Capítulo 17

1008 Words
O Aviso A noite tinha cheiro de metal. Raul percebeu isso antes mesmo de entender o porquê. Não era sangue — ainda não — mas havia algo no ar que fazia sua pele arrepiar, como se a cidade tivesse prendido a respiração. Ele saiu de casa sem avisar ninguém. O pai não estava. A mãe dormia cedo demais para notar ausências. Raul aprendera a desaparecer por algumas horas sem deixar rastros. Andava rápido, mãos enfiadas no casaco, pensamentos girando em torno de um único nome que não deveria significar nada — mas significava tudo. Eleno. A forma como ele o observara. O quase-toque. O aviso selado. “Esta noite não é segura.” Raul não acreditava em presságios, mas acreditava em instintos. E o seu o puxava para o mesmo lugar de sempre. O bar estava mais cheio do que o habitual. Vozes altas. Risadas forçadas. Um excesso de corpos que não combinava com o silêncio tenso das ruas ao redor. Raul sentiu o desconforto imediatamente. Sentou-se ao balcão, pediu uma bebida que m*l tocou. Observava os rostos à sua volta, tentando identificar o que o incomodava. Foi então que percebeu: havia alguém ali que não pertencia. O homem estava encostado próximo à porta. Alto, magro demais, olhos escuros que não acompanhavam o sorriso educado em seu rosto. Ele observava as pessoas como quem avalia mercadorias. Quando o olhar dele cruzou com o de Raul, algo se contraiu em seu estômago. Caçador Raul não sabia explicar, mas reconheceu o perigo da mesma forma que sempre reconhecera rejeição: no fundo dos ossos. Ele desviou o olhar, mas já era tarde. — Está sozinho? — perguntou o homem, aproximando-se com naturalidade ensaiada. A voz era suave demais. — Estou esperando alguém — respondeu Raul, firme. O homem sorriu. — Sempre estamos. Raul segurou o copo com mais força. — Não estou interessado. — Não falei em interesse — respondeu o estranho. — Falei em companhia. Antes que Raul pudesse responder, uma presença se interpôs entre eles. — Ele disse não. A voz de Eleno era baixa, controlada. Mas havia algo nela que fez o homem recuar meio passo. Raul levantou os olhos, surpreso. Eleno estava ali. Os traços serenos. O olhar escuro e atento. — Não estamos em território de caça — continuou Eleno. — Vá embora. O estranho o encarou por um longo momento. Um sorriso frio surgiu em seus lábios. — Você está muito longe de casa — disse. — E muito apegado a coisas frágeis. Eleno não se moveu. — Último aviso. O homem deu de ombros, afastando-se lentamente. — Não nos veremos outra vez. Quando ele saiu, o bar pareceu respirar novamente. Raul soltou o ar que nem percebera estar segurando. — Quem era ele? — perguntou. Eleno não respondeu de imediato. Observava a porta fechada, como se ainda pudesse vê-lo. — Alguém que não respeita limites — disse por fim. — E que agora sabe da sua existência. Raul sentiu um frio percorrer-lhe a espinha. — Você está dizendo que estou em perigo? Eleno virou-se para ele. — Você sempre esteve. Só não sabia. Raul engoliu em seco. — Por sua causa? — Por causa do mundo — corrigiu Eleno. — Eu apenas faço parte dele. Eles saíram do bar juntos. A rua estava deserta. As sombras pareciam mais longas, mais densas. — O que você é, Eleno? — perguntou Raul, parando sob uma lanterna. Eleno fechou os olhos por um instante. Quando os abriu, havia cansaço ali. E algo mais profundo. — Alguém que deveria manter distância de você. Raul deu um passo à frente, Eleno só fala por parábolas e isso as vezes o deixa intrigado e curioso. Não entende o motivo que Eleno disse a frase: — Alguém que deveria manter distância de você! — E se eu não quiser essa distância? O silêncio entre eles era quase palpável. — Então preciso te avisar — disse Eleno. — Há criaturas que caçam sem culpa. Que não escolhem. Que não hesitam. — E você? — Raul perguntou. Eleno o encarou. — Eu escolho todos os dias. Eleno escolhe todos os dias desde sua fuga há anos, escolhe não machucar pessoas, escolhe ser sóz escolhe deixar um local se as pessoas começam a notar que ele é diferente. Raul sentiu o peso daquelas palavras. Havia luta ali. Culpa. Disciplina forjada na dor. — Ele vai voltar? — perguntou Raul. — Não — respondeu Eleno. — Mas outros virão. Raul respirou fundo. — Então me diga o que fazer. Eleno hesitou. Aproximou-se o suficiente para que Raul sentisse o frio sutil que emanava dele. — Confie em mim — disse. — Mesmo quando eu te disser para correr. Raul assentiu. Não por ingenuidade. Por decisão. Naquela noite, enquanto se separavam na esquina, Raul percebeu algo com clareza assustadora: Ele já havia cruzado a linha. E, pela primeira vez, não se arrependeu. Raul caminhou para sua casa e foi direto para seu quarto pensar, Eleno o deixava intrigado. Quem é esse homem, que surgiu do nada? Ele exita em admitir mas esse homem misterioso conquistou seu coração. Se ele admitisse ele poderia perder a vida. Imagine se seu pai desconfiasse que ele está interessado em um homem, em saber desse homem, quem ele é? Ou de onde veio. Isso não importa para Raul. O seu coração lhe diz que ele e Eleno irão caminhar juntos e ele só não sabe para onde irão ou mesmo o que vão fazer. Raul se lembra do homem que o abordou e que Eleno literalmente espantou. " Por que aquele homem se aproximou de mim?" "Boas intenções ele não tinha e Eleno percebeu" Eleno fala por parábolas e ele tenta entender. O que esse homem é? Raul suspira e olha para o teto de seu quarto. — A vida era mais fácil quando eu era pequeno. — Só brincar, estudar e comer da boa comida que minha mãe preparava. — Não havia, pretendentes, não havia essa insistência de meu pai em me casar. — Havia apenas eu existindo, mas agora...
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD