Da Vasco Narrando
Eu não sou homem de falar muito.
Nunca fui.
Enquanto muita gente precisa explicar o que pensa, eu prefiro observar. Enquanto alguns precisam levantar a voz para provar que estão no controle, eu fico quieto e resolvo.
Foi assim que aprendi a sobreviver.
Meu nome é Otávio, mas quase ninguém me chama pelo nome.
No Cantagalo, sou Da Vasco.
E, antes que alguém pergunte, sim, o apelido tem exatamente o motivo que vocês estão imaginando.
Eu sou vascaíno.
Doente.
Daqueles que discutem futebol como se estivessem discutindo política internacional. Daqueles que conseguem transformar qualquer conversa em Vasco. Daqueles que sabem escalação, história, campeonato, jogador e até as derrotas que deveriam ser esquecidas.
Carrasco vive dizendo que meu maior defeito é esse.
Eu digo que meu maior defeito é confiar nele.
Ele diz que não confia em ninguém.
Eu digo que alguém precisa confiar.
Talvez seja por isso que a gente funcione.
Carrasco é meu parceiro há anos.
Não somos iguais.
Ainda bem.
Ele é mais fechado.
Mais duro.
Mais direto.
Quando decide alguma coisa, dificilmente volta atrás.
Eu sou o cara que pensa um pouco antes.
Que olha para os lados.
Que tenta entender de onde veio o problema antes de decidir como acabar com ele.
No fim, geralmente chegamos à mesma conclusão.
Só usamos caminhos diferentes.
E talvez seja por isso que ele me colocou ao lado dele.
Eu conheço o Cantagalo.
Conheço as pessoas.
Conheço os becos.
Conheço os caminhos que aparecem e desaparecem dependendo da hora.
Se alguém entra aqui sem ser conhecido, alguém percebe.
Se alguém sai correndo, alguém vê.
Se alguém está mentindo, normalmente alguém sabe.
O problema é que, dessa vez, duas jornalistas conseguiram entrar.
Uma foi pega.
A outra escapou.
E isso me incomoda.
Muito.
Não porque eu esteja preocupado com a jornalista.
Ainda não.
Mas porque qualquer ponta solta pode virar um problema grande demais.
Estou sentado dentro de uma sala pequena, com o celular sobre a mesa, enquanto dois homens estão na minha frente.
— E aí?
Um deles coça a nuca.
— Nada ainda.
Olho para ele.
— Nada?
— A gente procurou na parte de baixo, na saída principal e pelas vielas laterais.
— E?
— Ninguém viu a mulher depois que ela correu.
Bato os dedos na mesa.
— Então alguém viu.
Ele fica em silêncio.
— Perguntaram direito?
— Perguntamos.
— Perguntar não é procurar resposta.
Ele abaixa os olhos.
— Vou voltar lá.
— Vai.
Ele sai.
O outro permanece.
— Você.
Ele olha para mim.
— Descobre se alguém viu duas mulheres chegando hoje cedo.
— Já perguntamos.
— Pergunta de novo.
— Certo.
Ele sai também.
Pego o celular.
Ainda não tenho nada.
A mulher que fugiu continua sendo uma incógnita.
E eu não gosto de incógnitas.
Muito menos quando uma delas está ligada a Marcela.
Olho para a tela.
Abro a conversa com Carrasco.
Penso em mandar uma mensagem.
Desisto.
Ainda não.
Não porque eu esteja escondendo alguma coisa dele.
Mas porque conheço João Pedro.
Se eu disser que não encontramos a garota, ele vai querer sair atrás pessoalmente.
E quando Carrasco resolve uma coisa pessoalmente, a conversa costuma acabar rápido demais.
Eu prefiro resolver primeiro.
Depois conto.
Se houver alguma coisa para contar.
Guardo o celular.
Minha cabeça volta para a menina.
Minha filha.
É estranho pensar nela no meio dessa confusão.
Talvez porque, em dias como hoje, algumas coisas que eu normalmente empurro para o fundo da cabeça acabam aparecendo.
Eu tenho uma filha.
Quase ninguém sabe.
Ou melhor, quase ninguém pergunta.
Ela nasceu quando eu ainda achava que minha vida poderia ser diferente.
Quando eu ainda acreditava que certas coisas poderiam ser separadas.
Trabalho de um lado.
Família do outro.
Eu estava errado.
A mãe dela foi embora.
E levou minha filha.
No começo, eu tentei.
Mandei mensagem.
Liguei.
Pedi para vê-la.
Não funcionou.
Depois vieram as desculpas.
Ela está ocupada.
Ela está dormindo.
Ela não quer.
Ela não pode.
Ela está com a família.
Até chegar o momento em que eu parei de insistir.
Não porque não quisesse minha filha.
Mas porque entendi que forçar aquela situação poderia piorar tudo.
Hoje, eu quase não tenho contato com ela.
Sei que ela está crescendo.
Sei algumas coisas de longe.
Às vezes recebo uma informação.
Uma foto que alguém manda.
Uma notícia pequena.
E fico sabendo que minha filha está bem.
É pouco.
Muito pouco.
Mas é o que tenho.
Não gosto de pensar nisso.
Talvez porque, quando penso, lembro que existe uma parte da minha vida que eu não consegui proteger.
E eu odeio essa sensação.
Por isso prefiro não falar.
Levanto da cadeira.
Volto para o assunto que consigo controlar.
Marcela.
Gleice.
Eduardo Martins.
A traição.
As pistas.
O carro.
A oficina.
Tudo.
Pego um papel e começo a escrever os horários.
Marcela e Gleice chegaram juntas.
Foram vistas pela associação.
Nando falou com elas.
Depois seguiram sozinhas.
Encontraram a oficina.
Ou foram levadas até lá pelas pistas.
Esse detalhe me incomoda.
Quem passou a informação para Marcela?
Se alguém está plantando pistas para fazer o Cantagalo parecer envolvido, então essa pessoa precisa garantir que alguém encontre essas pistas.
Marcela pode ter sido apenas a pessoa escolhida.
Ou pode ter sido usada porque alguém sabia que ela não desistiria.
Olho para o nome dela escrito no papel.
Marcela Barreto.
Jornalista.
Vinte e um anos.
Recém-formada.
Obstinada.
Curiosa.
E aparentemente s*******o do perigo em que se meteu.
Passo a mão pelo rosto.
— Você escolheu logo o pior lugar para investigar...
Murmuro sozinho.
Meu celular vibra.
Atendo.
— Fala.
— Da Vasco, encontramos uma pessoa que viu as duas.
Endireito o corpo.
— Onde?
— Perto da entrada.
— E a mulher que fugiu?
— Ele viu ela correndo.
Meu coração acelera.
— Pra onde?
— Rua de baixo.
Pego as chaves.
— Quem mais sabe disso?
— Só nós.
— Ótimo.
Desligo.
Saio da sala.
No caminho, encontro um dos homens que estava procurando.
— Achamos uma testemunha.
Ele acompanha meus passos.
— Vamos falar com ela.
— E o patrão?
Paro.
— Ainda não.
— Ele vai perguntar.
— Quando ele perguntar, eu respondo.
Continuo andando.
Não quero levar informação incompleta para Carrasco.
Principalmente agora.
Ele já está com Marcela.
Já está lidando com uma situação que não esperava.
Se eu chegar dizendo que a outra mulher escapou e que ainda não sabemos onde ela está, ele vai querer resolver.
E eu sei como ele resolve.
Definitivo.
Eu prefiro encontrar Gleice primeiro.
Depois descubro o que ela viu.
Depois descubro para quem ela contou.
E só então levo tudo ao Carrasco.
Não é esconder.
É evitar que uma situação ainda pequena vire uma guerra antes da hora.
Chegamos à parte de baixo do morro.
O homem que viu Gleice está esperando.
É um morador antigo.
Conhece todo mundo.
Olha para mim quando me aproximo.
— Foi essa mulher aqui?
Mostro a foto de Marcela.
Ele balança a cabeça.
— Não. Essa ficou lá em cima.
Mostro outra foto.
A de Gleice.
Ele aponta.
— Essa.
Guardo o celular.
— Fala.
— Ela passou correndo.
— Sozinha?
— Sozinha.
— Alguém estava atrás?
— Não vi ninguém.
— Para onde ela foi?
Ele aponta para a rua.
— Desceu por ali.
Olho para o caminho.
Então ela realmente conseguiu sair.
Respiro fundo.
— Ela falou alguma coisa?
— Não.
— Chorava?
Ele pensa.
— Parecia assustada.
Assinto.
Isso confirma uma coisa.
Gleice não foi pega.
Pelo menos não aqui.
Pego o celular novamente.
Agora preciso descobrir para onde ela foi depois de sair.
— Você consegue reconhecer se ela voltar?
— Consigo.
— Então, se aparecer, não fala com ela.
O homem me encara.
— Por quê?
— Porque eu preciso conversar com ela primeiro.
Ele assente.
— Entendi.
Saio dali.
Meu celular vibra outra vez.
Dessa vez é Carrasco.
Olho para a tela.
Fico alguns segundos encarando o nome.
Atendo.
— Fala.
A voz dele vem do outro lado.
— Alguma coisa?
Olho para a rua à minha frente.
Penso em tudo que encontrei.
— Sim.
Silêncio.
— Encontramos uma pista da outra mulher.
— Onde?
— Ela conseguiu sair do morro.
Outro silêncio.
Conheço Carrasco.
Consigo imaginar a expressão dele sem precisar enxergar.
— E você está fazendo o quê?
— Tentando descobrir para onde ela foi.
— Descobre.
— Já estou fazendo isso.
Ele fica quieto.
— Da Vasco.
— Fala.
— Não deixa essa mulher chegar na polícia antes da gente entender o que ela sabe.
— Eu sei.
— E não deixa ninguém encostar nela.
Olho para o movimento da rua.
— Não vou deixar.
— Me avisa quando tiver alguma coisa concreta.
— Aviso.
Desligo.
Guardo o celular.
Fico parado por alguns segundos.
Carrasco não pediu detalhes.
Não perguntou quem viu.
Não perguntou onde.
Ele confia em mim para resolver.
E eu vou resolver.
Porque é isso que eu faço.
Eu não sou o homem que fica conversando sobre problemas.
Eu sou o homem que encontra a solução.
Só espero que, dessa vez, a solução não venha tarde demais.
Olho mais uma vez para a rua por onde Gleice desapareceu.
— Onde você foi parar, garota?
Começo a andar.
E, enquanto sigo atrás das poucas pistas que tenho, uma coisa fica clara na minha cabeça:
Antes que Carrasco precise tomar uma decisão definitiva, eu preciso encontrar Gleice.