Alina Montserrat
Mavi fez questão de escolher minha roupa.
Segundo ela, eu precisava parar de parecer “uma CEO em miniatura” pelo menos durante algumas horas.
Acabei cedendo.
Junho em Mônaco tinha um clima agradável, quente na medida certa, com aquela brisa leve vinda do mar que deixava tudo mais confortável no fim da tarde.
Ela escolheu um vestido curto em tom bege claro, elegante, com tecido leve e modelagem sofisticada.
As mangas delicadas deixavam meus ombros parcialmente à mostra, enquanto a cintura marcada valorizava minha silhueta de forma discreta.
Combinei com sandálias baixas nude e acessórios minimalistas.
Nada exagerado.
Já Mavi, obviamente, seguiu o caminho oposto.
Vestia uma saia branca curta de cintura alta, uma blusa preta ajustada e óculos escuros enormes que, segundo ela, faziam qualquer mulher parecer rica e inacessível.
Quando terminamos, ela praticamente já estava pronta para desfilar pelo principado.
— Vamos começar pelo Cassino de Monte Carlo?
Ergui os olhos para ela enquanto pegava minha bolsa.
— Nós vamos mesmo conseguir entrar?
Mavi soltou uma gargalhada imediata.
— Talvez não.
Revirei os olhos.
— Então por que ir?
— Porque pessoas bonitas e milionárias precisam tentar coisas irresponsáveis de vez em quando.
— Isso definitivamente parece uma frase que acabará em problema.
— Mas um problema elegante — ela corrigiu, apontando para mim antes de abrir a porta do quarto. — Agora anda.
Saímos do hotel acompanhadas pelos seguranças.
Dois para mim. Dois para ela.
Theo e Carlos caminhavam poucos passos atrás desde que eu me entendia por gente.
Meu pai confiava neles mais do que na maioria das pessoas ao redor.
E, sinceramente, eu também.
Os dois sempre foram muito mais do que apenas seguranças.
Pegavam no meu pé, reclamavam dos meus horários, implicavam quando eu passava horas demais estudando e agiam como irmãos mais velhos extremamente protetores.
Marcelo e Tiago, responsáveis por Mavi, sofriam mais.
Principalmente porque minha prima tratava a própria vida como um evento social permanente.
— Eu ainda não acredito que vocês me seguiram até uma festa universitária fantasiados de convidados — Mavi comentou enquanto descíamos a rua em direção ao porto.
Marcelo manteve a expressão séria.
— A senhorita desapareceu por quase quarenta minutos.
— Eu estava beijando um cara.
— Exatamente o problema — Tiago rebateu.
Uma risada escapou antes que eu pudesse evitar.
Mavi apontou imediatamente na minha direção.
— Olha isso! A Alina riu. Registrem o momento histórico.
— Não exagera.
— Theo, fala a verdade. Ela não parece menos assustadora vestida assim?
Theo respondeu com absoluta tranquilidade:
— Continua intimidando pessoas naturalmente.
— Tá vendo? — falei.
Mavi suspirou dramaticamente.
— Vocês definitivamente nasceram velhos.
Continuamos caminhando pelas ruas elegantes de Mônaco enquanto o movimento aumentava ao nosso redor.
O Cassino de Monte Carlo era ainda mais absurdo pessoalmente.
As luzes douradas refletiam na fachada sofisticada enquanto carros milionários paravam na entrada como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo.
Homens de terno impecável e mulheres usando vestidos que provavelmente custavam mais do que apartamentos inteiros atravessavam as escadarias com naturalidade irritante.
Mavi parecia encantada.
— Eu nasci pra esse lugar.
— Você nasceu pra gastar dinheiro em qualquer lugar — respondi enquanto analisava o movimento.
Ela ignorou completamente.
Tentamos entrar.
O segurança na porta examinou nossos documentos por poucos segundos antes de devolvê-los calmamente.
— Apenas maiores de idade.
Mavi apoiou uma mão no peito, dramaticamente ofendida.
— Isso é preconceito contra jovens milionárias.
Nem o homem conseguiu esconder totalmente a expressão divertida.
— Voltem no próximo ano, senhoritas.
Saímos dali rindo.
Ou melhor…
Mavi rindo.
Porque eu ainda mantinha o mínimo de dignidade.
Seguimos pelas ruas elegantes próximas ao cassino, passando por lojas absurdamente luxuosas, cafés sofisticados e turistas disputando espaço para fotografar qualquer carro esportivo que aparecesse.
Depois fomos até o porto.
Aquilo parecia outro universo.
Os iates enormes iluminavam a marina enquanto música baixa escapava de algumas embarcações privadas.
O cheiro do mar misturado ao perfume caro das pessoas deixava o ambiente ainda mais único.
Mavi tirava fotos sem parar.
— Meu Deus, olha esse barco.
— Parece maior que nossa casa em Angra.
— Eu pisaria facilmente na minha ética por um verão aqui.
— Você pisaria na ética por um café grátis.
Ela abriu a boca em falsa indignação.
— Isso é uma acusação gravíssima.
Continuei andando enquanto admirava as luzes refletindo na água escura.
Por alguns minutos, consegui esquecer reuniões, contratos e expectativas.
Só existia a cidade.
A brisa.
A sensação rara de estar vivendo algo fora da rotina.
Mais tarde, seguimos até uma área comercial próxima ao Jardin Exotique.
O movimento era menor ali, embora ainda houvesse turistas circulando entre restaurantes e pequenas galerias.
Foi quando Mavi teve uma ideia i****a.
O que não era exatamente novidade.
— Vamos dar um perdido nos seguranças.
Virei imediatamente para ela.
— Não.
— Ah, qual é. Só alguns minutos.
— Nossos pais literalmente pagam aqueles homens para evitar exatamente isso.
Ela segurou meu braço enquanto caminhávamos.
— Alina, estamos em Mônaco, não numa guerra civil.
— Você claramente não assiste documentários suficientes.
Continuei distraída olhando algumas vitrines e fotografando a paisagem enquanto Mavi seguia ao meu lado.
Não percebi exatamente em que momento ela começou a mudar o trajeto.
Nem quando Theo, Carlos, Marcelo e Tiago ficaram para trás entre os turistas.
Só despertei totalmente quando ouvi uma voz feminina desesperada perto de nós.
— Por favor… me ajudem…
Uma mulher surgiu próxima a um beco lateral e parecia assustada.
Os cabelos estavam bagunçados, havia um pequeno corte próximo ao lábio e marcas avermelhadas no braço parcialmente escondidas pela manga do casaco rasgado.
Mavi parou imediatamente.
— Meu Deus…
A mulher puxava o próprio cabelo com mãos trêmulas.
— Meu filho… ele está machucado… meu marido ficou violento… eu não consigo carregar ele sozinha…
Meu corpo enrijeceu na mesma hora.
Algo naquilo despertava uma sensação estranha dentro de mim.
Diferente de mim, Mavi já havia se aproximado.
— Calma, onde ele está?
— Aqui perto… por favor… eu só preciso de ajuda por alguns minutos…
Ela parecia desesperada o suficiente para convencer qualquer pessoa.
E talvez exatamente por isso minha desconfiança aumentou.
— Mavi… — comecei.
Mas minha prima já segurava a mão da mulher.
— Ela está machucada, Alina.
Olhei ao redor rapidamente, e meu desconforto piorou.
Ainda assim, acabamos acompanhando a mulher enquanto ela nos guiava por ruas cada vez mais afastadas da área luxuosa de Mônaco.
As vitrines sofisticadas desapareceram aos poucos.
O asfalto já não era tão impecável, e os prédios antigos ocupavam as laterais das ruas estreitas com fachadas desgastadas pelo tempo.
Era a parte pobre de Mônaco.
Porque até os lugares mais luxuosos do mundo escondiam suas rachaduras.
Foi só então que parei abruptamente.
— Nós não devíamos continuar sem os seguranças, Mavi.
Ela virou o rosto na minha direção enquanto ainda acompanhava a mulher.
— Alina, relaxa. Não é como se a gente não soubesse se defender.
— Isso não importa.
Peguei o celular imediatamente.
Liguei para Theo.
Nada.
Depois Carlos.
Sem sinal.
Ao meu lado, Mavi finalmente cedeu e tentou contato com Marcelo e Tiago enquanto continuávamos andando.
Também nada.
Aquilo piorou a sensação r**m crescendo dentro de mim.
A mulher permaneceu alguns passos à frente até perceber nossa hesitação.
Quando voltou o rosto para nós, os olhos dela já estavam cheios de lágrimas.
— Meu filho… — a voz saiu trêmula, carregada por um inglês desesperado. — Meu filho está machucado…
Ela começou a chorar de verdade.
Pelo menos parecia.
Mavi imediatamente se sensibilizou.
— Vamos ajudar ela, Alina.
— Maria Vitória—
Mas minha prima nem esperou eu terminar.
Apenas acelerou os passos atrás da mulher.
— Droga… — xinguei em português antes de seguir as duas.
— Para de ser egoísta, Alina — Mavi retrucou por cima do ombro, ainda caminhando ao lado da mulher. — Nem todo mundo teve a nossa sorte.
Ah, ótimo.
Além de desconfiada, agora eu ainda parecia a vilã da situação.
Soltei o ar lentamente, sentindo a irritação crescer enquanto acelerava os passos atrás da minha prima coração mole.
Enquanto caminhava, tentei outra vez mandar mensagem para Theo e Marcelo avisando onde estávamos.
A mensagem foi enviada.
Mas não entregue.
Meu estômago afundou ainda mais.
Continuei seguindo em frente enquanto analisava tudo ao redor com atenção.
As ruas estavam muito mais vazias agora.
O movimento turístico tinha desaparecido completamente.
Restavam apenas prédios antigos, pequenas mercearias fechadas e corredores estreitos entre construções desgastadas pelo tempo.
A mulher continuava guiando o caminho com pressa.
Apertei o celular na mão com mais força.
— Quanto falta? — perguntei, mantendo os olhos atentos ao redor.
— É logo ali… — ela respondeu sem nos encarar diretamente.
Mavi caminhava ao lado dela completamente focada na história do filho machucado.
Eu não.
Meu corpo inteiro estava rígido agora.
A casa ficava em uma rua estreita e m*l iluminada, escondida entre construções antigas que contrastavam completamente com o restante de Mônaco que havíamos visto até então.
Era simples.
Pequena.
Com tinta descascando perto das janelas e uma porta de madeira desgastada pelo tempo.
A mulher subiu os poucos degraus apressadamente, visivelmente nervosa.
Meu desconforto só aumentava.
Olhei mais uma vez para o celular.
Nenhuma resposta de Theo.
Nenhuma de Carlos.
Nem de Marcelo ou Tiago.
Mas minha localização continuava ativada.
Eles conseguiriam nos encontrar.
Precisavam conseguir.
Antes que eu pudesse pensar mais, a mulher arregalou os olhos de repente e começou a gritar:
— Meu filho! Meu filho, a mamãe está chegando!
No mesmo instante, uma voz infantil ecoou lá de dentro.
— Mãee! Tá doendo!
Congelei por meio segundo.
Merda.
Ela realmente precisava de ajuda.
E eu estava ali desconfiando da situação inteira.
Mavi nem hesitou.
— Meu Deus…
Ela entrou correndo pela porta aberta.
— Mavi, espera! — gritei, indo logo atrás.
Atravessei a entrada segundos depois dela.
E no instante em que meus pés cruzaram a porta…
BUM.
A madeira bateu com força atrás de nós.
O som ecoou pela casa inteira.
Meu celular escapou da minha mão quando me virei imediatamente.
Trancada.
Meu corpo inteiro endureceu e o olhar de Mavi encontrou o meu e, vi medo de verdade nela.
Foi naquele instante que entendi.
Caímos em uma armadilha.