Alana
Mostrei o dedo do meio pro Daniel e me levantei da mesa, seguindo pra biqueira.
Só quem tem irmão entende a nossa relação. Ele queria me matar o tempo inteiro, enchia o meu saco pra c*****o, mas se metia na frente de uma bala por mim, e no fundo ele tava ligado que eu faria o mesmo por ele.
Larguei a minha vida inteira lá em São Paulo, deixando minha mãe e meus amigos pra trás, porque não aguentei de saudade quando ele veio pro Rio de Janeiro, se juntar de vez com a Laura, que era a cunhada mais maneira que existia no mundo. Daniel tava ciente que se fizesse merda com ela, ia se ver comigo. A garota merecia tudo de bom.
No fundo, eu tinha pena da Laura. Quando ela casou com o meu irmão, nem sonhava que me ganharia de brinde.
Eu morava junto com eles fazia uns três anos, e era muito suave pra gente dividir o mesmo apê. Até ameacei sair algumas vezes, mas a Laura nunca deixou.
Quando me mudei pra cá, eu só estudava... ou melhor, eu ia pra escola. Nunca curti sala de aula ou qualquer coisa que me mantivesse presa. Com dezoito, entrei pro corre, seguindo os passos do meu irmão e dando uma preocupação danada pra cabeça dele.
Não importava quantas vezes eu dissesse pro Daniel que sabia me cuidar, ele nunca ia entender.
Eu fazia do meu jeitinho. Visionária pra c*****o, tá ligado? Oferecia pro cliente o que ele quisesse ouvir, e, modéstia à parte, meu papo era bom demais. Facinho de qualquer um cair. Acho até que era um dom.
Mas eu sempre sonhei com o topo. A biqueira já tava muito manjada e vender não me causava mais o friozinho na barriga que dava no início.
Eu me amarrava no perigo. E foi pensando nisso que quis trocar ideia com o Grego e pedir uma oportunidade de crescer. Ele deu a palavra que ia pensar no meu caso — e isso já fazia dois dias.
Dois dias que ele pensava. Dois dias que o Daniel atormentava a minha cabeça.
D2: Maneiro tu me deixar falando sozinho – gritou, descendo as escadas do apartamento que a gente dividia, atrás de mim.
Parei no portão e coloquei as mãos na cintura, olhando pra ele.
Alana: Sabe o que tu tá precisando? Uma erva pra te deixar bem calminho – tirei um baseado bolado do bolso da jaqueta, coloquei na boca e acendi – Eu vendo uma erva da boa. Até faço um preço na faixa pra ti, meu brother.
D2: Vou fazer tu engolir esse baseado, tu vai ver, sua fodida!
Ele arrancou o beck da minha boca e colocou na dele, dando uma boa tragada.
O portão foi aberto, e eu virei de costas, encontrando a Fabiana, nossa vizinha.
Fabiana: Oi, gente. Tudo bem?
D2: Boa tarde – respondeu.
Alana: Boa pra nós – dei um sorrisinho. Ela retribuiu.
Fabiana: D2, você viu o Tubarão? Ele não me atendeu e não veio em casa almoçar.
Devia ser porque ele tava almoçando a Karina da rua seis. Mas eu fiquei quieta pra evitar b.o pro meu lado.
A Fabiana era casada com o bandido mais sem visão que eu conhecia. O maluco era fechadão na dele. Tava ligada que ninguém bolava um assalto melhor, e que ele tinha a confiança do Grego.
Mas desde que me mudei, só vi o Tubarão de cara fechada, inexpressivo, sem sorrir pra nada, nem ninguém.
Era um grande de um gostoso? p***a, sem dúvidas ele era!
Já me peguei muitas vezes pensando por que Deus colocava um homem daqueles no mundo se eu nunca ia sentar? Era um absurdo, sem caô!
Gostoso, mas casado. Todo posturado, com a maior marra nas costas.
Eu babava muito fácil.
D2: Tô ligado onde ele tá não, Fabiana – ele coçou a nuca e me devolveu o cigarro – Mas antes de sair da salinha, ouvi o Grego dizer que ia trocar um papo com ele. Deve estar resolvendo algum bagulho.
A corna mansa concordou e agradeceu. Ela tava ligada que o marido metia o maior chifre nela, mas parecia que nem se importava. Parada doida. Se fosse comigo, eu arrancava o p*u dele fora, certeza!
Fabiana saiu, e o Daniel me empurrou pra fora do portão. A gente subiu na moto dele, porque ele prometeu me deixar na biqueira e depois piar pros corre dele.
D2: Bagulho feio ficar julgando os outros. Tu nem disfarça a tua cara, Alana.
Dei de ombros, subindo na moto.
Alana: Mas eu nem tentei disfarçar.
Ele negou com a cabeça e deu partida.
Chegando na biqueira, encontrei os dois menor fazendo o turno deles, e o Tubarão sentado na escada, jogando fumaça pro ar. D2 olhou pra ele, mas o cara nem respondeu o olhar, porque tava viajando na onda dele, olhando pra qualquer ponto fixo.
Me despedi do meu irmão e caminhei pra perto deles.
Alana: E aí, meus cria. Suave? – senti o olhar do Tubarão fixo em mim, e fui obrigada a encarar ele de volta – Vapor novo?
— É o Tubarão, Lana – o menor respondeu, e eu sorri com deboche.
Óbvio que eu sabia quem era. Só tava gastando.
O gostoso não deu nem um sorrisinho. Só ficou me olhando com aquela cara de puto e levantou, vindo na minha direção.
Nunca tinha ficado tão perto daquele homem. Quando ele parou na minha frente, a menos de um palmo de distância, e jogou a ponta do cigarro no chão, eu quase abri as pernas.
Tubarão era alto pra c*****o, e eu era uma anã. Precisava olhar pra cima pra encarar, já que minha cabeça ficava bem na altura do peito dele.
Tubarão: Brota aqui – ele apontou com a cabeça pro canto do beco, e eu fui junto, sem falar nada. Ele se encostou numa parede, e eu fiquei na oposta. Era mais seguro manter distância – Grego mandou o papo que tu quer crescer no movimento.
Alana: É a meta.
Ele cruzou os braços.
Tubarão: Qual teu artigo?
Alana: 33.
Tubarão: Só? – perguntou na boa. Como sempre, completamente inexpressivo. Só concordei com a cabeça.
Tubarão: Tu tem quantos anos?
Alana: É tipo uma entrevista de emprego? Tô nervosa, nunca fui numa.
Tubarão: Tô com tempo pra brincadeira?
Tirei o celular do bolso da calça e estendi na direção dele.
Alana: Uma e meia agora. Quanto tempo tu tem?
Vi ele trincar o maxilar e apertar a mão com força, fechando os punhos.
Nossa, eu só queria que ele encostasse em mim. Ia cortar dedo por dedo, e depois ia enfiar no cu dele.
Tubarão: Não vou perder meu tempo contigo. Já tô ligado como vai ser o bagulho – arqueei a sobrancelha – Oito horas da noite. Teu irmão tá ligado onde é. Não se atrasa.
Alana: Eu vou ter que fazer a unha... talvez me atrase um pouquinho – fiz bico.
Tubarão: Por isso que eu não boto fé. Criança acha que o crime é brincadeira. Te liga nas tuas atitudes!
Por isso que eu não boto fé.
Aquelas palavras ecoaram na minha cabeça enquanto via ele se afastar.
Pô, ele podia cuspir na minha cara, mas não ia afetar tanto o meu ego quanto duvidar de mim.
E que se f**a. Nunca entrei em nada na minha vida pra fazer pela metade.
Eu ia mostrar pra ele — e pra quem quisesse ver — como nunca duvidar da capacidade de uma mulher.