Mayte narrando
Acordei com o celular vibrando em cima da cama.
06:42.
Puta merda.
Quem que manda mensagem seis e quarenta da manhã num domingo?
Era o Magrão.
— Bom dia princesa! Dormiu bem? A Luly tá melhor?
Revirei os olhos mas sorri igual b***a, esse homem não me larga mesmo, olhei pro lado, a Luly tava dormindo no colchão, enrolada no cobertor, o cabelo espalhado no travesseiro, parecia uma criança, a respiração calma, e o rosto relaxado, dormiu finalmente.
Respondi.
— Bom dia! Acordei agora, ela ainda tá dormindo, acho que passou m*l o sono
Ele respondeu na hora.
— Ainda bem, tô preocupado com vocês duas, ce quer que levo café?
Ri baixinho.
— Magrão são seis da manhã! Vai dormir, depois a gente se fala
— Tá, mas tô aqui se precisar, qualquer coisa, é qualquer hora.
Guardei o celular no silêncio.
Fiquei olhando pro teto do quarto, ouvindo o barulho da rua lá fora. Domingo de manhã na favela tem um som diferente. Menos movimento, mais passarinho, mais criança brincando cedo. Uma paz estranha.
Aí o celular vibrou de novo.
Pensei que era Magrão de novo, mas não. Era meu pai.
— Mayte? Acordada?
Franzi a testa.
— Acordei! Que foi?
Augusto: Luly acordou já? Mandei mensagem pra ela de madrugada e ela não respondeu
Olhei pro lado. Luly dormindo ainda.
— Tá dormindo, dormiu lá pras 4 acho. Ela viu tua mensagem?
— Entregou, mas não respondeu
Fiquei olhando pra tela.
Conhecia aquele jeito seco de digitar do Augusto. Conhecia desde sempre, quando ele tava assim, era porque a cabeça tava fervendo.
— Ela tá bem! Dormiu aqui comigo, ficamos vendo filme até tarde, comendo porcaria.
— Boa! Obrigado por cuidar dela ontem.
— Ela é minha amiga, nem precisava agradecer.
— Sei! Mas tô agradecendo mesmo assim.
Silêncio.
Depois:
— Ela falou alguma coisa? Sobre o cara?
Respirei fundo.
Luly tinha falado, sim. No meio da madrugada, enquanto a gente comia pizza fria e assistia comédia romântica b***a, ela contou tudo, falou o nome, tempo que ficaram, as brigas, o ciúme doentio, e o medo.
— Falou! Mas acho que é melhor ela mesma te contar. Se ela quiser.
— Tô precisando do nome, Mayte. Só o nome
Olhei pro celular.
Conhecia aquele tom também, meu pai não tava pedindo informação, ele tava querendo localizar alguém. E quando ele quer localizar alguém, não é pra conversar.
— Por quê?
— Cê sabe por quê.
— Augusto. Calma, deixa ela processar primeiro.
Ele demorou pra responder.
— Tô calmo, só quero saber quem é, meu direito saber que filho da p**a fez minha... fez a Luly chorar.
Vi a hesitação na frase, ele ia escrever outra coisa e apagou.
Percebi.
— Tua o quê, Augusto?
Dessa vez demorou mais ainda.
— Nada não! Esquece, depois a gente fala. Cuida dela por mim.
E saiu.
Fiquei segurando o celular, olhando pras mensagens.
Augusto.
Luly.
Olhei pro lado.
Ela dormia ainda, tranquila, ela faz ideia do que meu pai sente por ela?
Provavelmente não.
Mas eu comeceva a desconfiar que era mais do que amizade. Botei o celular no criado-mudo e virei pro lado tentando dormir mais um pouco. Mas antes de fechar os olho, olhei ela de novo.
Luly.
Augusto.
Magrão e eu.
Que novela do c*****o essa vida, e o pior: tava longe de acabar.
Consegui dormir mais umas duas horas. Quando acordei de novo, o sol já tava alto entrando pela fresta da cortina. Aquele calor gostoso de domingo que parece que o mundo desacelerou.
Luly não tava mais na cama.
Sentei rápido, coração disparado.
— Luly?
— Tô aqui.
A voz veio da cozinha. Alívio imediato.
Levantei e fui até lá. Ela tava na pia, fazendo café, de calcinha e minha camiseta velha do Dead Fish, cabelo todo bagunçado, olheira profunda.
Mas tava de pé, fazendo café.
Já era alguma coisa.
— Achava que você ia dormir até mais tarde — falei, sentando na cadeira de plástico.
Ela deu de ombros, sem virar.
— Não consegui, acordei umas vezes, e resolvi levantar.
Silêncio.
O barulho da cafeteira enchendo.
— Luly.
Ela virou devagar.
— Fala.
— Cê tá bem?
Ela riu sem graça, apoiou as duas mãos na pia e baixou a cabeça.
— Não sei, Mayte, acho que sim? Não sei.
Levantei e fui até ela. Passei a mão no ombro.
— Ontem foi pesado.
— Foi. — Ela levantou a cabeça, olhos marejando. — Mas não foi a primeira vez.
Meu sangue gelou.
— Como assim?
Ela se virou, encostou no balcão, cruzou os braços. O gesto de quem se fecha.
— Ele já tinha feito isso antes, não exatamente assim, no meio do baile, mas… segurar meu braço, não deixar eu sair, me trancar no quarto uma vez.
— Luly…
— Eu nunca contei pra ninguém, vergonha, sabe? Medo de julgarem, e de falarem por que você não largou antes?
Puxei ela pra um abraço.
— Ninguém vai te julgar aqui.
Ela ficou quieta no meu ombro por um tempo. Senti o corpo dela relaxando aos poucos.
— Obrigada por ontem, Mayte. Se não fosse você…
— Se não fosse eu, os vapor iam chegar do mesmo jeito.
— Não iam. Você que gritou, você que foi pra cima, que fez barulho, se não fosse você, ele ia continuar me segurando até cansar.
Apertei ela mais forte.
— Acabou, tá segura.
Ela fungou no meu ombro.
— Eu sei. Mas… e amanhã?
Pausei.
Essa era a questão, né. A gente tirou ele do baile, mas e amanhã? Depois de amanhã? Quando ela sair de casa? Quando ele achar ela sozinha?
— A gente resolve — falei, sem saber bem como. — Mas uma coisa de cada vez. Agora, café, e depois, a gente pensa.
Ela riu fraco.
— Tá parecendo psicóloga.
— Tô parecendo tua amiga.
Ela se soltou, secou os olhos com as costas da mão.
— O Magrão mandou mensagem?
Ri.
— Seis da manhã, querendo trazer café.
— Fofo.
— Insuportável.
— Fofo insuportável.
— Isso.
Ela serviu o café, sentou na minha frente.
— E seu pai?
— Também mandou.
— Preocupado?
— Muito.
Ela mexeu o café devagar.
— Ele é bonito, né.
— Quem?
— Augusto.
Olhei pra ela.
— Luly.
— O quê?
— Nada, continua.
Ela revirou os olhos.
— Tô falando sério. Ele é bonito. Estiloso. Sempre de óculos escuro. Misterioso.
— Luly.
— O quê?
— Ele tava preocupado com você.
Ela parou de mexer o café.
— Como assim?
— Mandou mensagem de madrugada, umas três, quatro da manhã, e de novo hoje cedo. Querendo saber se você tava bem.
Ela ficou quieta.
— Ah.
— Só ah?
— O que você quer que eu fale?
— Sei lá. Que você percebeu que ele se importa, que talvez ele se importe mais do que você imagina.
Ela levantou a xícara, bebeu um gole devagar.
— Ele sempre foi assim.
— Com todo mundo?
Ela pensou.
— Não! Comigo sim.
Fiquei quieta, deixando ela processar. O celular vibrou.
Magrão de novo.
— Já acordou? Tô indo na padaria, quer que levo alguma coisa?
Sorri.
— Pão e leite! E se comporta
— Sempre me comporto, chego daqui a pouco
Guardei o celular.
— Ele vem aí — falei.
Luly levantou uma sobrancelha.
— O Magrão? Aqui?
— Trazer pão.
Ela riu, dessa vez mais leve.
— Ele tá apaixonado, sabia?
— Tá nada.
— Tá sim, nunca vi homem acordar seis da manhã de domingo pra levar pão se não tiver apaixonado.
Abri a boca pra negar, mas fechei, porque ela tinha razão, e pior: eu tava gostando.
— Vou trocar de roupa — Luly levantou. — Não vou receber visita de calcinha e camiseta suja.
— Fica à vontade, a casa é sua.
Ela parou no quarto, virou.
— Mayte.
— Fala.
— Obrigada, de verdade.
Sorri.
— Pode crer.
Ela entrou no quarto e eu fiquei ali, tomando café, esperando o Magrão chegar, domingo tava começando. E pelo jeito, ia ser interessante.