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916 Words
Penélope enxugou as lágrimas e se afastou devagar do abraço de Rick. — Olha... obrigada por me ajudar, de verdade. Mas eu vou fazer as malas e preciso ir agora para a rodoviária. Vou para alguma cidade próxima e recomeçar de novo. Rick a encarou sem acreditar. — Recomeçar de novo? — É o que eu sempre faço. — E ficar fugindo para sempre? Ela abaixou os olhos. — É melhor do que colocar outra pessoa em perigo. Rick passou a mão pelos cabelos, tentando controlar a irritação. — Então esse é o plano? Você abandona tudo, pega uma mala e desaparece? — Funciona. — Não parece estar funcionando muito bem. Aquelas palavras a atingiram. Porque, no fundo, ela sabia que ele tinha razão. Penélope caminhou até o quarto e começou a tirar uma mala do armário. Rick a observava da porta. — Você nem sabe para onde vai. — Eu descubro no caminho. — E quando ele te encontrar de novo? Ela parou por um instante. Mas continuou arrumando as roupas. — Ele sempre encontra. — Então pare de correr. — Você não entende! Ela se virou de repente. Os olhos cheios de lágrimas. — Você conheceu uma versão feliz de mim por algumas horas naquela festa. Mas não sabe o que ele é capaz de fazer! O quarto mergulhou em silêncio. Rick se aproximou devagar. — Então me conta. — Não adianta. — Me conta. Penélope respirou fundo. — Durante anos ele controlou minha vida. Minhas amizades, meu trabalho, meus horários. Quando finalmente consegui fugir, achei que tinha acabado. Mas ele continuou aparecendo. Mudava de cidade, ele aparecia. Mudava de emprego, ele aparecia. Sempre encontrava um jeito. Rick ouviu tudo sem interromper. — E agora você acha que se desaparecer mais uma vez vai resolver? — Não sei. — Não vai. Ela apertou os olhos. — Rick... — Eu não estou dizendo isso porque quero ser herói. Estou dizendo porque vejo que você está cansada. As lágrimas começaram a cair novamente. Porque ela estava. Cansada de fugir. Cansada de sentir medo. Cansada de olhar por cima do ombro. Rick segurou suas mãos. — Você não vai para rodoviária nenhuma hoje. — E o que eu faço? — Descansa. Amanhã a gente pensa em um plano. — Nós? Rick sorriu de leve. — Sim. Nós. Penélope ficou olhando para ele. Aquele homem que ela conhecera apenas algumas horas antes estava lhe oferecendo algo que ninguém lhe oferecia há anos. Ajuda. Não pena. Não controle. Ajuda. Ela respirou fundo. Então fechou a mala que havia acabado de abrir. — Só esta noite — disse baixinho. Rick sorriu. — Só esta noite. Mas, no fundo, os dois sabiam que aquela decisão mudaria muito mais do que apenas aquela noite. A madrugada já avançava quando Penélope finalmente conseguiu dormir. O cansaço venceu o medo. Ela estava encolhida no sofá, coberta por uma manta, enquanto a luz fraca do abajur iluminava a sala destruída. Rick observou por alguns segundos para ter certeza de que ela realmente havia adormecido. Só então pegou o celular e saiu para a varanda. Seu rosto já não tinha a mesma tranquilidade de antes. Ele discou um número. A ligação foi atendida quase imediatamente. — Senhor? — Preciso de um favor. — Diga. Rick abriu a foto que havia conseguido tirar discretamente do homem na festa. — Estou enviando uma imagem agora. Quero tudo sobre ele. — Tudo? — Nome completo. Empresas. Histórico financeiro. Processos. Endereços. Familiares. Quero saber quem ele é, com quem trabalha e quem pode protegê-lo. Do outro lado houve alguns segundos de silêncio. — Isso parece urgente. — É urgente. Rick observou a rua vazia lá embaixo. — Quero as informações antes do amanhecer. — Vamos começar agora. A ligação foi encerrada. Poucos minutos depois ele fez mais duas chamadas. Uma para um advogado de confiança. Outra para o chefe de segurança de uma de suas empresas. — Coloque dois homens discretamente na frente deste prédio. — Aconteceu alguma coisa? — Apenas faça. — Entendido. Quando terminou, eram quase três da manhã. Rick voltou para dentro do apartamento. Penélope continuava dormindo. Mas mesmo dormindo parecia inquieta. Ela se mexia de tempos em tempos, como se estivesse fugindo de algo em seus sonhos. Rick sentou-se na poltrona próxima. Pela primeira vez naquela noite ele teve tempo para pensar. Conhecera aquela mulher há poucas horas. Mesmo assim algo dentro dele dizia que não podia simplesmente virar as costas. Talvez fosse a tristeza nos olhos dela. Talvez a coragem que ela demonstrava apesar do medo. Ou talvez fosse algo que ele ainda não conseguia explicar. Por volta das cinco da manhã o celular vibrou. Uma mensagem. Depois outra. E outra. Rick abriu imediatamente. Os relatórios estavam chegando. Seu olhar ficou cada vez mais sério conforme lia. Nome. Empresas. Registros. Ocorrências. Denúncias nunca levadas adiante. Pessoas intimidadas. Testemunhas que desapareceram. E um histórico de perseguição a antigas companheiras. Rick fechou o maxilar. — Então é esse tipo de homem... Uma última mensagem chegou. "Há algo mais." Rick abriu o anexo. Seu rosto endureceu completamente. Havia uma fotografia recente. Tirada poucas horas antes. Da janela do apartamento de Penélope. Alguém havia fotografado ela e Rick entrando no prédio naquela noite. A mensagem abaixo era curta: "Ele está observando há mais tempo do que imaginávamos." Rick levantou os olhos para a janela. O céu começava a clarear. E naquele instante ele tomou uma decisão. A partir daquele momento, aquele homem não perseguiria mais Penélope sem encontrar resistência.
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