Mayte

1125 Words
Mayte Narrando O baile tava simplesmente perfeito. Sério. Aqueles graves do funk batendo no peito, as luzes piscando, gente dançando, rindo, vivendo, era aquele tipo de noite que parece que o mundo dá uma pausa só pra você aproveitar. E no meio de tudo isso… ele. Magrão. A gente nem tava grudado, mas também nem precisava, as vezes ele tava encostado perto do bar, às vezes trocando ideia com os caras, e de vez em quando nossos olhares se cruzavam no meio da multidão. E quando cruzavam… Nossa. Parecia que o baile inteiro desaparecia. Ele levantava o queixo de leve, aquele sorrisinho torto de quem sabe exatamente o efeito que causa, eu só virava o copo na boca fingindo que tava tranquila, mas por dentro meu coração tava tipo: calma, Mayte… se controla. Luly tava dançando perto da gente mais cedo, rindo, rodando com as meninas, depois sumiu no meio do povo, mas isso era normal no baile. Até que. — EI! SOLTA ELA! O grito cortou a música. Primeiro eu achei que era só briga de bêbado, baile sempre tem dessas, mas aí veio outro grito, mais alto, e desesperado. E no meio da multidão começou aquele empurra-empurra. Alguém chorando. Meu estômago gelou, eu subi um pouco na ponta do pé tentando enxergar, foi quando eu vi. Luly. Chorando. O rosto todo molhado, tentando se soltar do braço de um cara que segurava ela com força demais, na hora eu nem pensei. Nem um segundo. — Que p***a é aquela? — eu murmurei, já abrindo caminho no meio da galera. Fui empurrando, passando entre as pessoas. — Dá licença. — Sai da frente. — Deixa eu passar. Quando cheguei perto, ouvi o cara gritando na cara dela. — Tu acha que pode me ignorar agora, é?! Me responde, Luly! Ele puxou o braço dela de novo. Forte. Luly tentou se soltar. — Me larga! Meu sangue ferveu na mesma hora. — Ô! Eu cheguei já empurrando o cara. — Tá maluco, p***a?! Ele virou pra mim com a cara cheia de ódio. — Não se mete, garota. Isso aqui é entre eu e ela. Eu dei um passo pra frente. — Entre você e ela? Apontei pra Luly, que tava tremendo atrás de mim. — Tu tá segurando ela à força no meio do baile, irmão, tá achando que isso aqui é o quê? Ele riu de um jeito nojento. — Ela é minha ex. Dei uma risada curta, cheia de desprezo. — Ex. Aproximei meu rosto do dele. — Então aprende uma coisa: ex não manda em p***a nenhuma. Atrás de mim eu sentia Luly segurando minha blusa, ainda chorando, a multidão já tava em volta. Silêncio pesado. O cara deu um passo pra frente, peito estufado. — Tu quer problema também? Antes que eu respondesse… Eu ouvi uma voz conhecida atrás da gente. Grave. Perigosa. — Problema já começou… A galera abriu espaço, e quando olhei por cima do ombro… Magrão tava vindo, e pela cara dele… Alguém ia se arrepender muito de ter começado aquela cena no baile. A voz do Magrão cortou o ar igual faca. — Problema já começou desde o momento que tu botou a mão nela. O cara deu um passo atrás sem querer, quem conhecia o Magrão sabia: quando a voz dele ficava assim, baixa e calma, era porque o bagulho tava prestes a ficar sério. — Isso não é da sua conta — o ex da Luly tentou disfarçar o medo. Magrão parou do meu lado, não tava nem olhando pro cara, tava olhando pra mim. — Tá tudo bem? Eu assenti. — Tô. Só então ele virou pro babaca. — Ela é minha mina, então tudo que é com ela é comigo também. O cara abriu a boca pra responder, mas nesse momento dois vapor que tava fazendo a segurança do baile chegaram abrindo caminho. — Opa, opa — o maior deles já veio separando. — Qual é a treta? — Esse cara aí — apontei sem pestanejar — segurou minha amiga à força, ela mandou ele largar, ele não largou. O segurança olhou pro ex da Luly. — Verdade? O cara tentou mentir, mas aí olhou em volta, viu a multidão, viu a cara das pessoas. Ninguém ia defender ele. — Ela é minha namorada — ele tentou ainda. — Ex — Luly falou, e a voz dela finalmente saiu. Trêmula, mas firme. — Ex-namorada, faz muitos meses. O segurança entendeu na hora. — Então vaza. — O quê? — Vaza do baile. Agora. Ou quer que a gente te leve pras ideia? O cara ficou vermelho, olhou pra Luly, pra mim, pro Magrão… Magrão não desviou o olhar um segundo. — Vai enquanto pode — ele falou baixo. O cara engoliu seco. E foi. Aos poucos a multidão foi se dispersando. A música voltou a tocar, o baile continuou, porque baile é assim a vida segue, o grave bate. Mas a gente ficou ali, num bolsão de silêncio no meio do barulho. Luly caiu no meu ombro chorando. — Mayte… eu… obrigada… Passei a mão no cabelo dela. — Calma, amiga, já foi, tu tá bem? Ela só chorava, alívio, o medo passado, tudo junto. Magrão ficou ali perto, de olho, garantindo que ninguém mais chegasse perto. Depois de um tempo, Luly levantou a cabeça, secou o rosto. — Eu quero ir embora. — Vou contigo — falei na hora. — Não, fica… você tava se divertindo… — Luly. — olhei nos olhos dela. — Tô contigo, pode crer? Ela sorriu fraco. Magrão se aproximou. — Quer que eu levo vocês? — A gente vai de moto. — respondi. — Fica aqui com seus amigos. Ele hesitou. — Tem certeza? — Tenho. Ele me olhou de um jeito diferente, não era o olhar do baile, aquele de flerte, era outro, de respeito. — Tu é f**a, sabia? Quase sorri. — Sei. Ele riu baixinho. — Vou ver vocês subirem na moto. E foi o que ele fez, esperou com a gente na porta do baile, viu nos subir na moto. Antes de eu subir, ele segurou minha mão. — Mayte. — Fala. — Cuidado. — Sempre. No caminho pra casa, Luly encostou a cabeça no meu ombro de novo. — Sabe o que eu percebi hoje? — O quê? — Que amiga de verdade não é quem dança com você no baile, é quem briga por você quando precisa. Apertei a mão dela. — Então relaxa um pouco, quando chegar em casa, a gente pede um lanche e assiste besteira na TV. Ela riu, com os olhos ainda molhados. — Parece perfeito. Olhei pela retrovisor, vendo as luzes da cidade passando, não foi com tiro, mas o ex dela caiu mesmo assim.
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