08

1482 Words
Gleice Kelly Narrando Eu corro. Não penso. Não olho para trás. Só corro. Meu coração parece querer sair pela boca enquanto meus pés batem contra o chão irregular, tropeçando nas pedras, desviando das pessoas e das paredes estreitas. Eu não sei exatamente por onde estou indo. Só sei que preciso sair. Preciso encontrar a entrada. Preciso chegar longe daquele lugar. Preciso respirar. Minha mão segura o celular com tanta força que meus dedos doem, mas não consigo parar para olhar a tela. Atrás de mim, escuto vozes. Homens. Meu corpo inteiro trava por um segundo. Eles estão procurando por mim. — Merda... Volto a correr. Desço uma viela estreita, quase escorrego, apoio a mão na parede e continuo. Meu peito queima. Minha garganta arde. As lágrimas começam a cair sem que eu consiga impedir. Marcela. O pensamento vem com força. Eu deixei Marcela lá. Eu corri. Eu consegui fugir. Mas ela não. Eu paro por menos de dois segundos em uma esquina e olho para trás. Nada. Nenhum homem aparece. Mesmo assim, continuo. Não posso voltar. Se eu voltar, eles vão me pegar também. E, se os dois lados forem capturados, ninguém vai conseguir ajudar ninguém. Eu tento acreditar nisso. Preciso acreditar. Desço mais alguns metros e reconheço uma rua. A entrada. Meu coração dispara ainda mais. É ali. É a saída. Corro até lá sem pensar duas vezes. Quando finalmente vejo o movimento da rua principal, sinto minhas pernas quase cederem. Eu consegui. Eu consegui sair. Atravesso rapidamente e continuo andando até ter certeza de que estou longe o suficiente. Só então paro. Coloco as mãos nos joelhos e tento respirar. Uma vez. Duas. Três. Não consigo. Começo a chorar. Um choro desesperado, silencioso no início, mas que logo escapa completamente do meu controle. — Meu Deus... Levo uma mão à boca. Marcela. Ela ficou lá. Sozinha. Com aqueles homens. Com ele. Eu não sei o que fizeram com ela. Não sei se está viva. Não sei se machucaram ela. Não sei se... Não consigo terminar o pensamento. — Não. Balanço a cabeça. — Não, não, não. Pego o celular. A tela está cheia de notificações. Meu dedo treme quando abro a conversa com Marcela. Nada. Nenhuma mensagem nova. Ligo. Chama. Chama. Chama. Ninguém atende. Tento outra vez. Nada. Na terceira ligação, desligo antes de completar. Ela não pode atender. Talvez tenham tomado o telefone. Talvez ela esteja escondida. Talvez... Eu paro. Não posso continuar criando possibilidades. Preciso fazer alguma coisa. Olho ao redor. Estou em uma rua movimentada, com pessoas passando, carros, motos, lojas abertas. É tão normal. Tão diferente de poucos minutos atrás. Parece até absurdo pensar que, lá em cima, minha melhor amiga está presa. Uma parte de mim quer voltar. Outra sabe que seria loucura. Eu começo a andar sem direção. As lágrimas continuam caindo. Não consigo parar. Marcela sempre foi assim. Desde que nos conhecemos. Ela sempre foi assim. Enquanto eu pensava duas vezes antes de fazer alguma coisa, ela já estava fazendo. Enquanto eu dizia que talvez fosse melhor esperar, ela dizia que esperar nunca tinha levado ninguém a lugar nenhum. Ela sempre teve essa necessidade de provar que consegue. De mostrar que é capaz. De fazer alguma coisa grande. Nós duas acabamos de nos formar. Nós duas queremos espaço. Queremos reconhecimento. Queremos que alguém olhe para nosso trabalho e diga que somos boas. Mas Marcela... Marcela leva isso a outro nível. Ela vive para o trabalho. Literalmente. Ela não namora. Não sai. Não vai para festas. Não tem uma vida social de verdade. Quando alguém chama para alguma coisa, ela quase sempre está trabalhando. Quando eu digo que precisamos descansar, ela responde que descanso vem depois. Depois da matéria. Depois da próxima investigação. Depois da próxima oportunidade. Depois que alguém finalmente perceber o talento dela. Eu já perdi a conta de quantas vezes tentei convencer Marcela de que ela precisava viver um pouco. Ela sempre ri. Sempre diz que não tem tempo. Que nossa profissão exige dedicação. Que, se quisermos ser reconhecidas, precisamos correr atrás. E eu entendo. Eu também quero isso. Quero trabalhar. Quero construir uma carreira. Quero olhar para trás daqui a alguns anos e saber que todo o esforço valeu a pena. Mas existe uma diferença entre lutar por um sonho e colocar a própria vida em risco. E Marcela não entende essa diferença. Ou talvez entenda. Talvez só finja que não. Enxugo o rosto. — Você é maluca... Minha voz sai tremida. Eu falo sozinha na calçada. Algumas pessoas olham. Não me importo. — Você é completamente maluca, Marcela. Meu celular vibra. Eu quase deixo cair. Olho para a tela. Não é ela. É uma mensagem qualquer. Meu coração afunda. Guardo o aparelho. Continuo andando. Então paro. Polícia. Essa palavra surge na minha cabeça. Eu deveria ir para a polícia. É óbvio. Minha amiga foi sequestrada. Eu vi homens armados. Vi onde ela foi levada. Sei que o homem que estava falando com ela se chama Carrasco. Ou pelo menos foi assim que ouvi os outros se referirem a ele. Eu poderia contar tudo. Poderia dizer que Marcela está presa. Poderia levar os policiais até a entrada. Poderia explicar o que aconteceu. Então por que minhas pernas não me levam até uma delegacia? Porque tenho medo. Medo de que façam alguma coisa com ela assim que percebam que eu fui embora. Medo de que alguém lá dentro descubra que eu consegui escapar. Medo de que Marcela seja usada como punição. Meu estômago se revira. Olho novamente para o celular. Talvez eu possa procurar alguém antes. Um professor. Um jornalista. Alguém da faculdade. Alguém que possa orientar. Mas, enquanto penso, uma lembrança volta. Marcela escondida. Nós duas ouvindo aqueles homens. A conversa sobre alguém entregando informações. Sobre traição. Sobre alguém tentando colocar alguma coisa nas costas deles. Talvez eles estejam envolvidos em alguma coisa muito maior. E nós entramos no meio. Sem saber. Sem entender. Eu deveria ter impedido. Eu deveria ter segurado o braço dela. Deveria ter dito que não. Deveria ter falado: “Marcela, vamos embora.” Mas eu fui junto. Eu sempre vou junto. Esse é o problema. Marcela olha para uma porta e quer abrir. Eu vou atrás. Ela encontra uma pista e quer seguir. Eu acompanho. Ela acredita que existe uma grande história escondida em algum lugar. Eu acredito nela. Porque sou amiga dela. Mas agora... Agora eu não sei se acreditar nela foi suficiente. Sento em um banco perto da calçada. Meu corpo inteiro treme. Abraço os braços. — O que eu faço? Olho para o movimento da rua. Ninguém sabe. Ninguém imagina. As pessoas passam por mim sem fazer ideia de que estou sentada ali porque minha melhor amiga está presa dentro de uma favela. Uma mulher passa falando ao telefone. Um homem atravessa a rua. Um carro buzina. A vida continua. E eu estou completamente perdida. Pego o celular novamente. Abro a conversa com Marcela. Digito: “Onde você está?” Apago. Digito: “Eu consegui sair.” Apago. Não sei se alguém está com o telefone dela. Não sei se estão olhando as mensagens. Não sei se mandar qualquer coisa pode colocar Marcela em mais perigo. Desligo a tela. Fecho os olhos. Lembro do rosto dela antes de entrarmos. Ela estava animada. Falava sobre a matéria. Dizia que, se conseguíssemos descobrir alguma coisa importante, talvez finalmente alguém começasse a levar nosso trabalho a sério. Eu lembro de ter rido. Agora não consigo rir. Porque talvez seja isso que ela ainda não consiga entender. Não existe matéria importante o suficiente para valer uma vida. Nenhuma manchete. Nenhum reconhecimento. Nenhum prêmio. Nenhum nome estampado em uma reportagem. Nada disso vale a pena se o preço for morrer. Abro os olhos. As lágrimas voltam. — Você não entende isso, Marcela... Falo baixinho. — Você nunca entende. Levanto do banco. Começo a andar novamente. Dessa vez, sei que preciso tomar uma decisão. Polícia. Não polícia. Ligar para alguém. Esperar. Voltar. Cada opção parece errada. Cada segundo que passa parece pior. Olho para o celular mais uma vez. Ainda nada. E é isso que mais dói. Marcela sempre responde. Sempre. Mesmo quando está ocupada. Mesmo quando está trabalhando. Mesmo quando eu mando uma mensagem i****a. Ela responde. Agora, o silêncio dela parece gritar. Paro no meio da calçada. Fecho os olhos. — Aguenta mais um pouco, amiga... Minha voz falha. — Por favor. Não sei se ela pode me ouvir. Não sei se algum dia vai ouvir. Mas é a única coisa que consigo fazer. Continuo andando. E, pela primeira vez desde que conheço Marcela, eu desejo que ela não consiga aquilo que sempre quis. Não quero reconhecimento. Não quero uma grande matéria. Não quero que nosso nome fique conhecido. Quero apenas minha amiga de volta. Viva. E inteira. Porque, no fim das contas, nenhuma história do mundo vale o preço de perder quem a gente ama.
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