Capítulo 07 - A Gaiola do Don

1209 Words
Alina Montserrat Eu estava sendo arrastada com pouquíssima dignidade. Mas jamais daria a qualquer um deles o prazer de me ver assustada. Seguimos por corredores estreitos enquanto eu tentava memorizar cada detalhe possível. Câmeras nos cantos superiores, homens armados em pontos estratégicos, portas reforçadas e foi aí que percebi onde estávamos, era uma boate. As luzes vermelhas, música alta vibrando pelo chão, homens ricos bebendo, rindo e analisando mulheres como se fossem mercadoria. Minha cabeça virou bruscamente quando o ruivo acertou um tapa leve na lateral do meu rosto. Não foi forte. Mas humilhante. Meu maxilar já doía de tanto que eu pressionava os dentes. Continuei andando sem reagir. Ainda. Descemos uma pequena escada privada no fim do corredor até chegar a uma área mais isolada. Então ele abriu uma porta e me empurrou para dentro sem qualquer cuidado. Tropecei um passo à frente e quase fui direto contra o chão. Quase. Porque o i****a segurou meu braço no último instante. Tenho certeza absoluta de que não foi gentileza, só não queria “danificar o produto”. Respirei fundo e olhei ao redor. O quarto era… inesperado. Grande e luxuoso até demais para uma vítima de sequestro ficar. Isso era muito estranho. A cama ocupava boa parte do espaço. O banheiro parecia maior que muitos apartamentos, e a janela ampla de vidro escuro entregava uma visão parcial da cidade lá fora. As luzes espalhadas pelas ruas brilhavam contra a noite como pequenas facas douradas. Construções antigas se misturavam com prédios modernos, e ao longe eu conseguia ouvir buzinas, vozes e o som distante do trânsito. Eu já tinha entendido que estava na Itália pelo idioma que circulava pelos corredores. pelos xingamentos, as ordens secas e o problema era descobrir em qual parte daquele inferno eu tinha ido parar. Observei o ambiente mais uma vez ao meu redor. Então era isso. Uma gaiola bonita ainda continuava sendo uma gaiola. — Senta. — o ruivo ordenou. Ignorei completamente. Ele soltou o ar pelo nariz, claramente irritado, e voltou a se aproximar. Sem delicadeza alguma, segurou meus pulsos para cortar as cordas. Assim que as amarras cederam, a circulação retornou, uma dor ardida subiu pelos braços, acompanhada daquela sensação insuportável de agulhas atravessando a pele. Contive a careta, flexionando os dedos devagar enquanto as marcas vermelhas queimavam ao redor dos meus pulsos. Estiquei lentamente os pulsos enquanto observava as marcas vermelhas deixadas pela corda. O ruivo já estava virando as costas quando chamei: — Ei… soldadinho. Ele parou no mesmo instante. Virou devagar, os olhos estreitando. — O quê? Não respondi. Só me movi. Avancei rápido e acertei o golpe direto. Minha mão atingiu o lado da tatuagem no pescoço dele antes que tivesse tempo de reagir. O impacto arrancou um grunhido baixo e fez o homem cambalear para trás, claramente pego de surpresa. — Isso… — falei com calma demais para alguém naquela situação — foi pelos meus cabelos. Antes que recuperasse o equilíbrio, ataquei outra vez. Exatamente como José tinha me ensinado. Meu segundo golpe afundou na lateral da costela dele. O ar saiu pesado dos pulmões do ruivo enquanto ele se curvava por reflexo. — E isso… pelo tapa nas garotas e por assustar minha prima. Agora não existia mais surpresa no rosto dele. Só raiva. Ivan avançou na minha direção como um animal enfurecido. Mas eu já estava posicionada, os pés firmes, corpo inclinado na medida certa, respiração controlada e pronta para reagir mesmo sabendo que um soco dele provavelmente conseguiria me derrubar. Ele percebeu e hesitou por uma fração de segundo, o suficiente para entender que eu sabia exatamente o que estava fazendo. Mas antes que qualquer um de nós atacasse… — Basta. A voz veio da porta grave autoritária. O ruivo parou imediatamente. E, para minha surpresa, parecia mais intimidado do que eu. Ele abaixou o olhar na mesma hora, dando um passo para trás sem discutir, eu não precisava virar para saber quem tinha chegado. Mesmo assim, virei lentamente a cabeça em direção à porta. O chefe dos escrotos. Encostado ali como se fosse dono do mundo ou pior como se tivesse certeza absoluta de que era. E droga… O canalha era absurdamente bonito. Alto, ombros largos, corpo meticulosamente definido sob o terno escuro perfeitamente ajustado, a barba alinhada deixava a mandíbula ainda mais marcada, e os olhos verdes tinham aquele tipo de intensidade perigosa que fazia qualquer pessoa pensar duas vezes antes de enfrentá-lo. Ele passava os dedos lentamente pela barba, exibindo um anel n***o pesado na mão direita. Havia tatuagens discretas em alguns dedos, mas ele abaixou a mão no instante em que percebeu meu olhar ali. Interessante, a postura dele era relaxada. Não porque estivesse despreocupado. Mas porque claramente era o homem mais perigoso daquele lugar… e sabia disso. Aqueles olhos verdes me analisavam sem pressa e pela primeira vez desde que fui sequestrada, senti algo diferente atravessar meu corpo. Não foi medo ou incômodo. Porque era como olhar para uma versão muito mais sombria da frieza que eu conhecia desde criança. A mesma calma controlada que meu pai usava em reuniões. A mesma presença que fazia pessoas se calarem sem precisar levantar a voz. E talvez… A mesma frieza que muitos diziam existir em mim. — Ela me atacou, Don — o ruivo resmungou, ainda segurando o pescoço. — Eu vi. A resposta saiu tranquila. Mas carregada de autoridade suficiente para fazer o ambiente inteiro ficar imóvel. O italiano chefe não desviou os olhos de mim nem por um segundo. — Saia. — Don— — Agora. O ruivo saiu imediatamente, fechando a porta atrás dele. — Bundão — murmurei em português enquanto via o ruivo ir embora. O chefão arqueou levemente a sobrancelha, claramente sem entender. Ótimo. Provavelmente não falava o meu idioma. Assim que o ruivo saiu, voltei toda a minha atenção para o homem parado na porta. Eu ainda não sabia oficialmente o nome dele. Mas já tinha entendido quem comandava aquele lugar. O Don. E foi exatamente essa perceção que fez a realidade finalmente me atingir de verdade. Aquilo não era um sequestro comum. Não eram criminosos improvisados atrás de dinheiro rápido. Eu tinha caído nas mãos da máfia italiana. A p***a da máfia italiana. Algo que sempre pareceu distante demais para existir fora de filmes, documentários ou livros policiais. E agora eu estava ali. Dentro daquilo. Respirei fundo, precisando controlar a vontade absurda de explodir de raiva. Porque o pânico não resolveria nada. Ele continuava me encarando com aqueles olhos verdes frios, atentos a cada mínima reação minha. Nenhum de nós falou por alguns instantes. Então simplesmente virei as costas para ele sem pressa, caminhei até a cama enorme no centro do quarto e me sentei na ponta, sentindo o colchão afundar levemente. Depois me deitei como se aquilo fosse normal. Como se eu não estivesse presa em um lugar comandado por criminosos e eu fosse apenas uma garota cansada descansando após um dia longo. A atmosfera do quarto mudou imediatamente. Mais densa e estranha. Eu sentia o olhar dele sobre mim o tempo inteiro. Fiquei em silêncio. Porque naquele momento eu já começava a perceber uma coisa importante. O homem mais perigoso daquele lugar, talvez fosse a minha melhor oportunidade de sair dali viva.
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