Sento-me na cama, esmagando meus dedos firmemente uns contra os outros. Meu coração bate forte no meu peito, enquanto sinto uma necessidade quase insuportável de gritar e chorar, por medo, inserguraça, por tudo. Essas pessoas não são minha família e não me devem nada, mas sua bondade parece demais.
A porta se abre novamente, interrompendo o fluxo dos meus pensamentos caóticos. Dante entra trazendo algumas peças de tecido dobradas nos braços. Ele caminha até a beirada da cama com passos medidos, como se estivesse tentando não assustar um animal arisco.
— É o que consegui arranjar por agora. Amanhã providenciarei coisas melhores — ele diz, estendendo as roupas para mim. — É uma blusa minha e... uma cueca. Está limpa, nunca foi usada, estava guardada na embalagem. Pode ficar sem preocupações.
Olho para o tecido escuro nas minhas mãos. A blusa de algodão dele é tão grande que provavelmente vai parecer um vestido em mim.
— Obrigada — murmuro, a voz quase sumindo.
— Você quer tomar um banho? — Dante pergunta, cruzando os braços. Seus olhos escuros parecem ler cada linha de exaustão no meu rosto. — Quer que eu fique aqui no quarto enquanto você vai, ou prefere que eu saia?
Olho para a imensa porta de madeira do quarto e depois para ele. O medo de ficar sozinha em um lugar totalmente desconhecido consegue ser maior do que o constrangimento da presença dele.
— Fique, por favor — assinto com a cabeça, apertando as roupas contra o peito.
Ele apenas concorda com um gesto sutil. Junto as peças limpas, levanto-me da cama e caminho em direção ao banheiro luxuoso, fechando a porta atrás de mim. No momento em que o trinco dá o estalo final, minhas pernas vacilam. Eu me escoro na pia de mármore e, lentamente, ergo os olhos para o grande espelho à minha frente.
O impacto me faz levar a mão à boca para abafar um soluço.
A garota no reflexo m*l parece eu mesma. Meus olhos estão vermelhos e inchados, a pele excessivamente pálida destaca a marca arroxeada do tapa na minha bochecha, e o cabelo está rígido, opaco, destruído pelo excesso de laquê que Bianca me obrigou a passar para a festa. Sinto as lágrimas quentes transbordarem, escorrendo pelo meu rosto e limpando os resquícios da maquiagem barata.
Minha vida inteira está desmoronando. Tudo perdeu o sentido em questão de poucas horas. Eu fui doada, vendida, e agora estou recebendo lençóis de seda e roupas limpas das mãos de um homem que comanda o crime. Minha mente gira, incapaz de processar tanta informação. Eu choro baixo, abraçando meu próprio corpo, deixando que o desespero escorra junto com a água quente que começo a ligar na banheira.
Entro na água e fecho os olhos. Esfrego minha pele até deixá-la vermelha, tentando arrancar o toque invisível da humilhação da minha família. Lavo o meu cabelo repetidas vezes, sentindo o laquê se dissolver e a água escura descer pelo ralo, levando embora o peso daquela noite maldita.
Quando saio, visto as roupas de Dante. A camiseta cai quase nos meus joelhos, e o cheiro dele — uma mistura de perfume amadeirado e sabonete caro — me envolve de um jeito estranhamente acolhedor. Abro a porta do banheiro devagar, secando os fios molhados com uma toalha.
Dante está sentado na poltrona do canto, exatamente onde o deixei. Ele ergue os olhos e me analisa por um segundo antes de falar:
— Você quer secar o cabelo?
— Eu... não vi nenhum secador ali dentro — respondo, encolhendo os ombros sutilmente.
— Espere aqui. Já volto — ele pede, levantando-se imediatamente e saindo do quarto.
Sozinha, sinto uma inquietação me puxar em direção à imensa janela de vidro que dá para os fundos da propriedade. Aproximo-me a passos lentos e puxo a cortina de veludo pesado. O que vejo do lado de fora faz meu peito palpitar, mas dessa vez, não é de medo.
Está nevando.
Pequenos flocos brancos e cristalinos começam a cair do céu escuro da noite, flutuando suavemente antes de cobrirem os jardins perfeitamente desenhados da mansão. Fico completamente encantada, colando a ponta dos dedos no vidro frio. Eu passei a vida inteira morando em um país tropical, onde o frio extremo e a neve eram coisas que eu só via através das páginas rasgadas de revistas velhas que Bianca jogava fora. Ver aquilo acontecer de verdade, bem diante dos meus olhos, parece um milagre silencioso no meio do meu caos.
A porta se abre e eu me viro rapidamente. Dante entra segurando um aparelho e caminha até mim, estendendo-o.
— Aqui está. Pode secar o cabelo com calma — ele diz, mantendo aquela distância respeitosa que percebi que ele faz questão de guardar. — Vou aproveitar para ir até o meu quarto trocar de roupa e tomar um banho também. Depois, vou descer até a cozinha para pegar alguma comida para nós. Você deve estar faminta.
Assinto, segurando o secador contra o peito, sentindo que, pela primeira vez em muitos anos, alguém está realmente prestando atenção nas minhas necessidades básicas.