A primeira caçada

864 Words
Transilvânia, 1744 A fome acordou antes dele. Não foi um despertar comum — não houve sonho, nem transição. Eleno simplesmente abriu os olhos com o corpo em alerta máximo, cada sentido gritando como se estivesse atrasado para algo vital. O mundo estava diferente. A floresta respirava. Ele ouvia o estalar de galhos distantes, o roçar de insetos sob a terra, o sangue correndo nas veias de criaturas que nem via. Cada cheiro era uma informação. Cada som, um convite. Eleno se sentou de súbito. O coração ainda batia — lento, pesado, poderoso — mas não como antes. Havia controle ali. Um ritmo que não pedia permissão. — Não se levante rápido — disse a voz conhecida. O vampiro estava encostado em uma árvore próxima, observando-o com atenção calculada. Não havia julgamento em seu olhar. Apenas expectativa. — Eu sinto… tudo — murmurou Eleno. — Está alto demais. — Vai aprender a filtrar — respondeu ele. — Mas não hoje. Eleno passou a mão pelo rosto. A febre havia recuado, mas deixara algo no lugar. Um vazio profundo, ardente, que se espalhava pelo peito e pela garganta. — É isso? — perguntou. — A fome? O vampiro assentiu lentamente. — A verdadeira. Eleno tentou se levantar. Conseguiu. O corpo respondeu com uma fluidez assustadora. Nenhuma dor. Nenhuma fraqueza. Ele era rápido — rápido demais. Preciso demais. — Eu não posso… — começou. — Pode — interrompeu o vampiro. — E vai. Eleno o encarou. — Você disse que eu teria escolha. — E tem. — O vampiro se aproximou. — Mas escolhas não eliminam consequências. O silêncio entre eles era denso. — Eu não vou matar ninguém — disse Eleno, firme. — Então não mate. — E se eu perder o controle? O vampiro inclinou a cabeça. — Por isso eu estarei com você. Eles caminharam pela floresta lado a lado. Cada passo era uma batalha interna. O cheiro de animais despertava o instinto com violência. Eleno sentia a saliva se acumular na boca, os caninos pressionando a gengiva, implorando. — Respire — orientou o vampiro. — Foque em mim. Eleno tentou. O primeiro coelho surgiu entre os arbustos. O corpo de Eleno reagiu antes da mente. Ele avançou. Foi rápido demais. Forte demais. Quando percebeu, já estava com o animal nas mãos, o coração pequeno disparado sob seus dedos. O mundo estreitou. O cheiro de sangue explodiu. — Eleno — chamou o vampiro, firme. — Olhe para mim. Eleno hesitou. As presas desceram sozinhas. O coelho se debateu. — Você escolhe — disse o vampiro. — Agora. O tremor percorreu o corpo de Eleno. Ele fechou os olhos por um segundo interminável — e então virou o rosto. Soltou o animal, que fugiu desesperado pela mata. Eleno caiu de joelhos. — Eu… eu quase… — a voz falhou. O vampiro ajoelhou-se diante dele. — Quase não é o mesmo que fez — disse. — Mas a fome não vai parar. — Então como? — perguntou Eleno, desesperado. O vampiro ficou em silêncio por um momento. Então fez algo inesperado. Cortou a própria palma da mão. O sangue escorreu lento, espesso, escuro. — Não — murmurou Eleno, sentindo o corpo reagir com violência. — Eu não posso… — Pode — respondeu ele. — E deve. Ou sua próxima escolha não será tão limpa. O cheiro atingiu Eleno como um golpe. Ele gemeu. O vampiro aproximou a mão de seus lábios. — Devagar — advertiu. Eleno obedeceu. O primeiro contato foi êxtase e tortura. O sangue do vampiro acalmava a fome, mas despertava algo mais profundo — um vínculo que apertava o peito, confundindo desejo e dependência. Ele bebeu pouco. O suficiente. Quando se afastou, estava tremendo. — Isso não é sustentável — murmurou. — Não — concordou o vampiro. — Mas é um começo. Eles continuaram caminhando. Mais adiante, uma cabana isolada surgiu entre as árvores. Luz fraca escapava pelas frestas. O coração de Eleno acelerou. — Tem alguém ali — disse. — Sim — respondeu o vampiro. — Um homem. Sozinho. O silêncio caiu pesado. — Eu não vou — disse Eleno imediatamente. — Eu sei — respondeu ele. — Mas você precisa sentir. Aproximaram-se o suficiente para ouvir a respiração do homem, o pulsar do sangue. Eleno levou a mão ao peito. A fome rugiu. — É isso que somos agora? — perguntou, a voz quebrada. — É isso que você luta para não ser — corrigiu o vampiro. Eleno fechou os olhos. — Me tire daqui. O vampiro não hesitou. Eles se afastaram rapidamente, desaparecendo na floresta. Somente quando a cabana ficou distante, Eleno parou. — Eu quase quis — confessou. — E isso me assusta. O vampiro o encarou. — O que te assusta é o que te mantém humano — disse. — Por enquanto. O silêncio voltou a envolvê-los. — Quanto tempo até eu perder isso? — perguntou Eleno. O vampiro não respondeu de imediato. — Depende — disse por fim. — Do quanto você vai lutar… e do quanto vai amar. Eleno ergueu o olhar. — Amar? O vampiro sustentou o olhar dele por um segundo longo demais. — A noite cobra tudo — disse. — Inclusive o coração.
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