Transilvânia, 1744
Eleno acordou gritando.
O som rasgou a floresta como um animal ferido, ecoando entre as árvores antes de ser engolido pela noite. Seu corpo arqueou contra a pedra fria, os músculos contraindo-se de forma violenta, descontrolada.
O mundo ardia.
Não era dor comum — era uma febre viva, correndo sob a pele, queimando os ossos, apertando o peito como mãos invisíveis. Cada batida do coração parecia errada. Forte demais. Lenta demais. Prestes a parar.
— Respire — disse a voz.
O vampiro estava ali.
Sentado próximo a ele, atento, imóvel como uma sombra que escolheu permanecer. Seus olhos acompanhavam cada espasmo, cada tremor.
— Isso não é respirar — rosnou Eleno, a voz quebrada. — Isso é morrer.
— Sim — respondeu ele, sem suavizar. — É exatamente isso.
Eleno riu, um som rouco, quase histérico, que se dissolveu em outro grito quando a dor atravessou sua coluna. Sentiu algo se partir dentro de si — não carne, mas estrutura. Como se seu corpo estivesse sendo desmontado peça por peça para ser reconstruído de forma c***l.
Ele tentou se sentar.
Falhou.
As mãos tremiam. Os dedos pareciam longos demais, sensíveis demais. O chão frio queimava como brasa contra sua pele.
— Não me toque — murmurou, quando sentiu a presença do vampiro se aproximar.
— Ainda não — concordou ele. — O primeiro ciclo precisa acontecer sem ajuda.
— Quanto tempo…?
— Até você parar de pedir.
O mundo voltou a girar.
Eleno fechou os olhos e foi arrastado para dentro de si.
Veio o passado.
A infância rígida, as orações repetidas sem fé, os olhares que aprendia a desviar, os desejos sufocados até doer. Veio o peso da igreja, a voz do inquisidor, as mãos manchadas de sangue em nome de Deus.
Veio o beijo.
O primeiro.
A boca do vampiro, lenta, firme, quebrando algo que ele nem sabia que estava preso. O gosto, a vertigem, a entrega.
— Pare — sussurrou Eleno, não sabendo a quem pedia.
O corpo respondeu com outro espasmo.
O coração falhou.
Literalmente.
Por um instante aterrador, não bateu.
O silêncio dentro de seu peito foi absoluto.
O vampiro levantou-se em um movimento brusco.
— Não — murmurou, aproximando-se. — Ainda não.
Ele ajoelhou-se ao lado de Eleno e pousou a mão sobre seu peito.
— Bata — ordenou, a voz firme. — Bata.
Eleno arfou.
O coração retomou o ritmo, errado, irregular, mas vivo.
Ou quase.
— Você está no limite — disse o vampiro. — Agora vem a fome.
Eleno sentiu antes de entender.
Era um vazio profundo, cavernoso, que se abria dentro de si. Não era fome humana. Não era estômago. Era algo mais antigo, mais urgente.
Ele se contorceu.
— Está… queimando — sussurrou.
— Sangue — respondeu o vampiro. — Seu corpo está exigindo.
— Eu não quero… — Eleno engoliu em seco. — Eu não quero ferir ninguém.
O vampiro inclinou a cabeça.
— Então não fira — disse. — Beba de mim.
O olhar de Eleno subiu lentamente.
Havia medo ali.
E desejo.
— Eu não sei se consigo parar.
— Eu sei — respondeu o vampiro, aproximando-se ainda mais. — Confie em mim.
Ele ajoelhou-se à frente de Eleno, expondo o próprio pulso novamente. O sangue pulsava sob a pele pálida.
— Devagar — orientou. — Ou você vai se perder.
Eleno segurou o pulso dele.
O contato foi como eletricidade.
Ele hesitou apenas um segundo antes de levar a boca até a ferida.
O primeiro gole foi caos.
O sangue do vampiro invadiu sua boca como fogo e gelo ao mesmo tempo. Eleno gemeu, os dedos cravando-se no braço dele, o corpo arqueando.
A dor diminuiu.
A fome aumentou.
— Pare — ordenou o vampiro, firme.
Eleno tentou.
O instinto gritou.
Ele bebeu mais uma vez antes de ser afastado com força suficiente para fazê-lo cair para trás.
— Eu disse devagar — rosnou o vampiro, os olhos brilhando.
Eleno arfava, o peito subindo e descendo de forma errática.
— Desculpa — murmurou. — Eu… eu não pensei.
O vampiro observou-o por um longo momento.
Então estendeu a mão.
— Você ainda está aqui — disse. — Isso significa que está vencendo.
— Não parece uma vitória.
— Nunca parece.
O silêncio se instalou entre eles, quebrado apenas pela respiração irregular de Eleno.
— O que eu vou me tornar? — perguntou ele, finalmente.
O vampiro não respondeu de imediato.
— Você vai perder coisas — disse por fim. — Luz. Fé. Simplicidade.
— E o que eu ganho?
O vampiro inclinou-se, aproximando o rosto do dele.
— Verdade — respondeu. — E escolha.
Eleno fechou os olhos.
— Então fique — murmurou. — Não me deixe atravessar isso sozinho.
O vampiro pousou a mão sobre sua testa, um gesto surpreendentemente suave.
— Eu prometi — disse. — E não quebro pactos.
A febre voltou a subir.
Mas, dessa vez, Eleno não gritou.