Por um segundo, fico confusa. Me pergunto para onde eu fugiria e por qual motivo fugiria. Meu irmão seria o primeiro a me expulsar, como se eu fosse um verme, como se não valesse nada. Minha cunhada me odeia e age como se eu fosse um estorvo, uma postura diferente da que tinha antes dos meus pais morrerem, quando ainda me dava presentes e me paparicava.
— Eu não vou fugir — digo, meus lábios trêmulos. — Não sei onde estou e menos ainda tenho para onde ir.
— De qualquer forma, Dante terá o trabalho de cuidar de você e te integrar na nossa sociedade. — diz o Don, com a voz firme. Ele me lança um último olhar, um aceno de cabeça quase imperceptível, e caminha em direção à saída.
Quando a porta se fecha atrás dele, o silêncio que se instala no quarto é sufocante.
Dante Moretti continua parado perto da entrada, me encarando. Seus olhos escuros e indecifráveis analisam cada detalhe do meu estado: o cabelo desalinhado, o vestido vermelho feito de retalhos e a marca do tapa que ainda queima na minha bochecha. Ele não se move como um monstro pronto para atacar, mas sua postura impecável exala uma autoridade que me faz prender a respiração.
Ele dá dois passos lentos na minha direção. Instintivamente, meu corpo recua meio centímetro, tensionando cada músculo.
— Eu sou Dante — ele diz finalmente. Sua voz é um barítono grave, calmo, mas que parece vibrar pelas paredes do quarto.
Ele estende a mão direita na minha direção, em um gesto formal que eu nunca esperaria dentro da mansão do homem mais perigoso da cidade. Olho para os seus dedos longos e depois para o seu rosto duro. Com os dedos trêmulos, estendo minha mão e a aperto. A palma dele é grande, quente e calejada, contrastando cruelmente com a minha pele fria. Sinto meu corpo se encolher inteiro durante o toque, um reflexo condicionado por anos de agressões, esperando que o aperto se transforme em dor.
Mas ele apenas aperta de leve e solta, recolhendo a mão para o bolso do terno escuro.
— Você trouxe alguma mala? Alguma coisa? — ele pergunta, correndo os olhos pelo quarto vazio.
Nego com a cabeça, sentindo um aperto na garganta. Como eu teria trazido algo se fui arrastada de um salão de festas como uma mercadoria? Eu não tinha nada além dos trapos costurados no meu corpo.
Dante assente devagar, absorvendo a minha resposta sem demonstrar julgamento.
— Esta é a minha ala na mansão — ele explica, gesticulando sutilmente para o corredor do lado de fora. — Caso você não tenha percebido pela semelhança, sou o filho mais velho do Don.
Um choque silencioso passa por mim. Filho do Don. O Sotto-capo. O homem que está parado na minha frente comanda soldados e dita leis de sangue, e agora eu fui jogada diretamente no espaço pessoal dele.
— Você pode ficar à vontade para explorar toda a ala leste — ele continua, mantendo o tom de voz controlado, quase protetor. — Eu não vou perturbar você. Meu quarto fica no fim do corredor, então, se precisar de absolutamente qualquer coisa, pode me procurar.
Eu apenas assinto. Minha voz parece ter sumido de vez, engolida pelo cansaço e pela enxurrada de informações. Não tenho coragem de falar, com medo de que minhas palavras quebrem aquela trégua inacreditável. Engulo em seco, forçando minhas cordas vocais a funcionarem.
— Obrigada — sussurro, a palavra saindo tão baixa que duvido que ele tenha ouvido.
Mas ele ouviu. Os olhos de Dante se estreitam de leve, fixos em mim.
— Vou arranjar roupas limpas e adequadas para você amanhã de manhã — ele diz, e então faz uma pausa, olhando para a imensa cama de casal atrás de mim. — E... se você não se sentir confortável comigo em dormir sozinha, ou se tiver medo... eu posso dormir no chão. Não farei nada que assuste você.
Eu pisco, atordoada. Olho para ele, sentindo uma estranheza profunda dar nós na minha mente. Por que o filho do chefe da máfia, o segundo em comando, o homem que deveria me vigiar como um prisioneiro, está sendo tão gentil? Na casa do meu irmão, eu dormia em um colchão fino e era tratada como um estorvo; aqui, um homem perigoso está se oferecendo para dormir no chão frio apenas para que eu me sinta segura.
Não faz sentido. Nada disso faz sentido.
— Obrigada... de verdade — consigo dizer, dessa vez um pouco mais firme, embora minhas pernas ainda ameacem ceder a qualquer momento.
Dante dá um último aceno com a cabeça, uma promessa silenciosa de que, pela primeira vez na vida, as sombras ao meu redor não vieram para me destruir.