Augusto narrando
Desci o morro sem pressa. Não tava com raiva, e nem tava com ódio. Eu tava com uma frieza no peito que até me assustava. Quando a gente fica muito tempo sentindo coisa, chega uma hora que o bagulho vira gelo. Passei pelo campo, e olhei pro lado, as crianças brincando, mãe chamando pra almoço, a vida normal.
A casa amarela tava lá.
Portão azul fechado, a moto na frente ainda, ele tava em casa. Parei no mesmo lugar de antes, na esquina, meio disfarçado, acendi um cigarro e fiquei observando.
Cinco minutos.
Nada.
Aí a porta abriu, ele saiu de novo. Dessa vez tava de capacete na mão, ia sair com a moto, colocou o capacete, ligou a moto, arrancou. Passei a mão no bolso, e peguei o celular.
— Placa da moto?
Mandei pro Pantera, ele tinha vista melhor.
— HXN-9J47
— Boa.
Guardei o celular.
Vi a moto sumir no fim da rua, depois voltei o olhar pra casa. Sozinha, silenciosa, e com vaso de planta murcha na frente.
Então era ali que o filho da p**a morava.
Fiquei mais um tempo, só gravando detalhe, portão dava pra sala direto, a janela de grade, o telhado de brasilit, o muro baixo, era fácil de pular se precisasse.
Terminei o cigarro e joguei no chão. No caminho, passei na boca, comprei um pó, e guardei no bolso. Não era pra usar agora. Era pra mais tarde, quando a cabeça quisesse pensar demais. Subi as escada devagar, cada degrau pesava. Quando cheguei no barraco, o Pantera tava sentado na porta, mexendo no celular.
Levantou quando me viu.
— E aí?
— E aí o quê?
— Foi lá de novo?
— Fui.
— Viu ele?
— Vi.
— Fez nada?
Olhei pra ele.
— Se tivesse feito, cê não ia precisar perguntar.
Ele assentiu, sabia que era verdade. Entrei no barraco, ele atrás.
— Augusto.
— Fala.
— O que cê vai fazer?
Parei.
Virei devagar.
— Por que cê quer saber?
— Porque sou teu amigo, porque tô aqui, se tu for fazer merda, quero estar junto ou impedir.
Quase sorri.
— Cê é doido.
— Sou, mas tô aqui.
Sentei no sofá.
Passei a mão no rosto.
— Pantera.
— Fala.
— Cê já amou alguém?
Ele parou.
— Amo minha esposa.
— E o que cê fez quando mexeram com essa pessoa?
Ele pensou.
— Nada, na época não tava perto, só soube depois.
— E se tivesse perto?
Ele demorou pra responder.
— Ia querer matar.
— Pois é.
Silêncio.
Puxei o pó do bolso, botei na mesa, e ele olhou.
— Vai usar agora?
— Vou, se quiser ir embora, vai.
Ele ficou parado.
— Fico.
Olhei pra ele.
— Por quê?
— Porque amigo não abandona amigo no fundo do poço.
Olhei pro pó na mesa.
— Ainda não cheguei no fundo.
— Mas tá perto.
Ele sentou do outro lado do sofá, não falou mais nada, só ficou lá. Preparei a carreira, e cheirei. A frieza no peito virou nada, o gelo derreteu por uns segundos, mas passou rápido.
Encostei a cabeça no sofá.
Luly.
Luly chorando, braço dela preso, mão daquele filho da p**a.
— Pantera.
— Fala.
— Descobre tudo sobre ele, trabalho, a família, os amigos, rotina, tudo.
— E depois?
Fechei os olhos.
— Depois a gente vê.
Ele não respondeu, só ouvi ele mexendo no celular. Fiquei ali, no escuro do barraco, sentindo o efeito passar, a frieza voltar. Domingo à noite chegando, amanhã era segunda, e segunda começa a caça.
O efeito do pó passou rápido. Mas enquanto durou, a mente clareou, não no sentido de alegria ou onda boa, nada disso. Clareou no sentido de enxergar melhor, as ideia se organizaram, o plano tomou forma. Quando abri os olhos, o Pantera ainda tava lá, mexendo no celular, anotando as parada que tava descobrindo.
— Consegui — ele falou sem levantar a vista. — Trabalha de entregador, sai todo dia umas sete da manhã, e volta pro almoço umas doze. Sai de novo umas duas, e volta de vez umas oito da noite.
— Mora sozinho?
— Mora, a mãe morreu ano passado, o pai sumiu quando ele era pivete.
— Irmão?
— Não.
— Amigo próximo?
— Joga bola no campo toda quarta à noite, bebe num bar ali perto final de semana.
Levantei do sofá, fui até a janela, o sol já tava se pondo, céu alaranjado por cima dos barraco.
— Pantera.
— Fala.
— Amanhã cedo eu vou lá.
Ele levantou a cabeça rápido.
— Fazer o quê?
— Dar um aviso.
— Que tipo de aviso?
Olhei pra ele por cima do ombro.
— O tipo que ele vai entender.
— Augusto…
— Relaxa, não vou matar ele, não hoje.
Ele ficou me olhando, tentando ler se era verdade.
— Cê promete?
— Prometo.
Mentira.
Mas ele não precisava saber, a noite passou lenta. Não dormi direito, fiquei virado na cama, imaginando a cena, a cara dele. Quando o dia clareou, eu já tava de pé.
Tomei banho, coloquei roupa preta, nada pra chamar atenção, tênis velho, é um boné.
Desci o morro antes das sete.
O movimento na rua já tinha começado. Gente indo trabalhar, ônibus lotado, barraca de café na esquina, a vida seguindo. Parei no mesmo lugar de sempre, na esquina perto da casa amarela.
Esperei.
Uns vinte minutos depois, a porta abriu.
Juninho saiu.
Capacete na mão, camiseta preta da Oakley, e bermuda jeans, chinelo no pé. Ele foi até a moto, colocou o capacete. Eu esperei ele arrancar.
Aí eu vim.
Caminhei devagar até a casa, olhei pra um lado, pro outro, a rua vazia, ninguém olhando. O portão azul tava fechado, mas não tinha cadeado, só uma tramela.
Empurrei e entrei.
Bati na porta.
Ninguém respondeu, ele tava saindo agora. Mas não precisava dele pra deixar o recado.
Olhei pro lado, o vaso de planta murcha, levantei o vaso, e botei embaixo do braço. Aí tirei do bolso um papel, tava escrito com letra de forma, bem feio de propósito:
— MEXEU COM QUEM NÃO DEVIA, a PRÓXIMA NÃO É AVISO.
Dobrei, e botei embaixo do vaso. Virei as costas e vazei, subi o morro sem pressa de novo. Quando cheguei no barraco, o celular vibrou.
— Cê foi? — Pantera perguntou.
— Fui.
— Fez o quê?
— Deixei um presente.
— Que presente?
— Um aviso.
— Ele tava?
— Não, melhor assim, ele chega e encontra.
— E se ele não entender?
Olhei pro celular, sorri sozinho.
— Ele vai entender, se não entender, a gente explica de outro jeito.
Guardei o celular. Fui pra laje, acendi um cigarro, olhei o dia clareando de vez. Luly devia ter acordado agora, a Mayte também. Pensei em mandar mensagem, perguntar como ela tava.
Mas desisti.
Hora não era essa, agora era tempo de esperar, ver se o recado funcionava.