A Primeira Escolha
Raul não dormiu.
O quarto permanecia mergulhado em silêncio, mas dentro dele tudo estava em movimento. O coração batia forte demais, a respiração vinha curta, como se o ar não fosse suficiente. A imagem de Eleno surgia repetidas vezes em sua mente — o olhar contido, a voz baixa, a distância calculada.
Ele se sentia observado, não por alguém, mas por si mesmo.
Levantou-se antes que a madrugada terminasse de se dissolver. Vestiu o casaco, passou a mão pelos cabelos e saiu sem fazer barulho. Precisava caminhar. Precisava fugir da sensação de estar sendo moldado por vontades alheias desde sempre.
A cidade ainda dormia.
As ruas estavam quase vazias, iluminadas por postes antigos que lançavam sombras longas no chão de pedra. Raul caminhava sem destino definido, apenas seguindo o impulso que o afastava de casa — da casa do pai, das expectativas, do futuro que lhe haviam prometido sem jamais perguntar se ele o queria.
Pensou em Hector.
Pensou em Zuleica.
Pensou no sorriso educado dela, na forma como o observava esperando algo que ele sabia que nunca poderia oferecer. Não havia repulsa, não havia ódio. Havia apenas vazio.
E culpa.
Raul parou diante do bar.
O mesmo bar.
A porta estava entreaberta, a luz quente escapando para a rua fria. Por um instante, pensou em seguir adiante. Mas algo o puxava para dentro — não curiosidade, não rebeldia. Reconhecimento.
Ele entrou.
O bar estava silencioso, com poucos clientes espalhados. O cheiro de bebida, madeira antiga e fumaça leve misturava-se ao ar. Raul sentou-se no balcão, pediu um uísque e ficou observando o líquido dourado antes de beber.
— Noite difícil?
A voz veio suave, controlada.
Raul não precisou se virar para saber quem era.
— Sempre são — respondeu.
Eleno estava a poucos passos, apoiado no balcão, os olhos atentos, como se estudasse algo que já conhecia, mas ainda assim respeitasse.
— Seu pai — disse Eleno, sem perguntar. —
Imagino.
Raul soltou um riso curto, sem humor.
— Ele acha que sabe quem eu sou.
Eleno inclinou levemente a cabeça.
— E você?
Raul demorou a responder.
— Estou cansado de fingir.
O silêncio que se seguiu não foi desconfortável. Pelo contrário. Foi acolhedor. Como se aquele espaço entre eles fosse permitido, seguro.
Raul virou-se de frente para Eleno.
— Você disse que entende — falou. — Disse que não estou sozinho.
Eleno sustentou o olhar.
— Eu entendo mais do que você imagina.
Raul engoliu em seco.
— Então me diga… — a voz falhou, mas ele
continuou — como você pode me ajudar?
Eleno não respondeu de imediato.
Ele se aproximou devagar, sem pressa, como quem respeita cada centímetro de espaço oferecido. Parou diante de Raul. Ergueu a mão com cuidado, como se pedisse permissão ao próprio ar, e tocou o rosto dele.
O toque foi leve. Quente. Real.
Raul sentiu o mundo reduzir-se àquele ponto.
Eleno aproximou-se mais, os lábios a poucos centímetros dos seus, a respiração compartilhada, carregada de tensão contida.
— Assim — disse.
E o beijou.
Não foi um beijo violento.
Não foi apressado.
Foi lento. Exploratório. Carregado de tudo o que Raul havia reprimido durante anos.
Raul demorou um segundo para reagir — não por dúvida, mas por incredulidade. Então respondeu, o corpo inteiro reconhecendo algo que sempre esteve ali, esperando.
O beijo aprofundou-se. As mãos de Raul seguraram o casaco de Eleno como se precisasse de apoio para não cair. Seu peito ardia, o coração disparado, o mundo girando suavemente.
Quando se afastaram, Raul estava sem fôlego.
Os olhos de Eleno estavam mais escuros.
— Você não é fraco — disse ele, a voz baixa. —
Nunca foi.
Raul respirava com dificuldade.
— Então por que dói tanto?
Eleno tocou sua testa com a dele.
— Porque viver na verdade dói no começo.
Houve um instante de silêncio absoluto.
— Eu não quero voltar — murmurou Raul. —
Não para aquela vida.
Eleno fechou os olhos por um breve momento. Quando os abriu, havia decisão ali
— e algo perigoso, profundo.
— Então esta é a sua escolha.
Raul assentiu.
Não sabia o que viria depois.
Não entendia o alcance daquela noite.
Mas sabia que, pela primeira vez, não estava fugindo.
Estava escolhendo.
E a noite o acolheu.
Eleno sabia, que Raul ia o escolher sempre soube que seria escolhido.
Desde que viu Raul a primeira vez ele de alguma forma sabia e o beijo só confirmou as suas suspeitas.
Quando disse que o jovem não era fraco ele não mentiu, é assim que ele vê Raul um forte achando que é fraco.
— Você não é fraco Raul como lhe disse antes , você só está cansado da pressão de seu pai em cima de você.
— Eleno estou cansado de fugir das investidas de meu pai para que eu me case.
Eleno sentiu medo, e faz muito tempo que ele sentiu medo a última vez. Sentiu medo de perder Raul ele ainda não admite mais quer Raul a seu lado.
— Você vai ceder a pressão de seu pai Raul?
— É uma pena pois realmente eu achei que poderíamos caminhar juntos.
Eleno se vira para ir quando Raul o puxa pelo braço:
— Espera Eleno, não vá, eu não disse que ia ceder a pressão do meu pai, eu apenas disse que cansa toda essa insistência.
— Fica por favor e me cure.
O vampiro se volta para Raul e seus olhos se cruzam, o jovem sente seu coração disparar e lhe falta o ar.
O olhar de Eleno é impactante quase hipnotizante.
— Você quer que eu te cure? — Tem certeza disso Raul?
— Eu tenho, Eleno, fica e me cure já não quero ser esse jovem que tem medo de tudo e de todos eu quero ser eu mesmo e não o que meu pai espera de mim.
As palavras de Raul são as que Eleno quer ouvir . Ele se aproxima dos lábios de Raul e o segundo beijo entre eles é inevitável.
Eleno não sabe o que está acontecendo com ele, só sabe que não quer deixar Raul ir embora .