capítulo 18

1022 Words
A Primeira Escolha Raul não dormiu. O quarto permanecia mergulhado em silêncio, mas dentro dele tudo estava em movimento. O coração batia forte demais, a respiração vinha curta, como se o ar não fosse suficiente. A imagem de Eleno surgia repetidas vezes em sua mente — o olhar contido, a voz baixa, a distância calculada. Ele se sentia observado, não por alguém, mas por si mesmo. Levantou-se antes que a madrugada terminasse de se dissolver. Vestiu o casaco, passou a mão pelos cabelos e saiu sem fazer barulho. Precisava caminhar. Precisava fugir da sensação de estar sendo moldado por vontades alheias desde sempre. A cidade ainda dormia. As ruas estavam quase vazias, iluminadas por postes antigos que lançavam sombras longas no chão de pedra. Raul caminhava sem destino definido, apenas seguindo o impulso que o afastava de casa — da casa do pai, das expectativas, do futuro que lhe haviam prometido sem jamais perguntar se ele o queria. Pensou em Hector. Pensou em Zuleica. Pensou no sorriso educado dela, na forma como o observava esperando algo que ele sabia que nunca poderia oferecer. Não havia repulsa, não havia ódio. Havia apenas vazio. E culpa. Raul parou diante do bar. O mesmo bar. A porta estava entreaberta, a luz quente escapando para a rua fria. Por um instante, pensou em seguir adiante. Mas algo o puxava para dentro — não curiosidade, não rebeldia. Reconhecimento. Ele entrou. O bar estava silencioso, com poucos clientes espalhados. O cheiro de bebida, madeira antiga e fumaça leve misturava-se ao ar. Raul sentou-se no balcão, pediu um uísque e ficou observando o líquido dourado antes de beber. — Noite difícil? A voz veio suave, controlada. Raul não precisou se virar para saber quem era. — Sempre são — respondeu. Eleno estava a poucos passos, apoiado no balcão, os olhos atentos, como se estudasse algo que já conhecia, mas ainda assim respeitasse. — Seu pai — disse Eleno, sem perguntar. — Imagino. Raul soltou um riso curto, sem humor. — Ele acha que sabe quem eu sou. Eleno inclinou levemente a cabeça. — E você? Raul demorou a responder. — Estou cansado de fingir. O silêncio que se seguiu não foi desconfortável. Pelo contrário. Foi acolhedor. Como se aquele espaço entre eles fosse permitido, seguro. Raul virou-se de frente para Eleno. — Você disse que entende — falou. — Disse que não estou sozinho. Eleno sustentou o olhar. — Eu entendo mais do que você imagina. Raul engoliu em seco. — Então me diga… — a voz falhou, mas ele continuou — como você pode me ajudar? Eleno não respondeu de imediato. Ele se aproximou devagar, sem pressa, como quem respeita cada centímetro de espaço oferecido. Parou diante de Raul. Ergueu a mão com cuidado, como se pedisse permissão ao próprio ar, e tocou o rosto dele. O toque foi leve. Quente. Real. Raul sentiu o mundo reduzir-se àquele ponto. Eleno aproximou-se mais, os lábios a poucos centímetros dos seus, a respiração compartilhada, carregada de tensão contida. — Assim — disse. E o beijou. Não foi um beijo violento. Não foi apressado. Foi lento. Exploratório. Carregado de tudo o que Raul havia reprimido durante anos. Raul demorou um segundo para reagir — não por dúvida, mas por incredulidade. Então respondeu, o corpo inteiro reconhecendo algo que sempre esteve ali, esperando. O beijo aprofundou-se. As mãos de Raul seguraram o casaco de Eleno como se precisasse de apoio para não cair. Seu peito ardia, o coração disparado, o mundo girando suavemente. Quando se afastaram, Raul estava sem fôlego. Os olhos de Eleno estavam mais escuros. — Você não é fraco — disse ele, a voz baixa. — Nunca foi. Raul respirava com dificuldade. — Então por que dói tanto? Eleno tocou sua testa com a dele. — Porque viver na verdade dói no começo. Houve um instante de silêncio absoluto. — Eu não quero voltar — murmurou Raul. — Não para aquela vida. Eleno fechou os olhos por um breve momento. Quando os abriu, havia decisão ali — e algo perigoso, profundo. — Então esta é a sua escolha. Raul assentiu. Não sabia o que viria depois. Não entendia o alcance daquela noite. Mas sabia que, pela primeira vez, não estava fugindo. Estava escolhendo. E a noite o acolheu. Eleno sabia, que Raul ia o escolher sempre soube que seria escolhido. Desde que viu Raul a primeira vez ele de alguma forma sabia e o beijo só confirmou as suas suspeitas. Quando disse que o jovem não era fraco ele não mentiu, é assim que ele vê Raul um forte achando que é fraco. — Você não é fraco Raul como lhe disse antes , você só está cansado da pressão de seu pai em cima de você. — Eleno estou cansado de fugir das investidas de meu pai para que eu me case. Eleno sentiu medo, e faz muito tempo que ele sentiu medo a última vez. Sentiu medo de perder Raul ele ainda não admite mais quer Raul a seu lado. — Você vai ceder a pressão de seu pai Raul? — É uma pena pois realmente eu achei que poderíamos caminhar juntos. Eleno se vira para ir quando Raul o puxa pelo braço: — Espera Eleno, não vá, eu não disse que ia ceder a pressão do meu pai, eu apenas disse que cansa toda essa insistência. — Fica por favor e me cure. O vampiro se volta para Raul e seus olhos se cruzam, o jovem sente seu coração disparar e lhe falta o ar. O olhar de Eleno é impactante quase hipnotizante. — Você quer que eu te cure? — Tem certeza disso Raul? — Eu tenho, Eleno, fica e me cure já não quero ser esse jovem que tem medo de tudo e de todos eu quero ser eu mesmo e não o que meu pai espera de mim. As palavras de Raul são as que Eleno quer ouvir . Ele se aproxima dos lábios de Raul e o segundo beijo entre eles é inevitável. Eleno não sabe o que está acontecendo com ele, só sabe que não quer deixar Raul ir embora .
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