Sophie:
Eu ainda não acreditava no que estava acontecendo. Ele realmente teve coragem de fazer isso? Dante deliberadamente nos fez chegar atrasados ao casamento para essa entrada triunfal?
A vontade de rir era forte, mas o nervosismo ainda maior. Minha mãe não parava de nos encarar com olhos arregalados, enquanto Bianca tremia na base, mesmo depois de os ânimos já terem se acalmado.
Dante, por outro lado, apenas arqueou uma sobrancelha e manteve aquele maldito sorrisinho safado no canto dos lábios. Minha mãe quase não se aguentava em pé, amparada por minha tia Roseli, que segurava o riso tanto quanto eu. Ela sempre se questionou por que minha mãe fazia distinção entre mim e Bianca, e um tempo depois, eu descobri a resposta.
Mamãe tinha ciúmes de mim com o meu pai e com a minha avó, então queria que eu fosse sua réplica perfeita. Mas, para seu desgosto, puxei meu pai em tudo, até no jeito simples de ser. Apesar de ter sido um milionário, ele nunca perdeu sua essência. Meu pai veio do Alabama, e minha mãe odiava o fato de ele falar com aquele sotaque meio caipira e arrastado.
Ela nunca o amou de verdade. Casou-se por dinheiro, mesmo já sendo rica. E quando papai entrou em falência e vendeu todas as suas empresas de jornais, mamãe logo tratou de arranjar casamentos para mim e Bianca, como se fôssemos objetos em um leilão de luxo. Mas meu pai não aceitou isso e acabou se separando dela. O problema era que, sim, ele ainda a amava de verdade.
Quando meus pais se divorciaram, fui morar com papai e minha avó na casinha onde moro atualmente. Apesar disso, ele continuou sustentando os luxos de mamãe e Bianca. Minha irmã tem 21 anos e nunca trabalhou um único dia na vida, nem sequer pisou em uma faculdade.
Quando meu pai faleceu, deixou uma carta determinando que eu administrasse todo o dinheiro da família e destinou uma quantia separada para cada uma de nós. Mas minha mãe falsificou tudo que podia, tirando todo o poder das minhas mãos, até mesmo o dinheiro que papai havia me deixado.
Ele me destinou 85 mil dólares. Na época, eu estava tão destruída pela perda dele que não me importei com mais nada. Meu pai sabia que com esse dinheiro eu faria minha carreira como jornalista, pois sempre tive a mesma paixão que ele. Mas Bianca e minha mãe acabaram com tudo, menos com a casa da vovó, porque, segundo elas, era simples demais, apesar do toque sofisticado que ela tinha.
Balanço a cabeça em negação e volto minha atenção para a cerimônia. O padre faz a pergunta final, e Bianca responde "sim" sem hesitar. Meu ex, Adrian, engole seco e também diz "sim".
No fundo, agradeço a minha irmã por me mostrar quem Adrian Bettencourt realmente era. Ela pensa que está casando com o herdeiro de restaurantes e boates, mas, na verdade, está se casando com um traidor que teve coragem de dormir com a própria cunhada. Um homem que, no fundo, nunca amou ninguém além de si mesmo.
Desvio o olhar para os pais de Adrian, que encaram o filho com evidente irritação e desapontamento. Eles não fazem questão de esconder o desgosto pela escolha dele. São pessoas simples, que construíram seu império com as próprias mãos, e vê-lo assim, vendendo sua alma por status, deve ser uma decepção enorme.
Solto um suspiro profundo e, nesse instante, sinto a mão quente de Dante apertar minha perna. Meu corpo reage imediatamente a esse simples toque. Com ele, tudo é tão... diferente.
— Não pense muito sobre isso, gatinha. Ele sussurra em meu ouvido, fazendo-me encolher.
Ele ri, adorando a minha reação. Semicerro os olhos, irritada, e então o maldito cheira meu pescoço, como se não estivéssemos cercados por dezenas de pessoas nos observando.
Algumas mulheres suspiram ao nosso redor.
Envergonhada, tento me afastar, mas Dante me puxa ainda mais para perto. — Aonde pensa que vai, baby?
— Não seja indecente, seu tarado! Se você não percebeu, há muitas pessoas aqui.
Ele apenas dá de ombros, com o sorriso descarado de sempre.
— E daí? Não posso ser carinhoso?
Mordo os lábios, e ele apenas sorri ainda mais. Bufando, desvio o olhar, e meus olhos encontram meu primo Jorge.
Sempre nos demos bem, mas nunca houve nada além de um sentimento familiar entre nós. Pelo que vejo agora, no entanto, ódio é o que transborda dos olhos dele. Suas mãos estão fechadas em punho e, num movimento abrupto, ele sai do local da cerimônia.
Dante gargalha alto.— Oh, acho que ele pensou que iria se casar com você, baby. Mas nunca!
Seu tom possessivo me fez sentir um misto de irritação e... algo que não quero admitir.
Eu sabia que essa noite ainda prometia muito.
A cerimônia finalmente termina, e eu solto um longo suspiro de alívio. Mas claro que Dante não perderia a oportunidade de tornar tudo ainda mais caótico.— Pronta para o espetáculo da festa, preciosa? Ele murmura no meu ouvido, e um arrepio involuntário percorre minha espinha.
Reviro os olhos.
— Se você se comportar, talvez eu até dance com você.
Ele sorri, aquele maldito sorriso de canto, e segura minha mão com firmeza.
— Oh, gatinha, eu não danço. Eu comando a pista.
Dou uma risada curta. Ele é impossível.
Ao entrarmos no salão da recepção, os olhares ainda estão sobre nós. Bianca finge que nada aconteceu, mas eu percebo o aperto de sua mão no braço de Adrian. Ele, por sua vez, parece inquieto, os olhos fugindo dos meus e voltando sempre para Dante, que mantém sua expressão impassível, mas nitidamente superior.
Minha mãe, Emma, está sentada à mesa principal, o rosto contorcido em uma expressão de puro desgosto. Ah, se olhares matassem…
Dante inclina a cabeça para mim e sussurra:— Acho que sua mãe me adora.
Dou um sorriso falso para ela e cochicho de volta:
— Com certeza. Se pudesse, já teria te atirado pela janela.
Ele dá uma risadinha baixa e, sem aviso, desliza o braço ao redor da minha cintura, me puxando para mais perto. Meu coração dá um salto.
— E você, preciosa? O que faria comigo?
Minhas bochechas pegam fogo. Antes que eu possa responder, Jorge reaparece, ainda com a expressão carregada. Ele não disfarça a irritação ao nos ver tão próximos. Dante percebe, é claro. E adora. — Olha só quem voltou… Será que ele ainda acha que tem chance? Dante murmura, e então, para minha completa vergonha, ele se inclina e murmura algo em francês no meu ouvido:
"Je pourrais t'embrasser ici et maintenant, et personne ne m'arrêterait, pas même toi."
(“Eu poderia te beijar aqui e agora, e ninguém me impediria, nem mesmo você.”)
A reação das mulheres próximas é imediata. Suspiros e olhares sonhadores.
— Pare com isso! Dou um beliscão discreto nele, mas ele apenas ri.
— Você é minha agora, Sophie. Pode se acostumar com isso.
Minha mente trava por alguns segundos. Minha? O pior é que… eu não desgosto dessa ideia.