Capítulo 19

1012 Words
A Hora Certa Raul não conseguiu voltar para casa depois do beijo. Não porque tivesse medo do pai, ou de Zuleica, ou das perguntas que o aguardavam. O medo vinha de outro lugar: da clareza repentina. Do fato de que, depois daquela noite, fingir seria mais difícil do que nunca. Eleno percebeu o silêncio dele. — Você está inquieto — disse, enquanto caminhavam lado a lado pelas ruas quase vazias. Raul assentiu, passando a mão pelos cabelos. — Eu não planejava… — começou, mas parou. — Na verdade, eu planejava continuar fingindo. Como sempre. Eleno não o interrompeu. Entraram na casa dele pouco depois. O lugar era silencioso, protegido da cidade e do tempo. Eleno acendeu poucas luzes — nunca gostara de excessos — e indicou o sofá. — Fique — disse. — Você pode falar aqui. Raul sentou-se, as mãos entrelaçadas, o olhar fixo no chão. — Meu pai se chama Hector — começou. — Ele é um homem rígido. Daqueles que acreditam que tudo na vida pode ser resolvido com acordos, posses e imposições. Eleno sentou-se à frente dele, atento. — Ele me apresentou uma mulher — continuou Raul. — Zuleica, linda, educada, gentil. Não havia nada de errado com ela… exceto o fato de que eu não sou o homem que ela merece. A voz falhou. — Ele já havia pago o dote — acrescentou, com amargura. — Como se minha vida fosse uma transação. Eleno sentiu algo se fechar dentro do peito. — E você recusou. — Sim. E isso foi… imperdoável para ele. Raul ergueu o olhar. — Eu tentei. Juro que tentei ser normal. Mas cada vez que penso naquele futuro, sinto como se estivesse sendo enterrado vivo. O silêncio que se seguiu foi denso, mas não pesado. — Você não está quebrado — disse Eleno por fim. — Está apenas tentando viver numa forma que não foi feita para você. Raul respirou fundo. — Quando você me beijou… — começou, hesitante. — Tudo fez sentido. E isso me apavorou. Eleno se aproximou devagar. — Por quê? — Porque eu sei o que você é — respondeu Raul, sem desviar o olhar. — E, ainda assim, não senti medo. Senti… verdade. Eleno permaneceu em silêncio por alguns segundos. — Raul — disse então, com a voz firme — eu poderia te transmutar agora. Raul sentiu o coração disparar. — Eu sei. — Você viveria para sempre — continuou Eleno. — Livre do tempo, da expectativa humana, do envelhecimento. Ao meu lado. Raul engoliu em seco. — Então por que não faz? Eleno estendeu a mão e tocou o rosto dele com o dorso dos dedos, num gesto cuidadoso. — Porque eu quero te conhecer — respondeu. — Não apenas o homem ferido. Mas o homem inteiro. Raul sentiu os olhos arderem. — Eu aceitaria — confessou. — Mesmo agora. Eleno aproximou-se mais, as testas quase se tocando. — Eu sei. E é exatamente por isso que não farei. Raul franziu a testa. — Isso não é um jogo — disse Eleno. — Transmutar alguém é um laço eterno. Não nasce da fuga, mas da escolha consciente. Ele segurou as mãos de Raul. — Quando chegar a hora certa, se ainda for esse o seu desejo… eu prometo que serei eu a fazê-lo. O peito de Raul se apertou. — E se eu mudar de ideia? — Então você terá vivido sua verdade como humano — respondeu Eleno. — E isso também importa. Raul fechou os olhos, sentindo o peso daquelas palavras. — Você é diferente — murmurou. Eleno sorriu de leve. — Já fui como você — confessou. — E alguém me tirou essa escolha. Eu não farei o mesmo com você. O silêncio voltou a se instalar, mas agora era confortável. Raul apoiou a cabeça no ombro de Eleno. — Então… o que somos agora? Eleno envolveu-o num abraço contido, protetor. — Somos o começo — respondeu. — E o começo merece tempo. Do lado de fora, a noite seguia intacta. E Raul, pela primeira vez, não teve pressa de atravessá-la. Eleno continua: — O vampiro que me mordeu não me deu escolha, ele jogou com meus sentimentos, com meu medo. — Na minha época os como eu eram mortos, pois significavam ameaça para uma sociedade que imperava a riqueza e a hipocrisia. — Acredite até a igreja é hipócrita, Raul, fui trancado depois que fui mordido, e para não ser queimado eu menti disse que não tinha sede de sangue. Eleno sofre ao lembrar do medo que sentiu, lembrou do coelho, esse foi o teste mais difícil. — A igreja que devia proteger é a que julga e aplica a sentença. — O pior foi a visita do vampiro, prometendo ajuda. Raul escutava Eleno com atenção impressionado de como o vampiro jogou com o medo e os sentimentos de outrem. — Esses seres como eu sabem enganar um ser humano, eu não ia cede, não queria ferir nenhum humano.— O vampiro que me transmutou é vem velho experiente e sabia como trabalhar a minha mente. — Eu não tive escolha, Raul, não podia viver incompleto então aceite as condições do vampiro e fui transmutado. Raul em silêncio presta atenção em tudo o que o outro está confidenciando. — E isso que não quero fazer com você Raul eu quero que você tenha escolha se quer ou não seguir comigo. Raul toca o rosto de Eleno e contorna seus lábios com o de do indicador. — Você me mostrou o que eu sou e queria deixar escondido.— Eu ia passar a vida toda mentindo para os outros, escondendo quem eu sou de verdade. Raul beija o vampiro um beijo rápido em que seus lábios se tocam. — Raul tem certeza de que quer isso? Viver essa vida, a vida de um vampiro não é fácil. — Eleno eu tenho certeza do que eu não quero. — O que não quer Raul? Raul suspira : —Ficar longe de você. Os jovens se aproximam e trocam um beijo intenso cheio de dúvidas e certezas.
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