Magrão narrando
Desliguei o telefone com o Pantera e fiquei parado na porta da padaria nem vendo o movimento.
Juninho.
O nome do arrombado era Juninho. Mora perto do campo, casa amarela portão azul, já batia nela.
Puta que pariu.
Guardei o celular, peguei o saco de pão e o leite e comecei a subir pro barraco da Mayte, mas a cabeça tava longe, tava pensando no Augusto, tava pensando no que ele ia fazer quando soubesse.
E tava pensando na Luly.
Coitada.
Passar por isso calada, aguentando porrada, medo, vergonha, e a gente ali do lado sem saber de nada. Botei o celular no bolso e acelerei o passo.
Quando cheguei na porta da Mayte, bati dois dedos.
— Ó, a polícia!
Ela abriu com um sorriso que quase me derrubou. Cabelo preso de qualquer jeito, bermuda de moletom, camiseta velha.
Linda pra c*****o.
— Cê é i****a — ela falou, mas tava rindo.
— i****a e com pão, pode uma coisa melhor?
Ela pegou o saco, cheirou.
— Hum, quentinho. Entra.
Entrei e já vi a Luly sentada na mesa da cozinha, xícara na mão, cara de quem não dormiu bem.
— Fala, Luly. Tudo bem?
Ela tentou sorrir.
— Mais ou menos.
Sentei na cadeira do lado da Mayte, botei o leite na mesa.
— Cê quer que faça um café? — perguntei.
— Já tem — Mayte respondeu, servindo. — Fica tranquilo.
Fiquei quieto um tempo, só observando as duas. A Mayte mexendo no fogão. A Luly olhando pro nada.
— Luly — chamei.
Ela levantou os olhos.
— Fala.
— O Pantera acabou de descobrir o nome do teu ex.
Ela endureceu na hora.
— Que nome?
— Juninho, mora perto do campo.
Ela baixou a cabeça.
— É ele.
A Mayte parou de mexer o café e virou.
— O Pantera descobriu como?
— Perguntou pros menor no beco, alguém conhecia.
Luly ficou em silêncio, os dedos apertando a xícara.
— Luly — falei manso. — A gente precisa saber, ele já tinha batido em tu antes?
Ela demorou pra responder.
Mas respondeu.
— Sim.
A Mayte fechou a cara, eu senti o sangue ferver.
— Quantas vezes?
— Umas… umas três. Que eu lembro. Mas ele sempre pedia desculpa depois, falava que não ia acontecer de novo, dizia que me amava.
— Filho da p**a — a Mayte falou baixo.
— Eu sei, eu sei que fui i****a.
— Cê não foi i****a — eu falei. — Cê foi vítima, tem diferença.
Ela me olhou, os olhos cheios d'água.
— Eu tava com vergonha, achava que iam falar que era culpa minha, que eu provocava, que eu escolhi ele.
— Quem falar isso é outro filho da p**a — Mayte falou, sentando do lado dela. — E vai ter que falar na minha frente.
Luly segurou a mão dela.
— Obrigada.
Fiquei ali, vendo as duas.
Aí lembrei.
O Augusto.
Puxei o celheiro e olhei a tela. Nenhuma mensagem dele ainda, mas eu sabia que quando ele soubesse, ia querer agir.
— Luly — chamei de novo. — O Augusto tá muito puto, ele quer saber quem é. Ele quer…
— Ele quer matar ele — ela completou, sem surpresa.
Fiquei quieto.
— Não é?
— É.
Ela suspirou fundo.
— Eu sei. Eu conheço o Augusto desde sempre. Sei como ele pensa.
— E cê quer isso?
Ela pensou.
— Não quero ninguém morrendo por minha causa.
— Não é por sua causa — a Mayte falou. — É por causa do que ele fez.
— Mesma coisa.
Silêncio.
— Mas — Luly continuou — também não quero ele solto por aí. Achando que pode fazer de novo. Comigo ou com outra.
Olhei pra ela.
— Então o que cê quer?
Ela levantou os olhos. Dessa vez tinham uma faísca diferente.
— Quero que ele tenha medo. Quero que ele saiba que não pode mexer comigo. Quero que ele olhe por cima do ombro o resto da vida.
A Mayte sorriu.
— Ai sim.
Eu assenti.
— Então a gente vai fazer isso.
Peguei o celular de novo.
— Mas antes, vou falar com o Augusto. Ele merece saber.
Luly assentiu.
— Fala. Mas pede pra ele não fazer loucura.
Ri seco.
— Pedir posso pedir. Obedecer é outros quinhentos.
Mandei mensagem pro Augusto.
— O nome é Juninho, mora perto do campo, casa amarela portão azul, já batia nela. Luly quer ele vivo, mas com medo.
Ele respondeu na hora.
— Tô indo ali dar uma volta, só conhecer o local, prometo que não faço nada hoje.
Olhei pra tela.
Promessa de Augusto valia alguma coisa, mas até quando? Guardei o celular.
— Ele disse que vai só conhecer o local, hoje não faz nada.
Mayte me olhou.
— Cê acredita?
— Quero acreditar.
— Eu também quero, mas tô com medo.
Puxei ela pela mão.
— A gente controla, pode crer?
Ela segurou minha mão de volta.
— Pode.
Luly olhou pra gente e sorriu fraco.
— Cês são muito fofos, sabia?
— Fofos nada — Mayte revirou os olhos. — Ele é insuportável.
— E você é apaixonada — Luly provocou.
— Tô nada.
— Tá sim.
Olhei pra Mayte. Ela desviou o olhar, mas a bochecha corou.
Ri baixinho.
— Tá sim.
— Cala boca, Magrão.
— Tá, amor.
— Não sou seu amor.
— Ainda.
Ela me empurrou, mas tava rindo. Luly riu também. Pela primeira vez no dia, o riso dela pareceu verdadeiro. Ficamos ali, os três, tomando café, comendo pão, deixando o domingo passar. Mas no fundo todo mundo sabia.
A calmaria não ia durar muito.
Desliguei o telefone com o Pantera e fiquei paradão no meio da rua.
Ele e o Augusto foram lá.
Viram o cara.
O tal do Juninho.
Moreno, baixo, bombadinho, corrente no pescoço, moto na porta, casa amarela portão azul.
Augusto calmo demais.
Merda.
Guardei o celular e voltei pra dentro do barraco da Mayte, ela e a Luly tavam na mesa ainda, terminando o café, quando entrei, as duas olharam pra minha cara e já sabiam que tinha coisa.
— O que foi? — Mayte perguntou.
Sentei pesado na cadeira.
— O Pantera e o Augusto foram lá, viram o cara.
Luly endureceu.
— E aí?
— Aí o Augusto tá calmo, calmo demais, segundo o Pantera.
Mayte trocou olhar com a Luly.
— Calmo tipo planejando ou calmo tipo desistiu?
— Cê conhece seu pai, ele desiste de alguma coisa?
Ela baixou a cabeça.
— Não.
— Pois é.
Luly apertou a xícara com força.
— Eu não quero sangue, Magrão.
— Eu sei.
— Mas também não quero ele solto.
— Eu sei também.
Ficamos os três em silêncio. O relógio na parede fazia tique-taque. Barulho de moto passando lá fora. Criança gritando. Domingo normal.
Nada normal.
— Magrão. — Mayte chamou.
— Fala.
— O que cê acha que ele vai fazer?
Olhei pra ela.
Ela merecia verdade.
— Acho que ele vai esperar o momento certo. Vai estudar o cara. Descobrir rotina, horário, se mora sozinho. Depois…
— Depois?
— Depois ele vai agir.
— Matar?
— Ou fazer ele querer morrer.
Luly fechou os olhos. Mayte passou a mão no ombro dela.
— A gente não deixa — ela falou.
— Como? — perguntei. — Como a gente impede o Augusto de fazer o que ele acha que tem que fazer?
Ela não respondeu, porque não tinha resposta. Peguei o celular de novo, mandei pro Pantera.
— Fica em cima, qualquer movimento me avisa.
— Pode deixar, to na porta do barraco dele.
— Ele sabe que cê tá aí?
— Sabe, não ligou.
— Estranho.
Pois é.
Guardei o celular.
— O Pantera tá na porta do barraco dele, vigiando.
— Ele vai ficar lá? — Mayte perguntou.
— Vai, pelo menos por enquanto.
Luly levantou, foi até a janela, ficou olhando a rua.
— Sabe o que é pior? — ela falou sem virar.
— O quê? — Mayte respondeu.
— Eu ainda sinto medo, medo dele, mesmo sabendo que tem gente querendo me proteger, mesmo sabendo que ele pode se f***r. O medo não passa.
Levantei e fui até ela.
— Luly, olha pra mim.
Ela virou devagar.
— Esse medo vai passar? — ela perguntou.
— Vai, com tempo, ajuda, e com a gente do lado.
— E até lá?
— Até lá a gente fica junto. Pode crer?
Ela tentou sorrir.
— Pode.
Mayte levantou também, abraçou as duas, ficamos os três ali, na janela, vendo o domingo passar. O celular vibrou de novo.
— Ele saiu do barraco.
— Foi pra onde?
— Descendo o morro, acho que vai lá de novo.
— Segue não, deixa ele, se ele quiser fazer algo hoje, vai fazer sozinho de qualquer jeito.
— Tô preocupado.
— Eu também, mas a gente confia?
— Confiar no Augusto?
— É.
— Difícil.
— Pois é.
Guardei o celular.
Olhei pra rua lá fora, em algum lugar ali, o Augusto tava descendo o morro, indo de novo na casa amarela portão azul, olhar de novo pro cara que machucou a mina que ele gosta. E eu aqui, sem poder fazer nada.
Só esperar.
Esperar e torcer pro dia não acabar em merda.