Vínculo de Sangue
A noite não chegou de uma vez.
Ela se insinuou.
Primeiro o céu perdeu o azul. Depois, as nuvens se tornaram cinzentas, pesadas, como se carregassem segredos antigos. O vento soprou diferente, trazendo o cheiro úmido da terra, das folhas apodrecidas, do ferro escondido no sangue dos homens.
Eleno sentiu antes de ver.
A fome.
Não era mais a dor aguda da transmutação. Aquela febre infernal já havia passado. O corpo agora funcionava — perfeito demais. Os sentidos aguçados, o coração silencioso, os músculos obedientes. Mas a fome… a fome era outra coisa.
Era persistente.
Sussurrante.
Sedutora.
Ele caminhava pela floresta com passos leves, quase inexistentes. Já não quebrava galhos. Já não afundava o pé na lama. Parecia flutuar entre as sombras, como se a noite o aceitasse como parte dela.
O vampiro — seu criador, seu inquisidor, seu algoz — o observava à distância.
Não interferia.
Nunca interferia.
Era assim que ele ensinava: pelo silêncio.
Eleno odiava isso.
Cada passo o afastava da cabana onde acordara naquela madrugada. Cada metro o aproximava da vila humana que se espalhava adiante, com suas casas de madeira, suas velas acesas, seus corpos quentes e ignorantes.
— Não — murmurou para si mesmo.
Mas o corpo não obedecia mais às palavras. O cheiro chegava primeiro. Sangue correndo sob a pele. Corações batendo descompassados. Crianças dormindo. Mulheres rezando. Homens exaustos.
Todos vivos.
Todos frágeis.
A fome cresceu.
Ele parou no alto de uma colina e se ajoelhou, pressionando os dedos contra a terra fria. Respirou fundo, se é que ainda respirava de verdade. O instinto gritava.
Caçar.
Alimentar-se.
Sobreviver.
— Eu não sou um animal… — sussurrou.
Uma risada baixa ecoou atrás dele.
— Ainda insiste nisso?
Eleno não se virou. Não precisava. Reconheceria aquela voz em qualquer lugar, em qualquer vida.
— Você sente — continuou o vampiro — porque ainda pensa como um homem. Isso passa.
— Não quero que passe.
O silêncio voltou a se estender entre eles, pesado como uma sentença.
O vampiro se aproximou, seus passos tão silenciosos quanto os de Eleno. Parou ao seu lado, olhando para a vila abaixo, como um predador paciente.
— Você sabe o que somos — disse ele. — Negar isso não o tornará menos faminto.
— Eu sei o que eu não quero ser.
O vampiro inclinou a cabeça, curioso.
— E o que é isso?
Eleno fechou os olhos.
— Um monstro.
A palavra ficou suspensa no ar.
O vampiro sorriu.
— Tarde demais para isso, meu caro.
Antes que Eleno pudesse responder, sentiu a mão fria pousar em seu ombro. Não foi violento. Foi… íntimo. Controlado.
— Mas existe algo que você ainda não entende — continuou ele. — Você não está sozinho nessa fome.
Eleno abriu os olhos.
— O que quer dizer?
O vampiro retirou a mão e, com um movimento preciso, abriu o próprio pulso com a unha afiada. O sangue escuro brotou lentamente, espesso, brilhando sob a lua nascente.
O cheiro atingiu Eleno como um golpe.
Foi pior do que qualquer coisa que sentira antes.
O mundo girou. Os joelhos quase cederam. O som da vila desapareceu, substituído pelo pulsar único daquele sangue ancestral.
— Beba — disse o vampiro.
— Não… — Eleno recuou, cambaleando.
— Isso não é uma ordem é um laço.
O vampiro se aproximou, estendendo o pulso aberto.
— O vínculo de sangue sela o controle. A fome deixa de ser caos. Torna-se… foco.
Eleno sentia a boca salivar. As presas pressionavam a gengiva. O corpo inteiro gritava por aquilo.
— Se eu beber… — começou ele.
— Você sobreviverá — completou o vampiro. — Sem perder a cabeça esta noite.
Eleno olhou para o pulso exposto. Depois para a vila. Depois para si mesmo, refletido nos olhos escuros de quem o havia condenado à eternidade.
— E o preço? — perguntou.
O vampiro sorriu de novo. Um sorriso lento, perigoso.
— Sempre há um.
O silêncio caiu novamente.
Eleno sabia que, se descesse aquela colina sem controle, alguém morreria. Sabia disso com uma certeza c***l. Sabia também que beber daquele sangue o ligaria ainda mais ao ser que desprezava e… desejava compreender.
Ele respirou fundo.
— Só esta vez.
O vampiro assentiu.
Eleno se aproximou.
O primeiro contato foi elétrico. Assim que seus lábios tocaram a pele fria, o mundo se despedaçou. O sangue era denso, antigo, carregado de memórias que não eram suas.
Guerreiros.
Castelos.
Gritos.
Séculos.
Ele bebeu.
E bebeu demais.
Quando finalmente se afastou, caiu de joelhos, ofegante, com a boca manchada de vermelho. O corpo tremia — não de fome, mas de algo muito pior.
Dependência.
O vampiro fechou o pulso, observando-o com atenção clínica.
— Agora você entende — disse. — O sangue não é só alimento. É poder. É vínculo. É controle.
Eleno levantou o olhar, os olhos brilhando num vermelho contido.
— Você fez isso comigo de propósito.
— Sim.
— Para me prender.
— Para te manter vivo.
Eleno riu. Um som curto, quebrado.
— Vivo… — repetiu. — Isso não é vida.
O vampiro se inclinou, segurando seu queixo.
— É eternidade. Aprenda a diferença.
Por um instante, Eleno pensou que o beijaria. O espaço entre eles era mínimo. A tensão, insuportável. Mas o vampiro se afastou.
— Vamos embora — disse. — Antes que o cheiro do sangue humano te enlouqueça outra vez.
Eles desapareceram na floresta.
Mas algo havia mudado.
Naquela noite, Eleno não matou ninguém.
E isso o condenou ainda mais.
Porque, ao invés de se sentir aliviado, sentiu medo.
Medo de precisar daquele sangue novamente.
Medo do controle.
Medo do laço invisível que agora pulsava em suas veias.
Enquanto caminhava atrás de seu criador, uma única certeza se formava em sua mente:
Se continuasse assim… ele perderia não só sua humanidade — mas a si mesmo.
E, em algum ponto daquela eternidade nascente, Eleno começou a pensar na fuga.