Transilvânia, 1744
A fome acordou antes dele.
Não foi um despertar comum — não houve sonho, nem transição. Eleno simplesmente abriu os olhos com o corpo em alerta máximo, cada sentido gritando como se estivesse atrasado para algo vital.
O mundo estava diferente.
A floresta respirava.
Ele ouvia o estalar de galhos distantes, o roçar de insetos sob a terra, o sangue correndo nas veias de criaturas que nem via. Cada cheiro era uma informação. Cada som, um convite.
Eleno se sentou de súbito.
O coração ainda batia — lento, pesado, poderoso — mas não como antes. Havia controle ali. Um ritmo que não pedia permissão.
— Não se levante rápido — disse a voz conhecida.
O vampiro estava encostado em uma árvore próxima, observando-o com atenção calculada. Não havia julgamento em seu olhar. Apenas expectativa.
— Eu sinto… tudo — murmurou Eleno. — Está alto demais.
— Vai aprender a filtrar — respondeu ele. — Mas não hoje.
Eleno passou a mão pelo rosto.
A febre havia recuado, mas deixara algo no lugar. Um vazio profundo, ardente, que se espalhava pelo peito e pela garganta.
— É isso? — perguntou. — A fome?
O vampiro assentiu lentamente.
— A verdadeira.
Eleno tentou se levantar.
Conseguiu.
O corpo respondeu com uma fluidez assustadora. Nenhuma dor. Nenhuma fraqueza. Ele era rápido — rápido demais. Preciso demais.
— Eu não posso… — começou.
— Pode — interrompeu o vampiro. — E vai.
Eleno o encarou.
— Você disse que eu teria escolha.
— E tem. — O vampiro se aproximou. — Mas escolhas não eliminam consequências.
O silêncio entre eles era denso.
— Eu não vou matar ninguém — disse Eleno, firme.
— Então não mate.
— E se eu perder o controle?
O vampiro inclinou a cabeça.
— Por isso eu estarei com você.
Eles caminharam pela floresta lado a lado.
Cada passo era uma batalha interna. O cheiro de animais despertava o instinto com violência. Eleno sentia a saliva se acumular na boca, os caninos pressionando a gengiva, implorando.
— Respire — orientou o vampiro. — Foque em mim.
Eleno tentou.
O primeiro coelho surgiu entre os arbustos.
O corpo de Eleno reagiu antes da mente.
Ele avançou.
Foi rápido demais. Forte demais. Quando percebeu, já estava com o animal nas mãos, o coração pequeno disparado sob seus dedos.
O mundo estreitou.
O cheiro de sangue explodiu.
— Eleno — chamou o vampiro, firme. — Olhe para mim.
Eleno hesitou.
As presas desceram sozinhas.
O coelho se debateu.
— Você escolhe — disse o vampiro. — Agora.
O tremor percorreu o corpo de Eleno.
Ele fechou os olhos por um segundo interminável — e então virou o rosto.
Soltou o animal, que fugiu desesperado pela mata.
Eleno caiu de joelhos.
— Eu… eu quase… — a voz falhou.
O vampiro ajoelhou-se diante dele.
— Quase não é o mesmo que fez — disse. — Mas a fome não vai parar.
— Então como? — perguntou Eleno, desesperado.
O vampiro ficou em silêncio por um momento.
Então fez algo inesperado.
Cortou a própria palma da mão.
O sangue escorreu lento, espesso, escuro.
— Não — murmurou Eleno, sentindo o corpo reagir com violência. — Eu não posso…
— Pode — respondeu ele. — E deve. Ou sua próxima escolha não será tão limpa.
O cheiro atingiu Eleno como um golpe.
Ele gemeu.
O vampiro aproximou a mão de seus lábios.
— Devagar — advertiu.
Eleno obedeceu.
O primeiro contato foi êxtase e tortura. O sangue do vampiro acalmava a fome, mas despertava algo mais profundo — um vínculo que apertava o peito, confundindo desejo e dependência.
Ele bebeu pouco.
O suficiente.
Quando se afastou, estava tremendo.
— Isso não é sustentável — murmurou.
— Não — concordou o vampiro. — Mas é um começo.
Eles continuaram caminhando.
Mais adiante, uma cabana isolada surgiu entre as árvores. Luz fraca escapava pelas frestas.
O coração de Eleno acelerou.
— Tem alguém ali — disse.
— Sim — respondeu o vampiro. — Um homem. Sozinho.
O silêncio caiu pesado.
— Eu não vou — disse Eleno imediatamente.
— Eu sei — respondeu ele. — Mas você precisa sentir.
Aproximaram-se o suficiente para ouvir a respiração do homem, o pulsar do sangue.
Eleno levou a mão ao peito.
A fome rugiu.
— É isso que somos agora? — perguntou, a voz quebrada.
— É isso que você luta para não ser — corrigiu o vampiro.
Eleno fechou os olhos.
— Me tire daqui.
O vampiro não hesitou.
Eles se afastaram rapidamente, desaparecendo na floresta.
Somente quando a cabana ficou distante, Eleno parou.
— Eu quase quis — confessou. — E isso me assusta.
O vampiro o encarou.
— O que te assusta é o que te mantém humano — disse. — Por enquanto.
O silêncio voltou a envolvê-los.
— Quanto tempo até eu perder isso? — perguntou Eleno.
O vampiro não respondeu de imediato.
— Depende — disse por fim. — Do quanto você vai lutar… e do quanto vai amar.
Eleno ergueu o olhar.
— Amar?
O vampiro sustentou o olhar dele por um segundo longo demais.
— A noite cobra tudo — disse.
— Inclusive o coração.