Capítulo 5

1271 Words
Transilvânia, 1744 Eleno acordou gritando. O som rasgou a madrugada como uma lâmina, ecoando pelas paredes de pedra do alojamento da Inquisição. Seu corpo arqueou-se na cama estreita, os dedos cravando-se no colchão áspero enquanto o ar entrava nos pulmões com violência, como se ele tivesse acabado de emergir de águas profundas. — Segurem-no! — gritou alguém. Mãos o pressionaram contra o leito. Rostos borrados surgiram acima dele, distorcidos pela luz trêmula das velas. O cheiro de cera quente, suor e ferro misturava-se a algo mais — um odor que fazia sua garganta arder. Sangue. Não visível. Sentido. — Ele está queimando — disse uma voz feminina, trêmula. — Por Deus, está ardendo! Eleno tentou falar, mas a língua parecia pesada demais. Cada parte de seu corpo vibrava em descompasso, como se algo dentro dele tivesse aprendido um ritmo novo — um ritmo que não combinava mais com o humano. — Água — conseguiu murmurar. Uma caneca foi levada a seus lábios. Ele engoliu um gole e imediatamente se engasgou, o estômago se revirando em rejeição violenta. — Não — disse, afastando o recipiente. — Não isso… O inquisidor surgiu à beira da cama, o rosto tenso, os olhos avaliando cada espasmo do corpo do jovem. — Quanto tempo desde a mordida? — perguntou. — Uma noite — respondeu um dos homens. — Talvez menos. O inquisidor fez o sinal da cruz. — Que Deus tenha piedade. A febre veio em ondas. Eleno alternava entre lucidez e delírio. Em um momento, reconhecia o teto baixo e rachado; no seguinte, estava de volta à floresta, sentindo novamente o frio daqueles dedos em seu pulso, a pressão do corpo contra o dele, o peso de um olhar que o atravessava. — Não agora… A voz ecoava dentro de sua mente, íntima demais para ser lembrança. Ele se contorcia, suando frio, enquanto imagens se sobrepunham: a cruz da Igreja pingando sangue; presas brilhando à luz da lua; mãos masculinas segurando seu rosto com cuidado quase reverente. — Ele está falando coisas estranhas — murmurou alguém. — O que ele diz? — Nomes… ou talvez não. Ele repete “noite” o tempo todo. O inquisidor aproximou-se mais. — Eleno — chamou, firme. — Olhe para mim. Os olhos de Eleno se abriram. Por um instante, não eram mais os mesmos. Havia algo neles — uma profundidade inquietante, como se observassem de um lugar mais distante do que o corpo em que estavam. — Ele voltou? — perguntou Eleno, a voz baixa, rouca. O inquisidor empalideceu. — Quem? Eleno piscou, confuso. — Eu… — levou a mão ao próprio pescoço. O local da mordida queimava, pulsando com uma vida própria. — Ele me tocou. — Isso é veneno — disse o inquisidor, rápido. — O sangue deles faz isso. Cria confusão, desejo, heresia. Desejo. A palavra reverberou dentro dele como um sino quebrado. A febre durou três dias. Três dias em que Eleno m*l se alimentou. O pão parecia cinza em sua boca, sem gosto, sem propósito. A carne lhe causava náusea. O vinho, que antes aquecia o corpo após as caçadas, agora queimava como ácido. Mas havia algo que o corpo pedia. Algo que ele se recusava a nomear. Na quarta noite, ele acordou em silêncio. Não havia gritos. Não havia suor. A febre cessara como se nunca tivesse existido. Eleno sentou-se devagar na cama. Seus sentidos pareciam… diferentes. O alojamento estava escuro, iluminado apenas por uma vela distante no corredor, mas ele via com clareza desconfortável. O som dos passos de um guarda ecoava longe demais para que um humano ouvisse. Ele respirou fundo. O cheiro veio imediatamente. Sangue fresco. Seu estômago se contraiu, não de repulsa, mas de expectativa. — Não — murmurou para si mesmo, apertando os punhos. Levantou-se, os pés tocando o chão gelado sem estremecer. Caminhou até a pequena bacia de metal e encarou o próprio reflexo. O homem que o observava de volta parecia o mesmo. Mas não era. A pele estava mais pálida. Os olhos, mais atentos. Havia uma tensão contida em cada músculo, como um arco prestes a ser disparado. E o pescoço… Ele tocou o local da mordida. A pele estava lisa. Sem marcas visíveis. — Mentira… — sussurrou. O inquisidor entrou sem bater. — Você deveria estar deitado. Eleno virou-se lentamente. — Estou curado. O inquisidor franziu o cenho. — Isso não é possível. — Mesmo assim, aconteceu. O silêncio que se seguiu foi pesado. — Vamos observá-lo — disse o inquisidor por fim. — Qualquer mudança… qualquer sinal de corrupção… — Eu sei — interrompeu Eleno. — Eu sei o que vocês fazem com os corrompidos. Naquela noite, ele não dormiu. Não conseguiu. Cada vez que fechava os olhos, sentia o toque novamente. Não como violência — como lembrança gravada na pele. O vampiro não havia tirado tudo dele. Havia deixado algo. Uma marca invisível. Na noite seguinte, durante a vigília, Eleno percebeu algo ainda mais perturbador. Ele conseguia sentir a presença das pessoas. Não vê-las. Sentí-las. Quando um dos homens cortou a mão ao afiar a lâmina, Eleno quase caiu de joelhos. O cheiro do sangue se espalhou pelo ar como um chamado impossível de ignorar. Seu corpo reagiu antes da mente. Um passo à frente. Outro. — Eleno? — chamou o homem ferido, confuso. Ele parou. O mundo pareceu se estreitar ao redor daquele pequeno corte vermelho. — Afaste-se — disse Eleno, a voz tensa demais. — Agora. O homem obedeceu, assustado. Eleno recuou, o coração disparado. É assim que começa, pensou. Na terceira noite após a febre, ele saiu sozinho. Não avisou ninguém. A floresta o recebeu como se o reconhecesse. Cada sombra parecia familiar. Cada som tinha significado. Ele caminhou sem lanterna, guiado por algo que não era visão. Foi então que o ouviu. Um cervo. Ferido. O som fraco da respiração irregular guiou seus passos até uma clareira. O animal estava caído, a perna presa em uma armadilha antiga. O sangue escorria lentamente. Eleno sentiu a boca se encher de saliva. — Não… — murmurou, ajoelhando-se diante da criatura. O cervo tentou se mover, mas não conseguiu. O cheiro era enlouquecedor. Ele fechou os olhos. Pensou na cruz. Na Igreja. Na fé. Pensou nos homens que confiavam nele. Pensou no vampiro. Abriu os olhos. Quando recobrou a consciência, o cervo estava morto. Eleno estava ajoelhado ao lado do corpo, as mãos e a boca manchadas de vermelho. O horror veio em seguida. Ele recuou, ofegante, limpando o rosto com as mangas, o estômago revirando — não de náusea, mas de culpa. — O que eu me tornei…? Uma presença surgiu atrás dele. — Alguém que sobreviveu. Eleno virou-se num salto. O vampiro estava ali, apoiado em uma árvore, observando-o com atenção silenciosa. — Você — sussurrou Eleno. — Eu disse que lembraria — respondeu ele. O olhar do vampiro percorreu-o por inteiro, detendo-se nas mãos manchadas. — A febre passou — constatou. — O que você fez comigo? — perguntou Eleno, a voz quebrada. O vampiro se aproximou lentamente. — Eu toquei você — disse apenas isso. — E agora você sente. — Isso não é vida! — Ainda não. Eles ficaram frente a frente, a tensão densa entre eles. — Você vai voltar — disse o vampiro, com uma certeza que assustava. — Quando o corpo pedir mais do que a fé pode negar. — E quando isso acontecer? — perguntou Eleno. O vampiro inclinou a cabeça, os olhos escuros brilhando. — Então você vai me procurar. E desapareceu na noite. Eleno caiu de joelhos. A febre havia acabado. Mas a fome… A fome estava apenas começando.
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