Augusto narrando
Saí do baile sem me despedir de ninguém. Magrão deve ter percebido, mas não falou nada, ele sabe como eu funciono. Quando a ficha cai, eu preciso de espaço, pra pensar, sentir o peso do bagulho no meu peito antes de tomar qualquer atitude.
E naquela noite, o peso tava insuportável.
Subi pro barraco devagar, as escada parecia que tinham dobrado de tamanho, cada degrau ecoava na minha cabeça igual tiro.
Luly.
A mina que mexe comigo desde que a mãe da Mayte morreu. A que faz meu coração acelerar torto toda vez que ela sorri, que eu nunca tive coragem de assumir. E algum filho da p**a achou que podia botar a mão nela.
Pior.
Segurar ela à força, no meio do baile, na frente de todo mundo. Abri a porta do barraco e entrei no escuro, não acendi luz, fui direto pro sofá, sentei pesado, encostei a cabeça pra trás e fiquei olhando pro teto que eu m*l conseguia ver.
O ódio tava quente no meu peito.
Não era aquela raiva passageira, era um bagulho mais fundo, daqueles que cresce com tu desde pivete e só espera um motivo pra vazar.
Luly.
Mexeram com ela, e eu não tava lá. Quando chegou a notícia, o bagulho já tinha acontecido. A Mayte já tinha ido pra cima, os vapor já tinham resolvido. Eu só cheguei pra ouvir o relato.
Bati a mão fechada no braço do sofá.
Porra.
A Mayte que teve que ir pra cima.
Minha filha.
Pensei nela na cena que o Magrão descreveu. A Mayte empurrando o cara, encarando ele, mandando ele se f***r, senti um orgulho fudido, juro. A minha filha tem sangue nos olhos, não corre de briga, não abaixa a cabeça, ela é igual a mãe. Que Deus a tenha, corajosa até demais. Mas também senti um medo… Medo não.
Preocupação.
Porque o mundo é cheio de filho da p**a. E quem mete a cara como ela meteu hoje, às vezes acorda com a conta pra pagar, não devia ser assim, mas é.
Ela sabe se defender.
Isso eu sei.
Cresceu na rua igual eu cresci, aprendeu cedo que ninguém vai proteger tu além de tu mesmo. Mas saber se defender não significa que ela tem que viver se defendendo.
Fechei os olhos no escuro.
Luly tava no barraco dela agora, a Mayte com ela, protegidas.
Por enquanto.
Mas e amanhã? E depois de amanhã?
O ex dela, que filho da p**a, sabe onde ela mora. Sabe onde ela anda, os horários, os lugares. Ficar esperando ele fazer alguma merda de novo não dava.
Levantei do sofá, fui até a janela, abri e acendi um cigarro, olhando a favela lá embaixo. As luzes acesas, o movimento, a vida que não para.
Baixei o olho pro celular.
Pensei em ligar pra Luly, ouvir a voz dela, e saber se tava bem, quem sabe até soltar o que tô engasgado faz tempo.
Mas desisti.
Hora não era essa, ela tava fragilizada, precisava de calma, não de confissão. Melhor deixar ela tranquila hoje, com a Mayte, comida, e segurança.
Amanhã eu ia ver ela, eu ia resolver. Até lá, ia ficar aqui, fumando, pensando, sentindo o ódio esfriar devagar pra virar gelo. Porque quando o ódio vira gelo, a gente age certo, e quando a gente age certo, ninguém escapa.
Fiquei ali na janela, o vento batendo, o cigarro queimando até a ponta.
Luly.
Só de pensar no nome dela, o peito apertava. Ela não era só amiga, não era só conhecida, ela era a mina que ocupava meus pensamentos, a que eu deixei escapar pro Magrão uma vez num momento de fraqueza, mas nunca tive coragem de falar pra ela.
E agora tavam mexendo com ela.
Joguei a ponta do cigarro lá embaixo e fechei a janela.
Dormir?
Fui pro quarto, deitei na cama, fiquei olhando pro teto igual i****a. Luly chorando, a mão daquele cara nela, A Mayte tendo que ir pra cima porque eu não tava lá. Essas imagens rodavam na minha cabeça sem parar, até que uma ideia começou a tomar forma.
Um plano, definitivo.
Aí sim, consegui fechar os olhos, o dia seguinte ia ser longo.
Deitei na cama mas nem tentei dormir direito,
Sabia que não ia rolar. Fiquei virado pro teto, os olho aberto, a mente rodando igual motor sem combustível. Cada vez que tentava esvaziar a cabeça, a imagem voltava: Luly chorando, o braço dela preso na mão de algum arrombado que eu nem conhecia.
Levantei, e peguei o celular.
03:47.
Ela devia tá dormindo, ou tentando. Depois do que aconteceu, duvido que o sono veio fácil.
Mandei mensagem mesmo assim.
— Luly. Tudo bem? Sei que é tarde mas tô preocupado, qualquer coisa me liga.
Mandei.
Fiquei olhando a tela.
Os três tracinho.
Entregou.
Mas nada de resposta.
Ela leu.
Certeza.
E não respondeu.
Botei o celular no bolso da bermuda e subi pra laje. Lá de cima a vista era a mesma de sempre, a favela dormindo, uns cachorro latindo longe, o vento frio batendo. E eu ali, parado, sentindo o ódio crescendo igual fogo em dia de ventania.
Fiquei andando de um lado pro outro.
Quem é esse filho da p**a?
Que p***a de ex é esse que acha que pode segurar mulher à força? Que se acha no direito de botar a mão em alguém? Parei na beirada da laje, olhando pro nada.
Luly.
A mina mais doce que eu conheço, a que ri alto, que abraça forte, que faz questão de perguntar como tu tá mesmo quando ela mesma não tá bem. A que mexe comigo de um jeito que nem ela sabe.
E alguém machucou ela.
Peguei o celular de novo, ela ainda não tinha respondido.
04:12.
Passei a mão no rosto.
Respirei fundo.
Pensei em ligar, acordar ela, ouvir a voz, saber se tava bem de verdade.
Mas desisti.
Se ela não respondeu, tem motivo. Talvez tava dormindo, chorando, ou só não queria falar com ninguém, e eu ia respeitar isso.
Por enquanto.
Continuei na laje, acendi outro cigarro, depois outro e outro. O dia foi clareando devagar, e eu ali, plantado, vendo o sol nascer por cima dos barraco. Quando deu 06:17, olhei o celular de novo.
Nada.
Aí mandei outra.
— Quando acordar me manda mensagem, preciso saber se tu tá bem, e preciso saber o nome dele.
Guardei o celular, agora era esperar. Mas esperar não ia durar muito. Porque assim que eu soubesse quem era o arrombado, ele ia descobrir o que acontece quando mexe com alguém que me importa.