossava a voz, mexia os ombros e a cabeça enquanto fazia uma careta — Ainda tinha aquela: "Eu não durmo com ninguém. Esse lance de ficar grudadinho depois da transa? Não é comigo não" e hoje em dia só não me colocou no perfil por que eu não deixei.
— Se fuder, Ely. Tenta ter todas no seu pé pra ver se não vai começar a criar desculpinha também — O mesmo diz fingindo está injuriado com a minha brincadeira, me fazendo gargalhar.
— Ui, ui. Rei das delas! — Zombie um pouco mais da cara dele e dei uma gargalhada quando o mesmo me mostrou dedo do meio e chupou o canudo do seu achocolatado.
— Não tenho culpa de ser um gostoso, charmoso, ter grana e de fuder gostoso— Diz em um tom convencido, fazendo uma cara sexy e divertida. Levantado um dedo para cada característica que ele falava e me fazendo rir ainda mais.
— Tá bom, Christian Grey da favela, mas alguma coisa que eu deva saber sobre você? — Pergunto irônica e o mesmo faz uma careta de tédio, revirando os olhos.
— A cólica passou? — Ele perguntou em um tom preocupado, ignorando completamente a minha pergunta e eu afirmo com a cabeça — Vai me assistir jogando hoje?
— Virei torcedora? — Pergunto com uma careta de tédio e o mesmo ergue a sobrancelha, parecendo incrédulo com a minha resposta — Tô brincando, claro que vou. Você apostou?
— Claro! — Terminou de comer um pão e já pegou outro colocando mortadela dentro. Tá para nascer homem que gosta mais de pão com mortadela e achocolatado do que o Rato.
— Então eu vou bem gostosa, assim os homens prestam mais atenção em mim do que na bola, você faz um monte de gol, não perde seu dinheiro e ainda ganha o deles — Contei a minha estratégia de maneira divertida e pisquei para ele que na mesma hora que ele me retribuiu com uma careta.
— p***a Elisa, não são nem onze da manhã e você vem com uma dessas pra cima de mim? — Pergunta sério largando o pão - parecendo chateado, ele se levanta, coloca a glock na cintura e olha para mim — Precisa mais assistir c*****o nenhum não.
— Eu tava brincando! — Digo dando risada, enquanto vou até ele e coloco a minha mão no seu rosto, tentando lhe dá um selinho mais o mesmo se desvia.
— Aham, tô ligado! — Diz me olhando desconfiado segundos depois ele me puxa pela cintura e cola nossos lábios em um beijo quente — Eu te amo! Mas se brincar assim de novo… eu nunca mais dou bola pra você.
— Eu também amo você… — Alisei o cabelo dele com a ponta dos dedos enquanto sentia as curvaturas dos meus lábios se curvando em um sorriso.
— Eu odeio um casal feliz… — Nós dois tomamos susto com a voz da Roberta, que estava parada no batente da porta, com os braços cruzados e uma careta de nojo.
— Alá, invejosa — Rato retrucou para a mesma com a sua melhor careta de desgostos e ela revirou os olhos. — Posso saber como o projeto de talarica entrou aqui em casa?
— Em primeiro lugar: A Elisa é minha mulher, então o talarico é você. Segundo: Eu agora além de namorada da sua namorada, também sou sua concunhada, então acho melhor você me respeitar — Ela diz em um tom orgulhoso, arrumando a postura e empinando o nariz, eu dou uma gargalhada da cara que o Rato faz. — Vocês deixaram a porta aberta…
Rato me olha com um olhar de repreensão, por eu não ter fechado a porta da forma correta e eu dou um sorriso falso, ele não pode me culpa, sou acostumada com os vapores de meu pai sempre fechando a porta para mim.
— Concunhado uma p***a, cês são tudo emocionada! — Ele resmunga colocando o chapéu e me dá um selinho, indo até a porta da cozinha onde a Roberta ainda o encarava com nojo — Diaba! — Dá um tapa na testa de Roberta fazendo a mesma depositar um tapa na sua direção, mas ele sai correndo e rindo antes do tapa agarrar suas costas
— Eu odeio seu marido! — Ela resmungou se sentando na mesa e eu dei risada — Mas pelo menos ele trouxe você e a Maria pra minha vida…
Ela dá um sorriso doce, claramente falso, pegou as minhas duas mãos em um gesto assustadoramente gentil e piscou diversas vezes olhando para mim. Acho que ela está tentando parecer fofa…
— É incrível como uma amizade de semanas pode se tornar tão especial, sabe? Nunca foi o tempo, sempre a conexão… — Ela pronunciava as palavras enquanto apertava levemente a minha mão para enfatizar a cena que ela estava fazendo. Roberta falava como se quisesse me convencer que ela era a melhor coisa que me aconteceu desde que vim pra cá e eu franzi a sobrancelha, olhando para a mesma de forma desconfiada.
— Diz logo, o que você quer? — Perguntei em um tom de quem não estava com paciência para charminho,a mesma colocou uma das suas mãos no peito e uma expressão de ofendida no rosto.
— Credo! Não pode mais ser fofa nessa vida que a pessoa é julgada de interesseira? Que mundo é esse em que vivemos… — Ela colocou um semblante indignado, e eu tento segurar a risada enquanto ergo as duas sobrancelhas, como se estivesse dizendo: Já pode parar de atuar, eu sei que você quer algo. Ela suspira, se dando de vencida — Pode chamar a Maria para assistir o jogo com a gente hoje?
— Assim do nada? — Pergunto curiosa, ainda com a sobrancelha erguida e a mesma coloca um sorriso cúmplice no rosto — Posso, mas tem que me dizer o motivo…
— Ela dormiu com o meu irmão! — Ok, por esse eu não esperava. — E ela foi a primeira garota que fez o B-boy largar do meu pé, então, eu meio que quero pedir um favor…
— Quer usar a Maria para distrair o seu irmão enquanto você transa com aquele vapor… Sua safada! — Acuso e a mesma dá risada afirmando com a cabeça — Sem chances, não vou deixar você usar a minha irmã…
— Me usar pra que? — Maria entra na cozinha se sentando na mesa, fazendo com que nós duas olhasse para ela na mesma hora. Eu não sei se a Roberta também notou, mas ela estava usando muito mais maquiagem no pescoço do que costumava usar.
— Pode distrair o meu irmão enquanto eu fico com o Bruno? — Roberto pergunta com a maior cara de p*u, o que me fez resmungar alguns palavrões para a morena de tranças vermelhas que me encarava de forma debochada. Olhei para Maria que parecia muito mais aérea do que de costume, a branquela de cabelo comprido encarava o saco com pães como se fosse a coisa mais interessante que tem na mesa.
— Mari? — Perguntei, me ajeitando na cadeira nitidamente preocupada com a minha melhor amiga e a mesma abriu um sorriso fraco assentindo com a cabeça, o que fez a Roberta dar um pulo na cadeira animada e eu continuo olhando para Maria, que só depois de alguns segundos percebeu que eu a encarava.
— Eu só não sei o que eu posso fazer, aposto que lá vai ter um monte de garotas atrás do seu irmão — Maria colocou uma mecha do seu cabelo para frente enquanto olhava para a Roberta.
— Que nada, nenhuma delas chega aos pés da magrela de língua afiada — Roberta fazendo como se não fosse nada demais e eu dei risada quando a Maria abriu um pouco a boca, como se estivesse ofendida pelo apelido que claramente foi dado pelo B-boy enquanto estava a sós com a sua irmã.
[...]
>> Maria >>
Eu sei que o certo era contar para o meu pai, meu tio ou para o meu irmão tudo o que aconteceu hoje cedo. Que eu não poderia deixar que o Victor continuasse seguindo a sua vida normalmente depois de ter tido a capacidade de me ameaçar daquela forma. Contudo, as palavras do Victor vagaram pela minha cabeça como se fosse um andarilho sem direção, que andava e andava mas sempre voltava para o mesmo lugar. Meu irmão era tudo o que eu tinha de melhor nessa vida e por mais que a gente brigasse todas as vezes que se esbarrava, ele ainda era a minha metade. Cogitar a ideia de vê-lo correndo perigo fazia qualquer risco valer a pena.
Ao longo desses meses que eu namorei com ele, nunca passou pela minha cabeça que ele poderia ser o tipo de homem que ameaça alguém por causa de ciúmes. Eu sabia - por mais que eu fosse capaz de negar a mim mesma todos os dias e me forçava a não enxergar a verdade - que ele não prestava, que ele não me amava e que no fundo tudo o que eu era para ele era alguém que estava a sua disposição sempre que ele queria uma noite de sexo. Que eu era apenas alguém que sempre estava disponível para ele. Eu, sozinha, criei uma imagem distorcida de tudo o que ele era, me forcei a acreditar que ele era o único homem capaz de me amar e nesse momento estou me sentindo como se estivesse no fundo do poço.
Sozinha, em um lugar frio, úmido e sem saída.
Já tínhamos chegado na quadra há algumas horas, os meninos continuavam jogando enquanto todas as outras meninas que estavam no banco bebiam alguma coisa com álcool. Amarrei o meu cabelo quando avistei o Júnior que brincava em um cantinho do lado de fora da quadra, ele estava com seus cachos amarrados para trás em um quase coque e fazia um barulho com a boca enquanto fazia os carrinhos em sua mão andar, enquanto prendia o homem aranha com a outra.
— Ele é mesmo só o amigo da vizinhança? — Eu perguntei, colocando um sorriso no rosto na mesma hora o menino virou a sua cabeça para mim - quase imediatamente - ele abriu um sorriso largo e um pouco amarelado enquanto corria para mim. Eu me abaixei um pouco com os braços abertos e o carreguei no colo.
— Sem chances, ele já esteve no espaço — Ele disse como se fosse o óbvio e eu dei uma gargalhada enquanto colocava a cabeça para trás.
— É mesmo?! E o que ele está fazendo agora? — Eu perguntei, sem deixar de expressar o quanto eu estava interessada na sua brincadeira. O mais novo colocou o seu dedo indicador no queixo, fez um biquinho e estreitou os olhos como alguém que estava pensando muito sobre o assunto.
— Ele está ajudando a salvar uma senhora que ficou presa na linha do trem! — Ele fez uma cara como se estivesse muito preocupado sobre o que iria acontecer e eu arregalei os olhos.
— Então a gente tem que ajudar ele, vamos lá! — Eu coloquei a criança no chão e não demorou muito para que ele me puxasse para o canto onde ele estava brincando. Eu amo crianças e troco facilmente qualquer conversa com um adulto para ficar com elas.
Eu estava brincando com o Júnior tranquilamente, mas a minha atenção se voltou totalmente para a quadra quando um dos vapores começou a gritar dizendo que precisava de um tempo. Sentir que o meu coração errou uma batida quando meu olhar se direcionou para o B-boy, que estava com o corpo todo suado, a respiração ofegante e um pouco agachado enquanto sua mão repousava sobre o seu joelho. Seu olhar nitidamente varria toda a arquibancada à procura de algo e só descansou quando caiu sobre o seu filho.
— Tia, eu tô com sede! — Júnior choramingou enquanto olhava para mim. Fazendo com que a minha atenção imediatamente se voltasse para ele.
— Vamos comprar uma garrafinha de água para você— Me levantei e estendi a mão para ele. Não demorou para que o mesmo colocasse a sua mão grudada na minha e eu a agarrasse. Tomei um susto quando me virei e dei de cara com o B-boy do outro lado da rede que separava a grade da arquibancada — Jesus!
Coloquei a mão no peito enquanto tentava controlar a minha respiração.
— Não, B-boy! — Ele disse como se fosse o óbvio e eu revirei os olhos, já os seus desceram diretamente para a minha mão que ainda estava presa na do seu filho — Cofoi, vai sequestrar a minha cria?
— Sim, e não darei uma oferta para resgate — entre no jogo com um tom divertido e o mesmo se inclinou um pouco mais à frente, olhando fixamente nos meus olhos e umedeceu os lábios com um sorriso.
— Uma pena, eu daria um bom resgate… — Sua voz tinha um tom sexy e eu me amaldiçoei por isso ter tido uma reação a isso maior do que deveria.
— Talvez nós dois tenhamos uma definição diferente do que é bom… — Eu alfinetei o mesmo, que deu risada e negou com a cabeça discretamente.
— Eu posso te mostrar a minha, se você prometer que não me gravar com o seu celular — Ele alfinetou, fazendo com que eu desviasse os olhos e mordesse os meus lábios para esconder o sorriso que queria nascer.
— Papai, eu tô com sede! — Júnior resmungou, fazendo com que o B-boy parasse de olhar para o rosto e se virasse para o filho. Colocou a mão no bolso e tirou de lá uma cédula de vinte reais.
— Toma, aproveita e compra uma cerveja para mim — Ele estendeu a nota para mim e eu olhei para ele com a sobrancelha erguida, incrédula pelo seu jeito folgado.
— Tá bom, mas o troco é meu! — Eu peguei a nota de sua mão, colocando-a no bolso do meu vestido afogado e agora foi a vez dele levantar a sobrancelha — É o valor do frete!
Justifiquei como se fosse o óbvio e o mesmo deu uma risada. Ele me olhou de cima para baixo como se estivesse analisando cada pedaço meu e depois encarou o meu rosto.
— Eu poderia pagar de outro jeito… — Ele investiu, fazendo com que eu arregalasse um poucos os olhos, sentisse a minha bochecha queimando de vergonha e automaticamente olhasse para a criança que estava de mãos dadas comigo que cantarolava algo baixinho enquanto passava os dedos pela rede.
— Foi m*l, não aceito cartão! — Ironizei, vendo o mesmo dar risada, passando a ponta da língua pelos lábios e se afastando da rede enquanto assenti com a cabeça.
Não demorou muito para que a gente chegasse na loja. Ajudei o Júnior a subir na arquibancada enquanto esperava o moço da lanchonete fazer o nosso misto. Junior era uma criança muito inteligente e era a cópia do B-boy, sua pele é escura, seus lábios são carnudo e até o pequeno defeito nos olhos - se reparasse bem, poderia notar que os olhos deles era um pouco mais em cima que o outro - era igual, a única coisa que diferenciava os dois era o cabelo menos crespo que o filho tinha. Quando voltamos para a quadra o jogo já tinha terminado e os meninos - O vapor que a Roberta fica, Rato e B-boy - estavam perto das meninas.
— Cofoi, foi fabricar a cerveja? — B-boy perguntou assim que eu entrei a cerveja para ele e eu dei risada — Para alguém que cobrou o frete você demorou até demais.
— E para alguém que reclamou do valor você está exigindo até demais! — Retruquei para o mesmo que levantou uma das sobrancelhas.
— Por que o casalzinho aí não deixa para namorar lá no bar? Eu tô com fome! — Elisa resmunga e passa por nós enquanto segura a mão para o Rato.
— Magrelas que se acham a dona da razão não fazem o meu tipo — B-boy comentou enquanto abria a cerveja e tomava um gole enquanto olhava para mim com a sua visão periférica.
— Nem ogros fazem o meu… — Eu retruquei enquanto desviava o olhar dele e me virava para começar a caminhar em direção a Elisa e Roberta que já estavam indo em direção ao bar.
— É magrela… mas tem uma bundinha gostosa pra c*****o! — B-boy comentou, fazendo com que eu arregalasse os olhos e me virasse para ele que estava bem atrás de mim com um olhar de repreensão. Ele deu risada e levantou as mãos na altura da cabeça - uma delas estava segurando a latinha - igual a alguém que estava se rendendo. Eu dei risada e neguei com a cabeça. sentindo uma sensação boa tomar conta de todo o tormento que ocupada o meu peito desde a manhã.