Tensão

1548 Words
Magrão narrando Desliguei o telefone com o Pantera e fiquei parado na porta da padaria nem vendo o movimento. Juninho. O nome do arrombado era Juninho. Mora perto do campo, casa amarela portão azul, já batia nela. Puta que pariu. Guardei o celular, peguei o saco de pão e o leite e comecei a subir pro barraco da Mayte, mas a cabeça tava longe, tava pensando no Augusto, tava pensando no que ele ia fazer quando soubesse. E tava pensando na Luly. Coitada. Passar por isso calada, aguentando porrada, medo, vergonha, e a gente ali do lado sem saber de nada. Botei o celular no bolso e acelerei o passo. Quando cheguei na porta da Mayte, bati dois dedos. — Ó, a polícia! Ela abriu com um sorriso que quase me derrubou. Cabelo preso de qualquer jeito, bermuda de moletom, camiseta velha. Linda pra c*****o. — Cê é i****a — ela falou, mas tava rindo. — i****a e com pão, pode uma coisa melhor? Ela pegou o saco, cheirou. — Hum, quentinho. Entra. Entrei e já vi a Luly sentada na mesa da cozinha, xícara na mão, cara de quem não dormiu bem. — Fala, Luly. Tudo bem? Ela tentou sorrir. — Mais ou menos. Sentei na cadeira do lado da Mayte, botei o leite na mesa. — Cê quer que faça um café? — perguntei. — Já tem — Mayte respondeu, servindo. — Fica tranquilo. Fiquei quieto um tempo, só observando as duas. A Mayte mexendo no fogão. A Luly olhando pro nada. — Luly — chamei. Ela levantou os olhos. — Fala. — O Pantera acabou de descobrir o nome do teu ex. Ela endureceu na hora. — Que nome? — Juninho, mora perto do campo. Ela baixou a cabeça. — É ele. A Mayte parou de mexer o café e virou. — O Pantera descobriu como? — Perguntou pros menor no beco, alguém conhecia. Luly ficou em silêncio, os dedos apertando a xícara. — Luly — falei manso. — A gente precisa saber, ele já tinha batido em tu antes? Ela demorou pra responder. Mas respondeu. — Sim. A Mayte fechou a cara, eu senti o sangue ferver. — Quantas vezes? — Umas… umas três. Que eu lembro. Mas ele sempre pedia desculpa depois, falava que não ia acontecer de novo, dizia que me amava. — Filho da p**a — a Mayte falou baixo. — Eu sei, eu sei que fui i****a. — Cê não foi i****a — eu falei. — Cê foi vítima, tem diferença. Ela me olhou, os olhos cheios d'água. — Eu tava com vergonha, achava que iam falar que era culpa minha, que eu provocava, que eu escolhi ele. — Quem falar isso é outro filho da p**a — Mayte falou, sentando do lado dela. — E vai ter que falar na minha frente. Luly segurou a mão dela. — Obrigada. Fiquei ali, vendo as duas. Aí lembrei. O Augusto. Puxei o celheiro e olhei a tela. Nenhuma mensagem dele ainda, mas eu sabia que quando ele soubesse, ia querer agir. — Luly — chamei de novo. — O Augusto tá muito puto, ele quer saber quem é. Ele quer… — Ele quer matar ele — ela completou, sem surpresa. Fiquei quieto. — Não é? — É. Ela suspirou fundo. — Eu sei. Eu conheço o Augusto desde sempre. Sei como ele pensa. — E cê quer isso? Ela pensou. — Não quero ninguém morrendo por minha causa. — Não é por sua causa — a Mayte falou. — É por causa do que ele fez. — Mesma coisa. Silêncio. — Mas — Luly continuou — também não quero ele solto por aí. Achando que pode fazer de novo. Comigo ou com outra. Olhei pra ela. — Então o que cê quer? Ela levantou os olhos. Dessa vez tinham uma faísca diferente. — Quero que ele tenha medo. Quero que ele saiba que não pode mexer comigo. Quero que ele olhe por cima do ombro o resto da vida. A Mayte sorriu. — Ai sim. Eu assenti. — Então a gente vai fazer isso. Peguei o celular de novo. — Mas antes, vou falar com o Augusto. Ele merece saber. Luly assentiu. — Fala. Mas pede pra ele não fazer loucura. Ri seco. — Pedir posso pedir. Obedecer é outros quinhentos. Mandei mensagem pro Augusto. — O nome é Juninho, mora perto do campo, casa amarela portão azul, já batia nela. Luly quer ele vivo, mas com medo. Ele respondeu na hora. — Tô indo ali dar uma volta, só conhecer o local, prometo que não faço nada hoje. Olhei pra tela. Promessa de Augusto valia alguma coisa, mas até quando? Guardei o celular. — Ele disse que vai só conhecer o local, hoje não faz nada. Mayte me olhou. — Cê acredita? — Quero acreditar. — Eu também quero, mas tô com medo. Puxei ela pela mão. — A gente controla, pode crer? Ela segurou minha mão de volta. — Pode. Luly olhou pra gente e sorriu fraco. — Cês são muito fofos, sabia? — Fofos nada — Mayte revirou os olhos. — Ele é insuportável. — E você é apaixonada — Luly provocou. — Tô nada. — Tá sim. Olhei pra Mayte. Ela desviou o olhar, mas a bochecha corou. Ri baixinho. — Tá sim. — Cala boca, Magrão. — Tá, amor. — Não sou seu amor. — Ainda. Ela me empurrou, mas tava rindo. Luly riu também. Pela primeira vez no dia, o riso dela pareceu verdadeiro. Ficamos ali, os três, tomando café, comendo pão, deixando o domingo passar. Mas no fundo todo mundo sabia. A calmaria não ia durar muito. Desliguei o telefone com o Pantera e fiquei paradão no meio da rua. Ele e o Augusto foram lá. Viram o cara. O tal do Juninho. Moreno, baixo, bombadinho, corrente no pescoço, moto na porta, casa amarela portão azul. Augusto calmo demais. Merda. Guardei o celular e voltei pra dentro do barraco da Mayte, ela e a Luly tavam na mesa ainda, terminando o café, quando entrei, as duas olharam pra minha cara e já sabiam que tinha coisa. — O que foi? — Mayte perguntou. Sentei pesado na cadeira. — O Pantera e o Augusto foram lá, viram o cara. Luly endureceu. — E aí? — Aí o Augusto tá calmo, calmo demais, segundo o Pantera. Mayte trocou olhar com a Luly. — Calmo tipo planejando ou calmo tipo desistiu? — Cê conhece seu pai, ele desiste de alguma coisa? Ela baixou a cabeça. — Não. — Pois é. Luly apertou a xícara com força. — Eu não quero sangue, Magrão. — Eu sei. — Mas também não quero ele solto. — Eu sei também. Ficamos os três em silêncio. O relógio na parede fazia tique-taque. Barulho de moto passando lá fora. Criança gritando. Domingo normal. Nada normal. — Magrão. — Mayte chamou. — Fala. — O que cê acha que ele vai fazer? Olhei pra ela. Ela merecia verdade. — Acho que ele vai esperar o momento certo. Vai estudar o cara. Descobrir rotina, horário, se mora sozinho. Depois… — Depois? — Depois ele vai agir. — Matar? — Ou fazer ele querer morrer. Luly fechou os olhos. Mayte passou a mão no ombro dela. — A gente não deixa — ela falou. — Como? — perguntei. — Como a gente impede o Augusto de fazer o que ele acha que tem que fazer? Ela não respondeu, porque não tinha resposta. Peguei o celular de novo, mandei pro Pantera. — Fica em cima, qualquer movimento me avisa. — Pode deixar, to na porta do barraco dele. — Ele sabe que cê tá aí? — Sabe, não ligou. — Estranho. Pois é. Guardei o celular. — O Pantera tá na porta do barraco dele, vigiando. — Ele vai ficar lá? — Mayte perguntou. — Vai, pelo menos por enquanto. Luly levantou, foi até a janela, ficou olhando a rua. — Sabe o que é pior? — ela falou sem virar. — O quê? — Mayte respondeu. — Eu ainda sinto medo, medo dele, mesmo sabendo que tem gente querendo me proteger, mesmo sabendo que ele pode se f***r. O medo não passa. Levantei e fui até ela. — Luly, olha pra mim. Ela virou devagar. — Esse medo vai passar? — ela perguntou. — Vai, com tempo, ajuda, e com a gente do lado. — E até lá? — Até lá a gente fica junto. Pode crer? Ela tentou sorrir. — Pode. Mayte levantou também, abraçou as duas, ficamos os três ali, na janela, vendo o domingo passar. O celular vibrou de novo. — Ele saiu do barraco. — Foi pra onde? — Descendo o morro, acho que vai lá de novo. — Segue não, deixa ele, se ele quiser fazer algo hoje, vai fazer sozinho de qualquer jeito. — Tô preocupado. — Eu também, mas a gente confia? — Confiar no Augusto? — É. — Difícil. — Pois é. Guardei o celular. Olhei pra rua lá fora, em algum lugar ali, o Augusto tava descendo o morro, indo de novo na casa amarela portão azul, olhar de novo pro cara que machucou a mina que ele gosta. E eu aqui, sem poder fazer nada. Só esperar. Esperar e torcer pro dia não acabar em merda.
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