Cheguei. Era isso. Não tinha mais volta.
A limousine preta deslizou silenciosa pelos portões de ferro fundido da mansão Morelli, cruzando a entrada longa e ladeada por árvores que pareciam ter sido esculpidas à mão, uma a uma, pra impressionar quem quer que ousasse passar por ali. As janelas do carro estavam fechadas, mas ainda assim o cheiro do Brasil me invadia com certa violência. Era uma mistura nostálgica de mato, gasolina, e aquele calor úmido que grudava na pele. Senti a camisa colar nas costas.
Desliguei a música no fone — um jazz instrumental qualquer que tentei usar pra manter a calma — e endireitei a coluna, olhando pra frente como se fosse entrar num campo de guerra. E, bem… de certo modo, era. Só que o inimigo não usava uniforme, nem carregava armas. Usava salto alto, perfume caro, e atendia pelo nome de Isadora.
A tal futura madrasta.
A mulher que tinha fisgado meu pai em algum canto elegante da cidade, provavelmente com um vestido justo e um sorriso ensaiado.
Pelo menos era assim que eu a imaginava.
— Senhor Enzo, chegamos — anunciou o motorista com um sotaque carregado de interior. Não me dei ao trabalho de responder, apenas peguei minha mala de mão e saí do carro.
A mansão era do tipo que fazia turista tirar foto do lado de fora. Três andares, fachada clássica, colunas brancas, uma escadaria na entrada principal que dava direto pra porta dupla de madeira entalhada. E ali, parada no topo da escada, como se fosse a dona do império — e talvez fosse, pelo menos em breve — estava ela.
Isadora.
E, p***a…
Ela era ainda mais linda do que eu imaginava.
Alta, loira, cabelos lisos que batiam no meio das costas, olhos azul-claros que pareciam dois tiros de gelo direto no peito. Corpo escultural, vestido de seda branco que deixava pouco pra imaginação, e uma confiança que quase me fez tropeçar no primeiro degrau da escada.
Mas claro que eu não ia dar esse gostinho.
Subi com o olhar fixo nela, como quem encara o adversário antes do primeiro round.
— Enzo — ela disse meu nome como se estivesse saboreando cada sílaba. A voz era firme, mas doce. Um pouco rouca. Sexy até demais pro meu gosto.
— Isadora — respondi, seco. Sem sorriso.
Ela estendeu a mão pra mim. Ignorei. Passei direto por ela, puxando minha mala, e empurrei a porta com mais força do que precisava.
— Você tá no seu país agora, não custa nada ser educado — ela comentou atrás de mim, entrando logo depois.
— Isso aqui ainda é a casa do meu pai, não sua. E educação pra mim é recíproca.
— Nossa — ela soltou uma risadinha curta — você não perdeu tempo em começar a implicância, hein?
— Eu sou prático.
Dei uma olhada geral na casa. Tudo como sempre. Móveis caros, quadros de artistas que meu pai provavelmente nem conhece, escadaria em curva levando pro segundo andar, mármore até no queixo da estátua no hall. A mesma ostentação que sempre odiei.
— Seu quarto tá pronto — ela disse, andando na frente com aqueles saltos que ecoavam como estalos de chicote no piso. — É o mesmo de antes. A empregada deu uma ajeitada, mas nada foi mexido. Achei que você gostaria disso.
— E por que você ia se importar com o que eu gosto?
Ela parou no topo da escada, virando-se de leve. O vestido colou nas curvas dela de um jeito quase criminoso.
— Porque eu não sou sua inimiga, Enzo. Você é filho do homem que eu amo. E ele te ama. Isso já é o bastante pra mim querer que a gente se entenda.
— Amor — repeti a palavra, quase cuspindo. — Engraçado… Vocês se conhecem há quanto tempo mesmo?
— Tempo suficiente.
— Pra quê? Casar? Herdar o sobrenome?
Ela desceu um degrau, ficando mais perto de mim. Estávamos frente a frente. A luz amarelada do lustre iluminava o rosto dela de um jeito que me irritava. Ninguém tinha o direito de ser tão bonito e tão… envolvente.
— Eu sei que você tá puto com isso tudo — ela disse, e a voz dela agora era mais baixa, quase num tom íntimo. — Que tá voltando porque seu pai exigiu, não porque quis. E eu sei que você tá doido pra achar um defeito em mim pra justificar essa raiva toda. Mas a verdade, Enzo, é que eu não sou o monstro que você inventou na sua cabeça. Eu só me apaixonei por um homem incrível. Só isso.
Ficamos em silêncio por uns segundos. Meu olhar preso no dela. O dela preso no meu.
Ela piscou primeiro.
— O jantar tá pronto. Fiz lasanha — avisou, virando-se para seguir pelo corredor. — Não sei se você ainda gosta.
Eu ainda gostava. Mas não disse nada, afinal, nem sabia como ela sabia disso.
Fui pro meu quarto, larguei a mala num canto e encarei o teto. A janela estava aberta e a brisa quente entrava sem pedir licença. Tentei pensar em qualquer coisa que me tirasse daquele turbilhão, mas minha cabeça só voltava pra imagem dela. Pra segurança com que ela falava, pra forma como ela não abaixava a guarda diante das minhas provocações.
Ela não era o tipo de mulher que se intimidava. E isso… me deixava mais irritado ainda.
Ou talvez… curioso.
Desci uma hora depois. Isadora estava na cozinha, sentada na bancada com uma taça de vinho tinto, as pernas cruzadas com perfeição, o celular na mão. Não usava mais o vestido branco. Agora era um conjunto de seda azul-marinho, daqueles que pareciam pijama de rico. O cabelo preso num coque frouxo, alguns fios soltos caindo ao redor do rosto.
Ela levantou o olhar quando me viu.
— Se estiver com fome… — apontou pra mesa.
A comida estava linda, cheirosa, impecável.
— Você quem fez?
— Uhum. Pode parecer chocante, mas eu sei cozinhar. E não, não foi pra impressionar seu pai. Foi antes dele existir na minha vida.
Sentei à mesa. Peguei o garfo. Dei a primeira garfada. A merda estava deliciosa.
— Tá boa? — ela perguntou, ainda encostada na bancada.
— Serve.
Ela soltou uma risadinha.
— Você sempre foi assim?
— Assim como?
— Arisco. Antipático. Bonito, mas insuportável.
Dei de ombros, mastigando.
— Depende da companhia.
— Então talvez você esteja precisando rever seu conceito de companhia.
Ela caminhou até a geladeira, pegou uma garrafa de água com gás, serviu num copo alto. Tudo nela era elegante, quase milimétrico. Desde o jeito que ela segurava o copo até a forma como cruzava os braços.
E, c*****o, eu odiava admitir que… ela me deixava intrigado.
Não era só bonita. Era magnética. Como um enigma que eu queria desvendar, mesmo sabendo que não devia nem ter chegado perto.
Terminamos de comer em silêncio. Ela lavou a louça — sim, a futura esposa do milionário lavando a louça — enquanto eu observava de canto. A mansão estava quieta demais. Sem meu pai, sem ninguém além de nós dois, parecia um castelo amaldiçoado onde cada parede escondia algum tipo de tensão.
— Seu pai volta amanhã à noite — ela avisou, secando um copo.
— E até lá, sou só eu e você?
— Exato.
— Que delícia.
Ela sorriu de lado.
— Eu não mordo. A não ser que peça.
Arregalei os olhos, pego desprevenido.
— Brincadeira, Enzo. Relaxa. Eu sei me comportar. E você devia tentar o mesmo.
Subi pro quarto sem responder, mas com o peito em combustão.
A primeira noite tinha sido um teste. Um aviso. E algo me dizia que os próximos dias seriam ainda mais perigosos.
Porque por mais que eu quisesse odiá-la…
Algo em mim começava a falhar miseravelmente.
E eu não fazia ideia do que isso ia significar.