A Hora Certa
Raul não conseguiu voltar para casa depois do beijo.
Não porque tivesse medo do pai, ou de Zuleica, ou das perguntas que o aguardavam. O medo vinha de outro lugar: da clareza repentina. Do fato de que, depois daquela noite, fingir seria mais difícil do que nunca.
Eleno percebeu o silêncio dele.
— Você está inquieto — disse, enquanto caminhavam lado a lado pelas ruas quase vazias.
Raul assentiu, passando a mão pelos cabelos.
— Eu não planejava… — começou, mas parou. — Na verdade, eu planejava continuar fingindo. Como sempre.
Eleno não o interrompeu.
Entraram na casa dele pouco depois. O lugar era silencioso, protegido da cidade e do tempo. Eleno acendeu poucas luzes — nunca gostara de excessos — e indicou o sofá.
— Fique — disse. — Você pode falar aqui.
Raul sentou-se, as mãos entrelaçadas, o olhar fixo no chão.
— Meu pai se chama Hector — começou. — Ele é um homem rígido. Daqueles que acreditam que tudo na vida pode ser resolvido com acordos, posses e imposições.
Eleno sentou-se à frente dele, atento.
— Ele me apresentou uma mulher — continuou Raul. — Zuleica, linda, educada, gentil. Não havia nada de errado com ela… exceto o fato de que eu não sou o homem que ela merece.
A voz falhou.
— Ele já havia pago o dote — acrescentou, com amargura. — Como se minha vida fosse uma transação.
Eleno sentiu algo se fechar dentro do peito.
— E você recusou.
— Sim. E isso foi… imperdoável para ele.
Raul ergueu o olhar.
— Eu tentei. Juro que tentei ser normal. Mas cada vez que penso naquele futuro, sinto como se estivesse sendo enterrado vivo.
O silêncio que se seguiu foi denso, mas não pesado.
— Você não está quebrado — disse Eleno por fim. — Está apenas tentando viver numa forma que não foi feita para você.
Raul respirou fundo.
— Quando você me beijou… — começou, hesitante. — Tudo fez sentido. E isso me apavorou.
Eleno se aproximou devagar.
— Por quê?
— Porque eu sei o que você é — respondeu Raul, sem desviar o olhar. — E, ainda assim, não senti medo. Senti… verdade.
Eleno permaneceu em silêncio por alguns segundos.
— Raul — disse então, com a voz firme — eu poderia te transmutar agora.
Raul sentiu o coração disparar.
— Eu sei.
— Você viveria para sempre — continuou Eleno. — Livre do tempo, da expectativa humana, do envelhecimento. Ao meu lado.
Raul engoliu em seco.
— Então por que não faz?
Eleno estendeu a mão e tocou o rosto dele com o dorso dos dedos, num gesto cuidadoso.
— Porque eu quero te conhecer — respondeu. — Não apenas o homem ferido. Mas o homem inteiro.
Raul sentiu os olhos arderem.
— Eu aceitaria — confessou. — Mesmo agora.
Eleno aproximou-se mais, as testas quase se tocando.
— Eu sei. E é exatamente por isso que não farei.
Raul franziu a testa.
— Isso não é um jogo — disse Eleno. — Transmutar alguém é um laço eterno. Não nasce da fuga, mas da escolha consciente.
Ele segurou as mãos de Raul.
— Quando chegar a hora certa, se ainda for esse o seu desejo… eu prometo que serei eu a fazê-lo.
O peito de Raul se apertou.
— E se eu mudar de ideia?
— Então você terá vivido sua verdade como humano — respondeu Eleno. — E isso também importa.
Raul fechou os olhos, sentindo o peso daquelas palavras.
— Você é diferente — murmurou.
Eleno sorriu de leve.
— Já fui como você — confessou. — E alguém me tirou essa escolha. Eu não farei o mesmo com você.
O silêncio voltou a se instalar, mas agora era confortável.
Raul apoiou a cabeça no ombro de Eleno.
— Então… o que somos agora?
Eleno envolveu-o num abraço contido, protetor.
— Somos o começo — respondeu. — E o começo merece tempo.
Do lado de fora, a noite seguia intacta.
E Raul, pela primeira vez, não teve pressa de atravessá-la.
Eleno continua:
— O vampiro que me mordeu não me deu escolha, ele jogou com meus sentimentos, com meu medo. — Na minha época os como eu eram mortos, pois significavam ameaça para uma sociedade que imperava a riqueza e a hipocrisia.
— Acredite até a igreja é hipócrita, Raul, fui trancado depois que fui mordido, e para não ser queimado eu menti disse que não tinha sede de sangue.
Eleno sofre ao lembrar do medo que sentiu, lembrou do coelho, esse foi o teste mais difícil.
— A igreja que devia proteger é a que julga e aplica a sentença.
— O pior foi a visita do vampiro, prometendo ajuda.
Raul escutava Eleno com atenção impressionado de como o vampiro jogou com o medo e os sentimentos de outrem.
— Esses seres como eu sabem enganar um ser humano, eu não ia cede, não queria ferir nenhum humano.— O vampiro que me transmutou é vem velho experiente e sabia como trabalhar a minha mente.
— Eu não tive escolha, Raul, não podia viver incompleto então aceite as condições do vampiro e fui transmutado.
Raul em silêncio presta atenção em tudo o que o outro está confidenciando.
— E isso que não quero fazer com você Raul eu quero que você tenha escolha se quer ou não seguir comigo.
Raul toca o rosto de Eleno e contorna seus lábios com o de do indicador.
— Você me mostrou o que eu sou e queria deixar escondido.— Eu ia passar a vida toda mentindo para os outros, escondendo quem eu sou de verdade.
Raul beija o vampiro um beijo rápido em que seus lábios se tocam.
— Raul tem certeza de que quer isso? Viver essa vida, a vida de um vampiro não é fácil.
— Eleno eu tenho certeza do que eu não quero.
— O que não quer Raul?
Raul suspira :
—Ficar longe de você.
Os jovens se aproximam e trocam um beijo intenso cheio de dúvidas e certezas.