Recado

1157 Words
Augusto narrando Desci o morro sem pressa. Não tava com raiva, e nem tava com ódio. Eu tava com uma frieza no peito que até me assustava. Quando a gente fica muito tempo sentindo coisa, chega uma hora que o bagulho vira gelo. Passei pelo campo, e olhei pro lado, as crianças brincando, mãe chamando pra almoço, a vida normal. A casa amarela tava lá. Portão azul fechado, a moto na frente ainda, ele tava em casa. Parei no mesmo lugar de antes, na esquina, meio disfarçado, acendi um cigarro e fiquei observando. Cinco minutos. Nada. Aí a porta abriu, ele saiu de novo. Dessa vez tava de capacete na mão, ia sair com a moto, colocou o capacete, ligou a moto, arrancou. Passei a mão no bolso, e peguei o celular. — Placa da moto? Mandei pro Pantera, ele tinha vista melhor. — HXN-9J47 — Boa. Guardei o celular. Vi a moto sumir no fim da rua, depois voltei o olhar pra casa. Sozinha, silenciosa, e com vaso de planta murcha na frente. Então era ali que o filho da p**a morava. Fiquei mais um tempo, só gravando detalhe, portão dava pra sala direto, a janela de grade, o telhado de brasilit, o muro baixo, era fácil de pular se precisasse. Terminei o cigarro e joguei no chão. No caminho, passei na boca, comprei um pó, e guardei no bolso. Não era pra usar agora. Era pra mais tarde, quando a cabeça quisesse pensar demais. Subi as escada devagar, cada degrau pesava. Quando cheguei no barraco, o Pantera tava sentado na porta, mexendo no celular. Levantou quando me viu. — E aí? — E aí o quê? — Foi lá de novo? — Fui. — Viu ele? — Vi. — Fez nada? Olhei pra ele. — Se tivesse feito, cê não ia precisar perguntar. Ele assentiu, sabia que era verdade. Entrei no barraco, ele atrás. — Augusto. — Fala. — O que cê vai fazer? Parei. Virei devagar. — Por que cê quer saber? — Porque sou teu amigo, porque tô aqui, se tu for fazer merda, quero estar junto ou impedir. Quase sorri. — Cê é doido. — Sou, mas tô aqui. Sentei no sofá. Passei a mão no rosto. — Pantera. — Fala. — Cê já amou alguém? Ele parou. — Amo minha esposa. — E o que cê fez quando mexeram com essa pessoa? Ele pensou. — Nada, na época não tava perto, só soube depois. — E se tivesse perto? Ele demorou pra responder. — Ia querer matar. — Pois é. Silêncio. Puxei o pó do bolso, botei na mesa, e ele olhou. — Vai usar agora? — Vou, se quiser ir embora, vai. Ele ficou parado. — Fico. Olhei pra ele. — Por quê? — Porque amigo não abandona amigo no fundo do poço. Olhei pro pó na mesa. — Ainda não cheguei no fundo. — Mas tá perto. Ele sentou do outro lado do sofá, não falou mais nada, só ficou lá. Preparei a carreira, e cheirei. A frieza no peito virou nada, o gelo derreteu por uns segundos, mas passou rápido. Encostei a cabeça no sofá. Luly. Luly chorando, braço dela preso, mão daquele filho da p**a. — Pantera. — Fala. — Descobre tudo sobre ele, trabalho, a família, os amigos, rotina, tudo. — E depois? Fechei os olhos. — Depois a gente vê. Ele não respondeu, só ouvi ele mexendo no celular. Fiquei ali, no escuro do barraco, sentindo o efeito passar, a frieza voltar. Domingo à noite chegando, amanhã era segunda, e segunda começa a caça. O efeito do pó passou rápido. Mas enquanto durou, a mente clareou, não no sentido de alegria ou onda boa, nada disso. Clareou no sentido de enxergar melhor, as ideia se organizaram, o plano tomou forma. Quando abri os olhos, o Pantera ainda tava lá, mexendo no celular, anotando as parada que tava descobrindo. — Consegui — ele falou sem levantar a vista. — Trabalha de entregador, sai todo dia umas sete da manhã, e volta pro almoço umas doze. Sai de novo umas duas, e volta de vez umas oito da noite. — Mora sozinho? — Mora, a mãe morreu ano passado, o pai sumiu quando ele era pivete. — Irmão? — Não. — Amigo próximo? — Joga bola no campo toda quarta à noite, bebe num bar ali perto final de semana. Levantei do sofá, fui até a janela, o sol já tava se pondo, céu alaranjado por cima dos barraco. — Pantera. — Fala. — Amanhã cedo eu vou lá. Ele levantou a cabeça rápido. — Fazer o quê? — Dar um aviso. — Que tipo de aviso? Olhei pra ele por cima do ombro. — O tipo que ele vai entender. — Augusto… — Relaxa, não vou matar ele, não hoje. Ele ficou me olhando, tentando ler se era verdade. — Cê promete? — Prometo. Mentira. Mas ele não precisava saber, a noite passou lenta. Não dormi direito, fiquei virado na cama, imaginando a cena, a cara dele. Quando o dia clareou, eu já tava de pé. Tomei banho, coloquei roupa preta, nada pra chamar atenção, tênis velho, é um boné. Desci o morro antes das sete. O movimento na rua já tinha começado. Gente indo trabalhar, ônibus lotado, barraca de café na esquina, a vida seguindo. Parei no mesmo lugar de sempre, na esquina perto da casa amarela. Esperei. Uns vinte minutos depois, a porta abriu. Juninho saiu. Capacete na mão, camiseta preta da Oakley, e bermuda jeans, chinelo no pé. Ele foi até a moto, colocou o capacete. Eu esperei ele arrancar. Aí eu vim. Caminhei devagar até a casa, olhei pra um lado, pro outro, a rua vazia, ninguém olhando. O portão azul tava fechado, mas não tinha cadeado, só uma tramela. Empurrei e entrei. Bati na porta. Ninguém respondeu, ele tava saindo agora. Mas não precisava dele pra deixar o recado. Olhei pro lado, o vaso de planta murcha, levantei o vaso, e botei embaixo do braço. Aí tirei do bolso um papel, tava escrito com letra de forma, bem feio de propósito: — MEXEU COM QUEM NÃO DEVIA, a PRÓXIMA NÃO É AVISO. Dobrei, e botei embaixo do vaso. Virei as costas e vazei, subi o morro sem pressa de novo. Quando cheguei no barraco, o celular vibrou. — Cê foi? — Pantera perguntou. — Fui. — Fez o quê? — Deixei um presente. — Que presente? — Um aviso. — Ele tava? — Não, melhor assim, ele chega e encontra. — E se ele não entender? Olhei pro celular, sorri sozinho. — Ele vai entender, se não entender, a gente explica de outro jeito. Guardei o celular. Fui pra laje, acendi um cigarro, olhei o dia clareando de vez. Luly devia ter acordado agora, a Mayte também. Pensei em mandar mensagem, perguntar como ela tava. Mas desisti. Hora não era essa, agora era tempo de esperar, ver se o recado funcionava.
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