Transilvânia, 1744
Eleno acordou gritando.
O som rasgou a madrugada como uma lâmina, ecoando pelas paredes de pedra do alojamento da Inquisição. Seu corpo arqueou-se na cama estreita, os dedos cravando-se no colchão áspero enquanto o ar entrava nos pulmões com violência, como se ele tivesse acabado de emergir de águas profundas.
— Segurem-no! — gritou alguém.
Mãos o pressionaram contra o leito. Rostos borrados surgiram acima dele, distorcidos pela luz trêmula das velas. O cheiro de cera quente, suor e ferro misturava-se a algo mais — um odor que fazia sua garganta arder.
Sangue.
Não visível.
Sentido.
— Ele está queimando — disse uma voz feminina, trêmula. — Por Deus, está ardendo!
Eleno tentou falar, mas a língua parecia pesada demais. Cada parte de seu corpo vibrava em descompasso, como se algo dentro dele tivesse aprendido um ritmo novo — um ritmo que não combinava mais com o humano.
— Água — conseguiu murmurar.
Uma caneca foi levada a seus lábios. Ele engoliu um gole e imediatamente se engasgou, o estômago se revirando em rejeição violenta.
— Não — disse, afastando o recipiente. — Não isso…
O inquisidor surgiu à beira da cama, o rosto tenso, os olhos avaliando cada espasmo do corpo do jovem.
— Quanto tempo desde a mordida? — perguntou.
— Uma noite — respondeu um dos homens. — Talvez menos.
O inquisidor fez o sinal da cruz.
— Que Deus tenha piedade.
A febre veio em ondas.
Eleno alternava entre lucidez e delírio. Em um momento, reconhecia o teto baixo e rachado; no seguinte, estava de volta à floresta, sentindo novamente o frio daqueles dedos em seu pulso, a pressão do corpo contra o dele, o peso de um olhar que o atravessava.
— Não agora…
A voz ecoava dentro de sua mente, íntima demais para ser lembrança.
Ele se contorcia, suando frio, enquanto imagens se sobrepunham: a cruz da Igreja pingando sangue; presas brilhando à luz da lua; mãos masculinas segurando seu rosto com cuidado quase reverente.
— Ele está falando coisas estranhas — murmurou alguém.
— O que ele diz?
— Nomes… ou talvez não. Ele repete “noite” o tempo todo.
O inquisidor aproximou-se mais.
— Eleno — chamou, firme. — Olhe para mim.
Os olhos de Eleno se abriram.
Por um instante, não eram mais os mesmos.
Havia algo neles — uma profundidade inquietante, como se observassem de um lugar mais distante do que o corpo em que estavam.
— Ele voltou? — perguntou Eleno, a voz baixa, rouca.
O inquisidor empalideceu.
— Quem?
Eleno piscou, confuso.
— Eu… — levou a mão ao próprio pescoço. O local da mordida queimava, pulsando com uma vida própria. — Ele me tocou.
— Isso é veneno — disse o inquisidor, rápido. — O sangue deles faz isso. Cria confusão, desejo, heresia.
Desejo.
A palavra reverberou dentro dele como um sino quebrado.
A febre durou três dias.
Três dias em que Eleno m*l se alimentou. O pão parecia cinza em sua boca, sem gosto, sem propósito. A carne lhe causava náusea. O vinho, que antes aquecia o corpo após as caçadas, agora queimava como ácido.
Mas havia algo que o corpo pedia.
Algo que ele se recusava a nomear.
Na quarta noite, ele acordou em silêncio.
Não havia gritos.
Não havia suor.
A febre cessara como se nunca tivesse existido.
Eleno sentou-se devagar na cama. Seus sentidos pareciam… diferentes. O alojamento estava escuro, iluminado apenas por uma vela distante no corredor, mas ele via com clareza desconfortável. O som dos passos de um guarda ecoava longe demais para que um humano ouvisse.
Ele respirou fundo.
O cheiro veio imediatamente.
Sangue fresco.
Seu estômago se contraiu, não de repulsa, mas de expectativa.
— Não — murmurou para si mesmo, apertando os punhos.
Levantou-se, os pés tocando o chão gelado sem estremecer. Caminhou até a pequena bacia de metal e encarou o próprio reflexo.
O homem que o observava de volta parecia o mesmo.
Mas não era.
A pele estava mais pálida. Os olhos, mais atentos. Havia uma tensão contida em cada músculo, como um arco prestes a ser disparado.
E o pescoço…
Ele tocou o local da mordida.
A pele estava lisa.
Sem marcas visíveis.
— Mentira… — sussurrou.
O inquisidor entrou sem bater.
— Você deveria estar deitado.
Eleno virou-se lentamente.
— Estou curado.
O inquisidor franziu o cenho.
— Isso não é possível.
— Mesmo assim, aconteceu.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
— Vamos observá-lo — disse o inquisidor por fim. — Qualquer mudança… qualquer sinal de corrupção…
— Eu sei — interrompeu Eleno. — Eu sei o que vocês fazem com os corrompidos.
Naquela noite, ele não dormiu.
Não conseguiu.
Cada vez que fechava os olhos, sentia o toque novamente. Não como violência — como lembrança gravada na pele. O vampiro não havia tirado tudo dele. Havia deixado algo.
Uma marca invisível.
Na noite seguinte, durante a vigília, Eleno percebeu algo ainda mais perturbador.
Ele conseguia sentir a presença das pessoas.
Não vê-las.
Sentí-las.
Quando um dos homens cortou a mão ao afiar a lâmina, Eleno quase caiu de joelhos. O cheiro do sangue se espalhou pelo ar como um chamado impossível de ignorar.
Seu corpo reagiu antes da mente.
Um passo à frente.
Outro.
— Eleno? — chamou o homem ferido, confuso.
Ele parou.
O mundo pareceu se estreitar ao redor daquele pequeno corte vermelho.
— Afaste-se — disse Eleno, a voz tensa demais. — Agora.
O homem obedeceu, assustado.
Eleno recuou, o coração disparado.
É assim que começa, pensou.
Na terceira noite após a febre, ele saiu sozinho.
Não avisou ninguém.
A floresta o recebeu como se o reconhecesse. Cada sombra parecia familiar. Cada som tinha significado. Ele caminhou sem lanterna, guiado por algo que não era visão.
Foi então que o ouviu.
Um cervo.
Ferido.
O som fraco da respiração irregular guiou seus passos até uma clareira. O animal estava caído, a perna presa em uma armadilha antiga.
O sangue escorria lentamente.
Eleno sentiu a boca se encher de saliva.
— Não… — murmurou, ajoelhando-se diante da criatura.
O cervo tentou se mover, mas não conseguiu.
O cheiro era enlouquecedor.
Ele fechou os olhos.
Pensou na cruz.
Na Igreja.
Na fé.
Pensou nos homens que confiavam nele.
Pensou no vampiro.
Abriu os olhos.
Quando recobrou a consciência, o cervo estava morto.
Eleno estava ajoelhado ao lado do corpo, as mãos e a boca manchadas de vermelho.
O horror veio em seguida.
Ele recuou, ofegante, limpando o rosto com as mangas, o estômago revirando — não de náusea, mas de culpa.
— O que eu me tornei…?
Uma presença surgiu atrás dele.
— Alguém que sobreviveu.
Eleno virou-se num salto.
O vampiro estava ali, apoiado em uma árvore, observando-o com atenção silenciosa.
— Você — sussurrou Eleno.
— Eu disse que lembraria — respondeu ele.
O olhar do vampiro percorreu-o por inteiro, detendo-se nas mãos manchadas.
— A febre passou — constatou.
— O que você fez comigo? — perguntou Eleno, a voz quebrada.
O vampiro se aproximou lentamente.
— Eu toquei você — disse apenas isso. — E agora você sente.
— Isso não é vida!
— Ainda não.
Eles ficaram frente a frente, a tensão densa entre eles.
— Você vai voltar — disse o vampiro, com uma certeza que assustava. — Quando o corpo pedir mais do que a fé pode negar.
— E quando isso acontecer? — perguntou Eleno.
O vampiro inclinou a cabeça, os olhos escuros brilhando.
— Então você vai me procurar.
E desapareceu na noite.
Eleno caiu de joelhos.
A febre havia acabado.
Mas a fome…
A fome estava apenas começando.