O pacto da floresta

770 Words
Transilvânia, 1744 A floresta não dormia. Eleno percebeu isso no instante em que cruzou o limite das árvores. O mundo atrás dele — a pedra, a fé, as regras — pareceu fechar-se como uma porta pesada. À frente, havia apenas o escuro vivo, pulsante, carregado de sons que não pediam permissão para existir. Ele caminhava sozinho. A capa escura escondia o uniforme inquisitorial que ainda vestia por baixo. Um último disfarce. Um último gesto de pertencimento a algo que já não o aceitava. Cada passo afundava levemente no solo úmido. O cheiro de terra, musgo e folhas antigas misturava-se a algo mais — ferro, quente, familiar. Sangue. O coração acelerou. — Você veio — disse a voz, surgindo da escuridão. Eleno parou. O vampiro emergiu entre as árvores como se a floresta o tivesse moldado. Não havia ameaça em sua postura, mas havia poder — contido, atento, esperando. — Você disse que eu viria — respondeu Eleno. — Disse — concordou ele. — Mas dizer não é o mesmo que cruzar. O vampiro aproximou-se lentamente, os olhos atentos ao menor sinal de hesitação. — Ainda pode ir embora — disse. — Depois desta noite, não haverá retorno. Eleno olhou ao redor. A floresta parecia observá-los. — Se eu voltar — disse — serei caçado. Vigiado. Quebrado. — E se ficar? — Perderei tudo o que fui. O vampiro assentiu. — Sim. O silêncio se estendeu entre eles. — Faça — disse Eleno, por fim. — Antes que eu mude de ideia. O vampiro o estudou por um longo momento. — A transmutação não é um ataque — disse. — É um pacto. Você não será tomado. Você oferecerá. — O quê? — Sangue, Vontade, Verdade. O vampiro estendeu a mão. — Tire a capa. Eleno obedeceu. O tecido caiu no chão da floresta, abandonado como uma pele antiga. O vampiro aproximou-se ainda mais, agora a poucos centímetros, e tocou o peito de Eleno. — Seu coração ainda bate — murmurou. — Forte. Teimoso. — Por enquanto. O vampiro sorriu. — A primeira dor será física — disse. — A segunda, memória. — E a terceira? — A terceira… — ele inclinou a cabeça. — Você vai gostar. Eleno engoliu em seco. — Comece. O vampiro conduziu-o até uma clareira pequena, onde a lua conseguia atravessar as copas das árvores. No centro, havia uma pedra antiga, marcada por símbolos desgastados pelo tempo. — Aqui — disse ele. — Outros pactos foram feitos. — Quantos sobreviveram? — perguntou Eleno. — Os que não mentiram para si mesmos. O vampiro retirou uma adaga curta do próprio cinto. A lâmina era escura, antiga. — Dê-me sua mão. Eleno estendeu-a. O corte foi rápido. O sangue brotou quente, vivo, escorrendo pelos dedos. O impacto foi imediato. O mundo pareceu se aguçar, os sons mais nítidos, as cores mais densas. O vampiro levou a mão de Eleno aos lábios. — Não se mova — murmurou. Quando a língua tocou o sangue, Eleno sentiu algo quebrar dentro de si. Não dor. Reconhecimento. O vampiro fechou os olhos por um instante, absorvendo não apenas o sangue, mas o que ele carregava — medo, fé, desejo, resistência. — Agora — disse ele, afastando-se — é a sua vez. O vampiro virou a lâmina contra si mesmo e cortou o próprio pulso. O sangue que emergiu era diferente. Mais escuro. Mais denso. O cheiro atingiu Eleno como um golpe. — Beba — ordenou o vampiro. — Eu… — Eleno hesitou. — Ou isso acaba agora. Eleno deu um passo à frente. Segurou o pulso do vampiro. O contato fez seu corpo estremecer. O sangue pulsava sob seus dedos como algo vivo, consciente. Ele levou a boca até a ferida. No primeiro contato, o mundo explodiu. Calor. Dor. Prazer. O sangue do vampiro desceu por sua garganta como fogo líquido. Eleno arfou, as pernas quase falhando. Memórias que não eram suas invadiram sua mente — noites antigas, caçadas, perdas, solidão infinita. Ele tentou se afastar. O vampiro segurou sua nuca. — Não — disse, firme. — Não lute agora. Eleno bebeu mais. Quando finalmente foi afastado, caiu de joelhos, ofegante, o corpo inteiro em convulsão. — Isso é só o começo — disse o vampiro, ajoelhando-se diante dele. — A fome virá. A dor virá. O ódio também. — E você? — perguntou Eleno, a voz rouca. — Eu ficarei — respondeu ele. — Até você atravessar… ou quebrar. Eleno sentiu o mundo escurecer nas bordas da visão. Antes de perder a consciência, sentiu os braços do vampiro segurando-o. — Bem-vindo à noite — murmurou ele. Eleno caiu. Mas não sozinho.
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