Transilvânia, 1744
A floresta não dormia.
Eleno percebeu isso no instante em que cruzou o limite das árvores. O mundo atrás dele — a pedra, a fé, as regras — pareceu fechar-se como uma porta pesada. À frente, havia apenas o escuro vivo, pulsante, carregado de sons que não pediam permissão para existir.
Ele caminhava sozinho.
A capa escura escondia o uniforme inquisitorial que ainda vestia por baixo. Um último disfarce. Um último gesto de pertencimento a algo que já não o aceitava.
Cada passo afundava levemente no solo úmido. O cheiro de terra, musgo e folhas antigas misturava-se a algo mais — ferro, quente, familiar.
Sangue.
O coração acelerou.
— Você veio — disse a voz, surgindo da escuridão.
Eleno parou.
O vampiro emergiu entre as árvores como se a floresta o tivesse moldado. Não havia ameaça em sua postura, mas havia poder — contido, atento, esperando.
— Você disse que eu viria — respondeu Eleno.
— Disse — concordou ele. — Mas dizer não é o mesmo que cruzar.
O vampiro aproximou-se lentamente, os olhos atentos ao menor sinal de hesitação.
— Ainda pode ir embora — disse. — Depois desta noite, não haverá retorno.
Eleno olhou ao redor.
A floresta parecia observá-los.
— Se eu voltar — disse — serei caçado. Vigiado. Quebrado.
— E se ficar?
— Perderei tudo o que fui.
O vampiro assentiu.
— Sim.
O silêncio se estendeu entre eles.
— Faça — disse Eleno, por fim. — Antes que eu mude de ideia.
O vampiro o estudou por um longo momento.
— A transmutação não é um ataque — disse. — É um pacto. Você não será tomado. Você oferecerá.
— O quê?
— Sangue, Vontade, Verdade.
O vampiro estendeu a mão.
— Tire a capa.
Eleno obedeceu.
O tecido caiu no chão da floresta, abandonado como uma pele antiga. O vampiro aproximou-se ainda mais, agora a poucos centímetros, e tocou o peito de Eleno.
— Seu coração ainda bate — murmurou. — Forte. Teimoso.
— Por enquanto.
O vampiro sorriu.
— A primeira dor será física — disse. — A segunda, memória.
— E a terceira?
— A terceira… — ele inclinou a cabeça. — Você vai gostar.
Eleno engoliu em seco.
— Comece.
O vampiro conduziu-o até uma clareira pequena, onde a lua conseguia atravessar as copas das árvores. No centro, havia uma pedra antiga, marcada por símbolos desgastados pelo tempo.
— Aqui — disse ele. — Outros pactos foram feitos.
— Quantos sobreviveram? — perguntou Eleno.
— Os que não mentiram para si mesmos.
O vampiro retirou uma adaga curta do próprio cinto. A lâmina era escura, antiga.
— Dê-me sua mão.
Eleno estendeu-a.
O corte foi rápido.
O sangue brotou quente, vivo, escorrendo pelos dedos. O impacto foi imediato. O mundo pareceu se aguçar, os sons mais nítidos, as cores mais densas.
O vampiro levou a mão de Eleno aos lábios.
— Não se mova — murmurou.
Quando a língua tocou o sangue, Eleno sentiu algo quebrar dentro de si.
Não dor.
Reconhecimento.
O vampiro fechou os olhos por um instante, absorvendo não apenas o sangue, mas o que ele carregava — medo, fé, desejo, resistência.
— Agora — disse ele, afastando-se — é a sua vez.
O vampiro virou a lâmina contra si mesmo e cortou o próprio pulso.
O sangue que emergiu era diferente. Mais escuro. Mais denso. O cheiro atingiu Eleno como um golpe.
— Beba — ordenou o vampiro.
— Eu… — Eleno hesitou.
— Ou isso acaba agora.
Eleno deu um passo à frente.
Segurou o pulso do vampiro.
O contato fez seu corpo estremecer. O sangue pulsava sob seus dedos como algo vivo, consciente.
Ele levou a boca até a ferida.
No primeiro contato, o mundo explodiu.
Calor.
Dor.
Prazer.
O sangue do vampiro desceu por sua garganta como fogo líquido. Eleno arfou, as pernas quase falhando. Memórias que não eram suas invadiram sua mente — noites antigas, caçadas, perdas, solidão infinita.
Ele tentou se afastar.
O vampiro segurou sua nuca.
— Não — disse, firme. — Não lute agora.
Eleno bebeu mais.
Quando finalmente foi afastado, caiu de joelhos, ofegante, o corpo inteiro em convulsão.
— Isso é só o começo — disse o vampiro, ajoelhando-se diante dele. — A fome virá. A dor virá. O ódio também.
— E você? — perguntou Eleno, a voz rouca.
— Eu ficarei — respondeu ele. — Até você atravessar… ou quebrar.
Eleno sentiu o mundo escurecer nas bordas da visão.
Antes de perder a consciência, sentiu os braços do vampiro segurando-o.
— Bem-vindo à noite — murmurou ele.
Eleno caiu.
Mas não sozinho.