Magrão narrando
Depois que o Mayte levou a Luly embora, eu fiquei plantado na porta do baile uns minutos processando o que tinha acontecido.
A Mayte.
Puta que pariu.
A mina encarou o bagulho de frente, sem tremer, e sem pensar duas vezes. Eu já achava ela f**a de longe, mas ver ela agindo assim, defendendo a amiga na cara do babaca… Fiquei parado ali sentindo um bagulho estranho no peito, não era só t***o, não. Era outro tipo de parada. Algo tipo… orgulho? Respeito? Não sei explicar direito. Só sei que quando entrei de novo no baile, a energia já tinha mudado, o som continuava alto, as pessoa continuavam dançando, mas eu tava com a cabeça em outro lugar.
Fui direto pro canto onde o Augusto tava com os cria.
Ele tava encostado na parede, copo na mão, óculos escuro mesmo dentro do baile porque ele é assim, estilo duvidão. Quando me viu chegando, já percebeu que tinha parada errada.
— Qual foi, Magrão? Cê tá com cara de quem viu merda.
Sentei do lado dele, peguei o copo de alguém e tomei um gole antes de falar.
— Bagulho tenso ali agora pouco.
Augusto tirou o óculos devagar, me encarando.
— Fala.
Contei tudo.
O ex da Luly segurando ela à força, a Mayte chegando junto, o cara querendo intimidar, e eu chegando, os vapor resolvendo. Contei sem floreio, do jeito que era. Quando terminei, o Augusto ficou em silêncio por uns segundos longos pra c*****o.
Aí ele levantou.
Devagar.
Secando o copo de uma vez.
— Onde ele tá? — a voz veio baixa.
Quando o Augusto fala assim, é porque o bagulho é sério.
— Uai, mandaram ele embora, deve ter ido pra casa.
— Descobre onde ele mora.
Olhei pra ele.
— Qual é, Augusto?
Ele virou a cabeça devagar e me encarou. A luz do baile batia nele, mas os olho tavam preto. Sabe quando tu olha pra alguém e não tem nada ali? Só gelo?
— A Luly é minha, Magrão.
Puta que pariu.
Eu sabia que eles eram próximos, mas não lembrava desse detalhe.
— Mano…
— Descobre onde esse filho da p**a se esconde. — Ele guardou o copo num apoio e ajeitou a camisa devagar, meticuloso. — Que eu vou dar um jeito nele.
Fiquei olhando pro Augusto e tentando processar. Não era ameaça vazia. O Augusto não faz ameaça vazia. Quando ele fala que vai dar um jeito, ele dá mesmo. E o jeito dele não envolve conversinha nem conselho.
— Cê vai fazer o quê?
Ele me olhou de novo.
— O que tiver que ser feito.
Respirei fundo.
— Mano, o bagulho já foi resolvido, os vapor expulsaram ele.
— Expulsaram ele do baile, Magrão. — Augusto se inclinou pra frente. — E amanhã? Depois? Ele vai ficar onde? Vai fazer o quê? Vai esperar ele achar a Luly sozinha em algum lugar?
Fiquei calado.
Porque ele tava certo.
— A Mayte meteu a cara hoje. — Augusto continuou, a voz ainda calma. — Minha filha foi mais homem do que qualquer um dos caras que tava ali e não fez p***a nenhuma, respeito ela. Mas não é função dela ficar protegendo Luly.
Ele endireitou o corpo.
— Então descobre onde esse merda mora, Magrão. Pode ser amanhã, pode ser depois, mas eu vou achar ele.
Pausei.
Pensei na Mayte, na Luly chorando, e no cara babaca segurando ela. E pensei no que eu faria se fosse com alguém meu.
— Vou ver o que consigo — falei finalmente.
Augusto assentiu.
Depois colocou o óculos de novo e virou pro baile como se nada tivesse acontecido, mas eu sabia, a ficha ia cair.
E quando caísse, alguém ia pagar.
Passei mais uns minutos ali com os cria, mas a cabeça tava longe, o Augusto ficou na dele, óculos escuro tampando o olho, mas eu conhecia ele, tava maquinando. E quando o Augusto maquina, é melhor se preparar. Eu só não queria que a Mayte se envolvesse mais do que já tinha se envolvido.
Ela já tinha feito a parte dela, tinha ido pra cima, protegido a amiga. Agora era hora de deixar os homem resolver. Falei pros caras que ia dar uma volta e já voltei. Na real, fui pro canto do baile onde o sinal do celular prestava.
Puxei o contato dela.
Mayte
O coração deu uma acelerada b***a, que p***a é essa, Magrão? Tu é homem.
Apertei a chamada.
Ela atendeu no segundo toque.
— Magrão?
A voz dela tava cansada, mas aliviada. Senti um peso saindo do peito.
— Fala, princesa. Chegaram bem?
— Chegamos, sim, tamo em casa já.
— A Luly?
Ela fez um pequeno silêncio, escutei vozinha baixo longe do telefone, depois ela voltou.
— Tá melhor, estamos pedindo comida, acho que o choque passou.
— Ainda bem.
Outro silêncio.
Desses que não são vazios, mas que falam.
— Mayte.
— Fala.
— Cê foi muito f**a hoje, sabia?
Ela riu baixinho do outro lado.
— Fiz o que qualquer pessoa faria.
— Não fez, não. Muita gente olhou e não fez p***a nenhuma, tu não. Tu foi pra cima, encarou o babaca, merece todo respeito do mundo.
Ela ficou quieta.
Aí falou, mais suave:
— Obrigada.
— De nada.
Outro silêncio. Dessa vez mais longo.
— Magrão.
— Fala.
— Tua voz chegando ali… quando você falou problema já começou… eu senti uma coisa.
Sorri sozinho no meio do baile, feito um i****a.
— Que tipo de coisa?
— Tipo… que eu não tava sozinha.
Puta que pariu.
Se ela tivesse na minha frente, juro que tinha beijado ela agora.
— Cê nunca vai tá sozinha comigo por perto — falei, e saiu mais sincero do que eu esperava.
Ela riu de novo.
Dessa vez mais leve.
— Tá parecendo até gente.
— Sou gente, gebte que gosta de tu, por sinal.
— Magrão…
— Fala.
— Obrigada por hoje, de verdade, e obrigada por ligar.
— Vou sempre ligar, pode crer?
— Pode.
— Então vai lá pedir comida com a Luly, depois te mando mensagem.
— Tá. Magrão?
— Fala.
— Cuidado com o cara lá. Eu vi o olhar dele antes de sair, sei como homem pensa.
Pausei.
Ela era esperta demais.
— Não precisa preocupar com isso.
— Magrão.
— Fala.
— Cuidado, só isso.
Respirei fundo.
— Prometo.
Desliguei.
Fiquei ali olhando pro telefone um tempo, o baile explodindo atrás de mim. Aí guardei o celular e voltei pros cria. O Augusto tava no mesmo lugar, quando passei perto, ele só virou a cabeça levemente.
— E aí?
— Tão bem, ela agradeceu.
Ele assentiu.
— Boa.
Fiquei do lado dele, os dois olhando o movimento.
— Augusto.
— Fala.
— Vamo com calma nesse bagulho, pelo menos deixa eu descobrir onde o cara mora primeiro.
Ele não respondeu, mas deu um sorriso pequeno. O tipo de sorriso que não era bom sinal.