Capítulo 01

1102 Words
Sabe quando você tem certeza de que irá morrer? É assim que me sinto agora, como se fosse morrer. Pareço estar sufocando, vendo o pior cenário um palmo à minha frente. Minhas bochechas doem pelo tapa que levei da minha cunhada quando implorei, ajoelhada na frente de todos, para que não me deixasse ir. Para que eu pudesse ficar. Prometi que faria qualquer coisa, mas nada adiantou. Nada pareceu o suficiente. Agora, estou trancada no banco de trás de um carro que cheira a couro caro e fumaça de charuto. Ao meu lado, a presença do Don esmaga qualquer tentativa do meu peito de buscar oxigênio. O silêncio dentro do veículo é aterrorizante, quebrado apenas pelo som baixo dos pneus contra o asfalto. Olho para as minhas mãos, onde a linha vermelha do meu vestido artesanal parece uma ferida aberta contra o tecido. Eu esperava oᵖior. Na minha mente, o trajeto é uma contagem regressiva para a tortura, para o abuso, para ter o resto da dignidade que me sobrou arrancada por homens que não conhecem a palavra piedade. Quando o carro finalmente para, sinto meu corpo inteiro enrijecer. Os homens de preto abrem a porta e eu sou guiada para fora. Diante de mim, ergue-se a imensa mansão da Cosa Nostra. É uma construção monumental, fria e imponente, cercada por portões de ferro que parecem os dentes de uma fera pronta para me engolir. Caminho com as pernas trêmulas, mantendo os olhos fixos no chão, esperando que a qualquer momento o tom de voz mude, que os puxões comecem. Mas as portas duplas de madeira maciça se abrem e o que encontro me deixa paralisada. Fui conduzida por escadarias imensas até um quarto que mais parece o aposento de uma rainha. O espaço é absurdamente luxuoso, com uma cama de casal que parece feita de nuvens, cortinas de veludo pesado e, através de uma porta entreaberta, consigo ver uma banheira de imersão de mármore branco. Sobre a cama, há pilhas de roupas limpas, tecidos finos e delicados que eu nunca tive a chance de tocar na vida. Quando a porta se fecha atrás de mim, viro-me rapidamente para o Don e dou dois passos para trás, meu corpo tremendo, enquanto espero o pior. Ele me trouxe para ser uma das suas amantes? Ele irá me abusar? Irá me quebrar por dentro como um monstro? Céus, não... — Don, por favor, eu imploro — comecei a falar, meus joelhos cedendo. — Não me machuque. Me mate, mas não me machuque. O Don fica me encarando por longos segundos. Seus olhos varrem meu rosto, descendo para a marca avermelhada na minha bochecha e para a forma como me encolho diante dele. Uma expressão de profunda confusão cruza suas feições duras. Ele parece tentar decifrar minhas palavras, até que, de repente, um lampejo de reconhecimento passa por seus olhos. Ele finalmente entende o que estou pensando. Entende o medo sórdido que está me sufocando. Sua boca se abre levemente, os lábios se partindo em um choque genuíno. O homem mais perigoso da cidade parece genuinamente boquiaberto diante da minha fragilidade e do meu terror. — Que tipo de criação você recebeu naquela casa desde que os seus pais morreram, menina? — ele pergunta, e sua voz não é mais a navalha cortante do salão de festas, mas carrega um tom pesado de indignação e descrença. Eu não consigo responder. O choro baixo escapa pela minha garganta, um soluço preso que finalmente se liberta. Encaro-o com os olhos embaçados pelas lágrimas, sem entender absolutamente nada do que está acontecendo. Por que ele está agindo assim? Por que não está avançando em mim? O Don solta um suspiro pesado, endireitando a postura, e dá um passo atrás para me dar espaço, percebendo o quanto sua proximidade me assusta. — Escute bem o que vou lhe dizer, Ely — ele começa, mantendo a voz firme, mas inacreditavelmente calma. — Eu sou um homem casado. Eu amo a minha esposa com a minha vida. Eu jamais machucaria você, e jamais, em toda a minha existência, tocaria em uma mulher contra a sua vontade. Eu acho esse tipo de comportamento nojento, digno de homens fracos. E eu não sou um homem fraco. Eu pisco, atordoada. Meus lábios ainda tremem, e meu coração bate tão forte que posso ouvi-lo nos meus ouvidos. O medo ainda está ali, arraigado na minha pele, mas as palavras dele entram na minha mente como um choque térmico. — Então... o que eu sou aqui? — pergunto com a voz trêmula, quase um sussurro. — O que vai acontecer comigo? — Você é uma convidada na minha casa — ele responde prontamente, cruzando os braços atrás das costas. — A Cosa Nostra está acolhendo você, Ely. No momento em que coloquei os pés naquela festa, percebi que você não era bem-tratada por aquela gente. O seu irmão é um verme, mas o seu pai... o seu pai era um bom homem. Anos atrás, ele foi generoso com a minha família, ele cuidava de todos ao seu redor e me estendeu a mão quando precisei. Eu nunca esqueci isso. Eu esperava poder, um dia, retribuir a generosidade dele... e fiz isso salvando você daquele ninho de cobras. Fico sem ar, as palavras dele flutuando ao meu redor. Salva. Eu não fui vendida para o meu fim. Eu fui arrancada do meu inferno pessoal para ser protegida por causa da memória do meu pai. Antes que eu possa processar a magnitude daquela revelação, batidas firmes e ritmadas ecoam na porta do quarto, cortando o silêncio. O Don desvia o olhar de mim e faz um aceno sutil em direção à entrada. A maçaneta de bronze gira devagar e a porta se abre, revelando a silhueta de um homem que bloqueia a luz do corredor. É a primeira vez que vejo Dante Moretti. Ele é alto, com ombros largos que parecem carregar o peso de um império inteiro, e veste um terno escuro perfeitamente alinhado. Seus traços são duros, esculpidos em uma frieza que rivaliza com o mármore, e seus olhos escuros varrem o quarto até se cravarem em mim, analisando meu estado com uma intensidade que me faz querer encolher. Há uma aura de perigo absoluto ao seu redor, mas é uma força cirúrgica, controlada. O Don olha para o recém-chegado e depois para mim, antes de falar: — Dante é o meu Sotto-capo, o meu segundo em comando. A partir de hoje, ele é o homem encarregado de garantir que você não fuja desta propriedade. E, acima de tudo... de garantir que você esteja absolutamente segura.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD