O Aviso
A noite tinha cheiro de metal.
Raul percebeu isso antes mesmo de entender o porquê. Não era sangue — ainda não — mas havia algo no ar que fazia sua pele arrepiar, como se a cidade tivesse prendido a respiração.
Ele saiu de casa sem avisar ninguém. O pai não estava. A mãe dormia cedo demais para notar ausências. Raul aprendera a desaparecer por algumas horas sem deixar rastros.
Andava rápido, mãos enfiadas no casaco, pensamentos girando em torno de um único nome que não deveria significar nada — mas significava tudo.
Eleno.
A forma como ele o observara. O quase-toque.
O aviso selado.
“Esta noite não é segura.”
Raul não acreditava em presságios, mas acreditava em instintos. E o seu o puxava para o mesmo lugar de sempre.
O bar estava mais cheio do que o habitual. Vozes altas. Risadas forçadas. Um excesso de corpos que não combinava com o silêncio tenso das ruas ao redor.
Raul sentiu o desconforto imediatamente.
Sentou-se ao balcão, pediu uma bebida que m*l tocou. Observava os rostos à sua volta, tentando identificar o que o incomodava. Foi então que percebeu: havia alguém ali que não pertencia.
O homem estava encostado próximo à porta. Alto, magro demais, olhos escuros que não acompanhavam o sorriso educado em seu rosto. Ele observava as pessoas como quem avalia mercadorias.
Quando o olhar dele cruzou com o de Raul, algo se contraiu em seu estômago.
Caçador
Raul não sabia explicar, mas reconheceu o perigo da mesma forma que sempre reconhecera rejeição: no fundo dos ossos.
Ele desviou o olhar, mas já era tarde.
— Está sozinho? — perguntou o homem, aproximando-se com naturalidade ensaiada.
A voz era suave demais.
— Estou esperando alguém — respondeu Raul, firme.
O homem sorriu.
— Sempre estamos.
Raul segurou o copo com mais força.
— Não estou interessado.
— Não falei em interesse — respondeu o estranho. — Falei em companhia.
Antes que Raul pudesse responder, uma presença se interpôs entre eles.
— Ele disse não.
A voz de Eleno era baixa, controlada. Mas havia algo nela que fez o homem recuar meio passo.
Raul levantou os olhos, surpreso. Eleno estava ali. Os traços serenos. O olhar escuro e atento.
— Não estamos em território de caça — continuou Eleno. — Vá embora.
O estranho o encarou por um longo momento. Um sorriso frio surgiu em seus lábios.
— Você está muito longe de casa — disse. — E muito apegado a coisas frágeis.
Eleno não se moveu.
— Último aviso.
O homem deu de ombros, afastando-se lentamente.
— Não nos veremos outra vez.
Quando ele saiu, o bar pareceu respirar novamente.
Raul soltou o ar que nem percebera estar segurando.
— Quem era ele? — perguntou.
Eleno não respondeu de imediato. Observava a porta fechada, como se ainda pudesse vê-lo.
— Alguém que não respeita limites — disse por fim. — E que agora sabe da sua existência.
Raul sentiu um frio percorrer-lhe a espinha.
— Você está dizendo que estou em perigo?
Eleno virou-se para ele.
— Você sempre esteve. Só não sabia.
Raul engoliu em seco.
— Por sua causa?
— Por causa do mundo — corrigiu Eleno. — Eu apenas faço parte dele.
Eles saíram do bar juntos. A rua estava deserta. As sombras pareciam mais longas, mais densas.
— O que você é, Eleno? — perguntou Raul, parando sob uma lanterna.
Eleno fechou os olhos por um instante. Quando os abriu, havia cansaço ali. E algo mais profundo.
— Alguém que deveria manter distância de você.
Raul deu um passo à frente, Eleno só fala por parábolas e isso as vezes o deixa intrigado e curioso. Não entende o motivo que Eleno disse a frase:
— Alguém que deveria manter distância de você!
— E se eu não quiser essa distância?
O silêncio entre eles era quase palpável.
— Então preciso te avisar — disse Eleno. — Há criaturas que caçam sem culpa. Que não escolhem. Que não hesitam.
— E você? — Raul perguntou.
Eleno o encarou.
— Eu escolho todos os dias.
Eleno escolhe todos os dias desde sua fuga há anos, escolhe não machucar pessoas, escolhe ser sóz escolhe deixar um local se as pessoas começam a notar que ele é diferente.
Raul sentiu o peso daquelas palavras. Havia luta ali. Culpa. Disciplina forjada na dor.
— Ele vai voltar? — perguntou Raul.
— Não — respondeu Eleno. — Mas outros virão.
Raul respirou fundo.
— Então me diga o que fazer.
Eleno hesitou. Aproximou-se o suficiente para que Raul sentisse o frio sutil que emanava dele.
— Confie em mim — disse. — Mesmo quando eu te disser para correr.
Raul assentiu.
Não por ingenuidade.
Por decisão.
Naquela noite, enquanto se separavam na esquina, Raul percebeu algo com clareza assustadora:
Ele já havia cruzado a linha.
E, pela primeira vez, não se arrependeu.
Raul caminhou para sua casa e foi direto para seu quarto pensar, Eleno o deixava intrigado.
Quem é esse homem, que surgiu do nada?
Ele exita em admitir mas esse homem misterioso conquistou seu coração.
Se ele admitisse ele poderia perder a vida.
Imagine se seu pai desconfiasse que ele está interessado em um homem, em saber desse homem, quem ele é? Ou de onde veio.
Isso não importa para Raul.
O seu coração lhe diz que ele e Eleno irão caminhar juntos e ele só não sabe para onde irão ou mesmo o que vão fazer.
Raul se lembra do homem que o abordou e que Eleno literalmente espantou.
" Por que aquele homem se aproximou de mim?"
"Boas intenções ele não tinha e Eleno percebeu"
Eleno fala por parábolas e ele tenta entender.
O que esse homem é?
Raul suspira e olha para o teto de seu quarto.
— A vida era mais fácil quando eu era pequeno. — Só brincar, estudar e comer da boa comida que minha mãe preparava.
— Não havia, pretendentes, não havia essa insistência de meu pai em me casar.
— Havia apenas eu existindo, mas agora...