Mayte Narrando
O baile tava simplesmente perfeito.
Sério.
Aqueles graves do funk batendo no peito, as luzes piscando, gente dançando, rindo, vivendo, era aquele tipo de noite que parece que o mundo dá uma pausa só pra você aproveitar. E no meio de tudo isso… ele.
Magrão.
A gente nem tava grudado, mas também nem precisava, as vezes ele tava encostado perto do bar, às vezes trocando ideia com os caras, e de vez em quando nossos olhares se cruzavam no meio da multidão. E quando cruzavam… Nossa.
Parecia que o baile inteiro desaparecia.
Ele levantava o queixo de leve, aquele sorrisinho torto de quem sabe exatamente o efeito que causa, eu só virava o copo na boca fingindo que tava tranquila, mas por dentro meu coração tava tipo:
calma, Mayte… se controla.
Luly tava dançando perto da gente mais cedo, rindo, rodando com as meninas, depois sumiu no meio do povo, mas isso era normal no baile.
Até que.
— EI! SOLTA ELA!
O grito cortou a música.
Primeiro eu achei que era só briga de bêbado, baile sempre tem dessas, mas aí veio outro grito, mais alto, e desesperado. E no meio da multidão começou aquele empurra-empurra.
Alguém chorando.
Meu estômago gelou, eu subi um pouco na ponta do pé tentando enxergar, foi quando eu vi.
Luly.
Chorando.
O rosto todo molhado, tentando se soltar do braço de um cara que segurava ela com força demais, na hora eu nem pensei.
Nem um segundo.
— Que p***a é aquela? — eu murmurei, já abrindo caminho no meio da galera.
Fui empurrando, passando entre as pessoas.
— Dá licença. — Sai da frente. — Deixa eu passar.
Quando cheguei perto, ouvi o cara gritando na cara dela.
— Tu acha que pode me ignorar agora, é?! Me responde, Luly!
Ele puxou o braço dela de novo.
Forte.
Luly tentou se soltar.
— Me larga!
Meu sangue ferveu na mesma hora.
— Ô!
Eu cheguei já empurrando o cara.
— Tá maluco, p***a?!
Ele virou pra mim com a cara cheia de ódio.
— Não se mete, garota. Isso aqui é entre eu e ela.
Eu dei um passo pra frente.
— Entre você e ela?
Apontei pra Luly, que tava tremendo atrás de mim.
— Tu tá segurando ela à força no meio do baile, irmão, tá achando que isso aqui é o quê?
Ele riu de um jeito nojento.
— Ela é minha ex.
Dei uma risada curta, cheia de desprezo.
— Ex.
Aproximei meu rosto do dele.
— Então aprende uma coisa: ex não manda em p***a nenhuma.
Atrás de mim eu sentia Luly segurando minha blusa, ainda chorando, a multidão já tava em volta.
Silêncio pesado.
O cara deu um passo pra frente, peito estufado.
— Tu quer problema também?
Antes que eu respondesse… Eu ouvi uma voz conhecida atrás da gente.
Grave.
Perigosa.
— Problema já começou…
A galera abriu espaço, e quando olhei por cima do ombro… Magrão tava vindo, e pela cara dele… Alguém ia se arrepender muito de ter começado aquela cena no baile.
A voz do Magrão cortou o ar igual faca.
— Problema já começou desde o momento que tu botou a mão nela.
O cara deu um passo atrás sem querer, quem conhecia o Magrão sabia: quando a voz dele ficava assim, baixa e calma, era porque o bagulho tava prestes a ficar sério.
— Isso não é da sua conta — o ex da Luly tentou disfarçar o medo.
Magrão parou do meu lado, não tava nem olhando pro cara, tava olhando pra mim.
— Tá tudo bem?
Eu assenti.
— Tô.
Só então ele virou pro babaca.
— Ela é minha mina, então tudo que é com ela é comigo também.
O cara abriu a boca pra responder, mas nesse momento dois vapor que tava fazendo a segurança do baile chegaram abrindo caminho.
— Opa, opa — o maior deles já veio separando. — Qual é a treta?
— Esse cara aí — apontei sem pestanejar — segurou minha amiga à força, ela mandou ele largar, ele não largou.
O segurança olhou pro ex da Luly.
— Verdade?
O cara tentou mentir, mas aí olhou em volta, viu a multidão, viu a cara das pessoas. Ninguém ia defender ele.
— Ela é minha namorada — ele tentou ainda.
— Ex — Luly falou, e a voz dela finalmente saiu. Trêmula, mas firme. — Ex-namorada, faz muitos meses.
O segurança entendeu na hora.
— Então vaza.
— O quê?
— Vaza do baile. Agora. Ou quer que a gente te leve pras ideia?
O cara ficou vermelho, olhou pra Luly, pra mim, pro Magrão… Magrão não desviou o olhar um segundo.
— Vai enquanto pode — ele falou baixo.
O cara engoliu seco.
E foi.
Aos poucos a multidão foi se dispersando. A música voltou a tocar, o baile continuou, porque baile é assim a vida segue, o grave bate. Mas a gente ficou ali, num bolsão de silêncio no meio do barulho.
Luly caiu no meu ombro chorando.
— Mayte… eu… obrigada…
Passei a mão no cabelo dela.
— Calma, amiga, já foi, tu tá bem?
Ela só chorava, alívio, o medo passado, tudo junto. Magrão ficou ali perto, de olho, garantindo que ninguém mais chegasse perto. Depois de um tempo, Luly levantou a cabeça, secou o rosto.
— Eu quero ir embora.
— Vou contigo — falei na hora.
— Não, fica… você tava se divertindo…
— Luly. — olhei nos olhos dela. — Tô contigo, pode crer?
Ela sorriu fraco.
Magrão se aproximou.
— Quer que eu levo vocês?
— A gente vai de moto. — respondi. — Fica aqui com seus amigos.
Ele hesitou.
— Tem certeza?
— Tenho.
Ele me olhou de um jeito diferente, não era o olhar do baile, aquele de flerte, era outro, de respeito.
— Tu é f**a, sabia?
Quase sorri.
— Sei.
Ele riu baixinho.
— Vou ver vocês subirem na moto.
E foi o que ele fez, esperou com a gente na porta do baile, viu nos subir na moto. Antes de eu subir, ele segurou minha mão.
— Mayte.
— Fala.
— Cuidado.
— Sempre.
No caminho pra casa, Luly encostou a cabeça no meu ombro de novo.
— Sabe o que eu percebi hoje?
— O quê?
— Que amiga de verdade não é quem dança com você no baile, é quem briga por você quando precisa.
Apertei a mão dela.
— Então relaxa um pouco, quando chegar em casa, a gente pede um lanche e assiste besteira na TV.
Ela riu, com os olhos ainda molhados.
— Parece perfeito.
Olhei pela retrovisor, vendo as luzes da cidade passando, não foi com tiro, mas o ex dela caiu mesmo assim.