Mensagem do Magrão

1344 Words
Mayte narrando Acordei com o celular vibrando em cima da cama. 06:42. Puta merda. Quem que manda mensagem seis e quarenta da manhã num domingo? Era o Magrão. — Bom dia princesa! Dormiu bem? A Luly tá melhor? Revirei os olhos mas sorri igual b***a, esse homem não me larga mesmo, olhei pro lado, a Luly tava dormindo no colchão, enrolada no cobertor, o cabelo espalhado no travesseiro, parecia uma criança, a respiração calma, e o rosto relaxado, dormiu finalmente. Respondi. — Bom dia! Acordei agora, ela ainda tá dormindo, acho que passou m*l o sono Ele respondeu na hora. — Ainda bem, tô preocupado com vocês duas, ce quer que levo café? Ri baixinho. — Magrão são seis da manhã! Vai dormir, depois a gente se fala — Tá, mas tô aqui se precisar, qualquer coisa, é qualquer hora. Guardei o celular no silêncio. Fiquei olhando pro teto do quarto, ouvindo o barulho da rua lá fora. Domingo de manhã na favela tem um som diferente. Menos movimento, mais passarinho, mais criança brincando cedo. Uma paz estranha. Aí o celular vibrou de novo. Pensei que era Magrão de novo, mas não. Era meu pai. — Mayte? Acordada? Franzi a testa. — Acordei! Que foi? Augusto: Luly acordou já? Mandei mensagem pra ela de madrugada e ela não respondeu Olhei pro lado. Luly dormindo ainda. — Tá dormindo, dormiu lá pras 4 acho. Ela viu tua mensagem? — Entregou, mas não respondeu Fiquei olhando pra tela. Conhecia aquele jeito seco de digitar do Augusto. Conhecia desde sempre, quando ele tava assim, era porque a cabeça tava fervendo. — Ela tá bem! Dormiu aqui comigo, ficamos vendo filme até tarde, comendo porcaria. — Boa! Obrigado por cuidar dela ontem. — Ela é minha amiga, nem precisava agradecer. — Sei! Mas tô agradecendo mesmo assim. Silêncio. Depois: — Ela falou alguma coisa? Sobre o cara? Respirei fundo. Luly tinha falado, sim. No meio da madrugada, enquanto a gente comia pizza fria e assistia comédia romântica b***a, ela contou tudo, falou o nome, tempo que ficaram, as brigas, o ciúme doentio, e o medo. — Falou! Mas acho que é melhor ela mesma te contar. Se ela quiser. — Tô precisando do nome, Mayte. Só o nome Olhei pro celular. Conhecia aquele tom também, meu pai não tava pedindo informação, ele tava querendo localizar alguém. E quando ele quer localizar alguém, não é pra conversar. — Por quê? — Cê sabe por quê. — Augusto. Calma, deixa ela processar primeiro. Ele demorou pra responder. — Tô calmo, só quero saber quem é, meu direito saber que filho da p**a fez minha... fez a Luly chorar. Vi a hesitação na frase, ele ia escrever outra coisa e apagou. Percebi. — Tua o quê, Augusto? Dessa vez demorou mais ainda. — Nada não! Esquece, depois a gente fala. Cuida dela por mim. E saiu. Fiquei segurando o celular, olhando pras mensagens. Augusto. Luly. Olhei pro lado. Ela dormia ainda, tranquila, ela faz ideia do que meu pai sente por ela? Provavelmente não. Mas eu comeceva a desconfiar que era mais do que amizade. Botei o celular no criado-mudo e virei pro lado tentando dormir mais um pouco. Mas antes de fechar os olho, olhei ela de novo. Luly. Augusto. Magrão e eu. Que novela do c*****o essa vida, e o pior: tava longe de acabar. Consegui dormir mais umas duas horas. Quando acordei de novo, o sol já tava alto entrando pela fresta da cortina. Aquele calor gostoso de domingo que parece que o mundo desacelerou. Luly não tava mais na cama. Sentei rápido, coração disparado. — Luly? — Tô aqui. A voz veio da cozinha. Alívio imediato. Levantei e fui até lá. Ela tava na pia, fazendo café, de calcinha e minha camiseta velha do Dead Fish, cabelo todo bagunçado, olheira profunda. Mas tava de pé, fazendo café. Já era alguma coisa. — Achava que você ia dormir até mais tarde — falei, sentando na cadeira de plástico. Ela deu de ombros, sem virar. — Não consegui, acordei umas vezes, e resolvi levantar. Silêncio. O barulho da cafeteira enchendo. — Luly. Ela virou devagar. — Fala. — Cê tá bem? Ela riu sem graça, apoiou as duas mãos na pia e baixou a cabeça. — Não sei, Mayte, acho que sim? Não sei. Levantei e fui até ela. Passei a mão no ombro. — Ontem foi pesado. — Foi. — Ela levantou a cabeça, olhos marejando. — Mas não foi a primeira vez. Meu sangue gelou. — Como assim? Ela se virou, encostou no balcão, cruzou os braços. O gesto de quem se fecha. — Ele já tinha feito isso antes, não exatamente assim, no meio do baile, mas… segurar meu braço, não deixar eu sair, me trancar no quarto uma vez. — Luly… — Eu nunca contei pra ninguém, vergonha, sabe? Medo de julgarem, e de falarem por que você não largou antes? Puxei ela pra um abraço. — Ninguém vai te julgar aqui. Ela ficou quieta no meu ombro por um tempo. Senti o corpo dela relaxando aos poucos. — Obrigada por ontem, Mayte. Se não fosse você… — Se não fosse eu, os vapor iam chegar do mesmo jeito. — Não iam. Você que gritou, você que foi pra cima, que fez barulho, se não fosse você, ele ia continuar me segurando até cansar. Apertei ela mais forte. — Acabou, tá segura. Ela fungou no meu ombro. — Eu sei. Mas… e amanhã? Pausei. Essa era a questão, né. A gente tirou ele do baile, mas e amanhã? Depois de amanhã? Quando ela sair de casa? Quando ele achar ela sozinha? — A gente resolve — falei, sem saber bem como. — Mas uma coisa de cada vez. Agora, café, e depois, a gente pensa. Ela riu fraco. — Tá parecendo psicóloga. — Tô parecendo tua amiga. Ela se soltou, secou os olhos com as costas da mão. — O Magrão mandou mensagem? Ri. — Seis da manhã, querendo trazer café. — Fofo. — Insuportável. — Fofo insuportável. — Isso. Ela serviu o café, sentou na minha frente. — E seu pai? — Também mandou. — Preocupado? — Muito. Ela mexeu o café devagar. — Ele é bonito, né. — Quem? — Augusto. Olhei pra ela. — Luly. — O quê? — Nada, continua. Ela revirou os olhos. — Tô falando sério. Ele é bonito. Estiloso. Sempre de óculos escuro. Misterioso. — Luly. — O quê? — Ele tava preocupado com você. Ela parou de mexer o café. — Como assim? — Mandou mensagem de madrugada, umas três, quatro da manhã, e de novo hoje cedo. Querendo saber se você tava bem. Ela ficou quieta. — Ah. — Só ah? — O que você quer que eu fale? — Sei lá. Que você percebeu que ele se importa, que talvez ele se importe mais do que você imagina. Ela levantou a xícara, bebeu um gole devagar. — Ele sempre foi assim. — Com todo mundo? Ela pensou. — Não! Comigo sim. Fiquei quieta, deixando ela processar. O celular vibrou. Magrão de novo. — Já acordou? Tô indo na padaria, quer que levo alguma coisa? Sorri. — Pão e leite! E se comporta — Sempre me comporto, chego daqui a pouco Guardei o celular. — Ele vem aí — falei. Luly levantou uma sobrancelha. — O Magrão? Aqui? — Trazer pão. Ela riu, dessa vez mais leve. — Ele tá apaixonado, sabia? — Tá nada. — Tá sim, nunca vi homem acordar seis da manhã de domingo pra levar pão se não tiver apaixonado. Abri a boca pra negar, mas fechei, porque ela tinha razão, e pior: eu tava gostando. — Vou trocar de roupa — Luly levantou. — Não vou receber visita de calcinha e camiseta suja. — Fica à vontade, a casa é sua. Ela parou no quarto, virou. — Mayte. — Fala. — Obrigada, de verdade. Sorri. — Pode crer. Ela entrou no quarto e eu fiquei ali, tomando café, esperando o Magrão chegar, domingo tava começando. E pelo jeito, ia ser interessante.
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