O julgamento da carne

1124 Words
Transilvânia, 1744 O sino tocou antes do amanhecer. Não era o chamado comum das orações. Era mais lento. Mais pesado. Um som que não convidava — convocava. Eleno despertou imediatamente. Seu corpo reagiu antes da mente, como se tivesse sido treinado para a urgência. Vestiu-se em silêncio, sentindo cada fibra do corpo desperta demais para a hora. A fome latejava em algum lugar profundo, não como dor, mas como lembrança recente demais para ser ignorada. O gosto metálico ainda insistia em sua boca. Não pense nisso. Ao sair do alojamento, percebeu os olhares. Não eram explícitos — eram piores. Rápidos demais, desviados cedo demais. Murmúrios cessavam quando ele passava. — Ele sobreviveu — ouviu alguém sussurrar. — Sobreviveu à mordida… — Ainda. A capela estava cheia. Velas alinhadas como sentinelas lançavam sombras longas sobre as paredes de pedra. O ar estava saturado de incenso, pesado a ponto de causar vertigem. Eleno sentou-se entre dois homens que se afastaram discretamente, como se o contato fosse contagioso. No altar, o inquisidor-mor aguardava. Seu rosto era uma máscara de severidade estudada. Nas mãos, um livro grosso de capa escura — registros, confissões, condenações. — Irmãos — começou ele, a voz ecoando com autoridade fria. — Fomos testados pela noite. Um murmúrio percorreu a capela. — Um de nós foi tocado pelo inimigo — continuou. — E sobreviveu. Todos os olhos se voltaram para Eleno. Ele manteve a postura reta. As mãos apoiadas sobre as pernas. O coração batia em ritmo constante demais para alguém sob julgamento. — Eleno Montreal — chamou o inquisidor. Ele levantou-se. Cada passo até o altar parecia medir não distância, mas destino. — Você sabe por que está aqui — disse o homem. — Sei — respondeu Eleno. — Foi mordido por uma criatura das trevas. — Sim. — Sobreviveu. — Sim. — E mesmo assim caminha entre nós. Silêncio. — A Igreja ensina — prosseguiu o inquisidor — que aqueles que sobrevivem ao toque do vampiro carregam uma corrupção latente. Uma semente. O olhar do homem o atravessou. — A questão é: essa semente já brotou? Eleno respirou fundo. — Não — disse com firmeza. Mentira. Mas uma necessária. O inquisidor fez um gesto. Dois homens trouxeram uma bacia de metal. Dentro dela, algo se movia. Um coelho. Vivo. O cheiro atingiu Eleno como um golpe. Seu corpo reagiu instantaneamente. O estômago contraiu-se. A boca se encheu de saliva. O mundo pareceu se estreitar ao redor daquele pequeno coração acelerado. Controle-se. — O que é isso? — perguntou Eleno, embora soubesse. — Um teste — respondeu o inquisidor. — A carne reage àquilo que a governa. O coelho foi colocado sobre o altar. — Aproxime-se. Eleno caminhou até a mesa de pedra. Cada passo exigia um esforço consciente. Seus sentidos gritavam. O som do coração do animal era ensurdecedor. — Toque-o — ordenou o inquisidor. Ele estendeu a mão. Os dedos tremiam. Quando a pele do coelho encontrou a sua, um choque percorreu seu corpo. Não havia dor. Havia… fome. Uma fome que não era desespero — era clareza. É assim que deveria ser. A ideia o assustou mais do que qualquer desejo. — O que você sente? — perguntou o inquisidor. Eleno fechou os olhos por um segundo. Viu a floresta. Viu o vampiro. Sentiu o toque frio. Abriu os olhos. — Nada além de repulsa — disse. Outra mentira. O inquisidor observou atentamente. — Corte — ordenou. Uma lâmina foi entregue a Eleno. O metal reluziu à luz das velas. — Corte o animal — disse o inquisidor. — Se houver corrupção, ela se revelará. A mão de Eleno apertou o cabo da faca. O coelho se debatia, desesperado. Ele ergueu a lâmina. O mundo pareceu prender a respiração. Então ele cortou. Rápido. Preciso. O sangue jorrou. Eleno sentiu o impacto como uma onda. Seu corpo inteiro respondeu. As pernas quase falharam. Um gemido ameaçou escapar de sua garganta. Mas ele se manteve firme. O inquisidor observava cada microexpressão. — O que você sente agora? — perguntou. Eleno respirou fundo, o cheiro do sangue inundando seus sentidos. — Tristeza — respondeu. — Pela vida tirada. A lâmina caiu de sua mão. O inquisidor manteve o silêncio por longos segundos. — Levem o animal — ordenou por fim. O coelho foi retirado, morto. Eleno permaneceu imóvel. — Você passará por vigilância — declarou o inquisidor. — Dia e noite. Não andará sozinho. Não caçará. Não dormirá sem supervisão. — Entendo — disse Eleno. — Se houver qualquer sinal… — o inquisidor não completou a frase. Não precisava. Naquela noite, Eleno foi trancado. Não em uma cela formal, mas em um quarto cuja porta rangia com trancas novas demais para serem coincidência. Um guarda permanecia do lado de fora. Ele sentou-se na cama, os músculos tensos. O cheiro do coelho ainda impregnava suas mãos. Ele esfregou os dedos na roupa, tentando apagar a sensação. Não conseguiu. — Você mente bem — disse uma voz conhecida. Eleno levantou-se num salto. O vampiro estava sentado à beira da janela, como se sempre tivesse pertencido àquele espaço. A lua iluminava parcialmente seu rosto, revelando os olhos atentos, curiosos. — Eles estão tentando me quebrar — disse Eleno, em voz baixa. — Eles sempre tentam — respondeu o vampiro. — A carne é o campo de batalha favorito deles. — Você me deixou à mercê disso — acusou Eleno. O vampiro inclinou a cabeça. — Eu lhe dei uma escolha. Ainda não a tomou. — Isso não é escolha — sussurrou Eleno. — É tortura. O vampiro se aproximou. O ar esfriou ao redor dele. — O que sentiu ao cortar o animal? — perguntou. Eleno fechou os olhos. — Alívio. O vampiro sorriu, triste. — Então você entende. — Eu não quero isso — disse Eleno, a voz falhando. — Não quero desejar sangue. — Ninguém quer no início — respondeu ele. — Mas o corpo aprende. O vampiro estendeu a mão. Não tocou. — Você pode continuar mentindo para eles — disse. — Pode definhar tentando ser algo que já não é. — Ou… — Ou pode me pedir ajuda. Eleno abriu os olhos. — E pagar o preço. O vampiro assentiu. — Sempre há um preço. O silêncio se estendeu entre eles, carregado de possibilidades proibidas. — Se eu cruzar essa linha — disse Eleno — não haverá retorno. — Não — confirmou o vampiro. — Mas haverá verdade. Passos ecoaram no corredor. O vampiro recuou para a sombra. — Pense bem — murmurou. — A carne sempre vence no final. E desapareceu. Eleno permaneceu ali, sozinho. As palavras ecoavam dentro dele. O julgamento da carne. Naquela noite, ele não rezou. Ele escutou o próprio corpo. E pela primeira vez, não sentiu culpa.
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