07

1835 Words
Carrasco Narrando Fecho a porta atrás de mim e fico parado no corredor. Não dou mais de dois passos. Alguma coisa me prende naquele lugar. Talvez seja o silêncio. Talvez seja a lembrança do corpo dela caindo no chão. Ou talvez seja o som do choro. Respiro fundo e passo a mão pelo rosto. Eu não queria ter feito aquilo. A constatação vem seca, incômoda, quase como uma ofensa contra mim mesmo. Não porque eu me considere um homem incapaz de perder a cabeça. Muito pelo contrário. Eu sei exatamente do que sou capaz quando a raiva toma conta. Mas eu não costumo perder o controle com qualquer pessoa. E, principalmente, não costumo me arrepender. Só que, quando eu empurrei Marcela e vi o corpo dela bater no chão, alguma coisa dentro de mim travou. Por um segundo, eu simplesmente fiquei olhando. Ela não reagiu. Só me encarou. Assustada. Depois se arrastou para trás e se encolheu contra a parede, abraçando os próprios joelhos. Aquilo mexeu comigo. Num ponto que eu nem lembrava que existia. Um ponto que eu passei anos enterrando. Eu não tenho pena. Não tenho dó. Muito menos costumo sentir piedade. Piedade, para mim, sempre foi uma palavra perigosa. Porque geralmente quem sente pena do coitado acaba virando o coitado depois. Aprendi isso cedo. No meu mundo, fraqueza é uma coisa que os outros reconhecem antes mesmo de você perceber que está fraco. E, quando percebem, usam. Por isso eu não dou espaço. Não dou a******a. Não carrego ninguém nas costas. Não me permito olhar para alguém e pensar que preciso salvá-lo. Só que Marcela conseguiu atravessar essa barreira sem nem saber que ela existia. E isso me irrita. Volto a andar pelo corredor. Dois homens que estavam próximos à porta me veem e imediatamente ficam retos. — Ninguém entra naquela sala — digo. — Sim, patrão. — Ninguém toca nela. — Sim. Dou mais alguns passos, mas paro. — E se ela pedir água, comida ou qualquer outra coisa, vocês chamam o Da Vasco. O homem assente. — Entendido. Continuo andando. Minha cabeça está um caos. Eu preciso decidir onde colocar aquela mulher. A sala onde ela está agora não serve. É provisória. Não posso manter uma jornalista presa dentro de uma sala qualquer enquanto meus homens entram e saem por perto. Também não confio nela o suficiente para deixá-la circulando pelo morro. E muito menos confio nos outros para cuidar dela. Não depois do que aconteceu hoje. Eu paro perto da escada e olho para baixo. A resposta é óbvia. E justamente por isso eu não gosto dela. Minha casa. Solto o ar devagar. — p**a que pariu. É a única coisa que consigo dizer. Não existe lugar mais seguro. Não existe lugar onde eu tenha controle suficiente para saber exatamente quem entra, quem sai e quem chega perto dela. E eu não vou colocar Marcela na casa do Da Vasco. Isso não faria sentido. Além de ser injusto com ele, eu não tenho motivo para transformar a casa dele em esconderijo de uma mulher que pode estar no meio de uma armação contra o nosso comando. Se ela for uma peça desse jogo, eu preciso mantê-la perto. Se não for, ainda preciso descobrir por que todas as pistas levaram justamente até ela. E tem outra coisa. Eu não confio em ninguém para ficar responsável por ela além de mim e do Da Vasco. Isso significa que ela vai ficar comigo. Na minha casa. Na p***a da minha casa. A mulher provavelmente vai me odiar ainda mais quando descobrir. E, sinceramente? Não posso dizer que me importo. Ou pelo menos deveria não me importar. Volto para a sala onde Da Vasco está. Ele está sentado mexendo no celular, provavelmente tentando conseguir alguma informação sobre a amiga de Marcela. Levanta os olhos quando entro. — E aí? Não respondo de imediato. Vou até a mesa e apoio as duas mãos nela. — Ela fica na minha casa. Da Vasco me encara. — Quem? Olho para ele. — Marcela. Ele demora alguns segundos para responder. — Na sua casa? — É. — Carrasco... — Não começa. Ele guarda o celular no bolso. — Eu só ia perguntar se você tem certeza. — Tenho. — Você acabou de dizer que não queria ela perto de ninguém. — Exatamente. — E decidiu colocar ela perto de você? — Porque eu sou a única pessoa que pode garantir que ninguém vai fazer merda. Da Vasco solta uma risada curta, sem humor. — Isso vai ser interessante. — Não tem nada de interessante. — Você acabou de colocar uma jornalista na sua casa. — Uma testemunha. — Uma jornalista. — Que é testemunha. Ele balança a cabeça. — Tá. Me afasto da mesa. — Quero que preparem um quarto. Da Vasco fica sério. — Ela sabe? — Ainda não. — Vai gostar. — Não estou tentando agradar. — Percebi. Olho para ele. — E você? — Eu o quê? — Continua procurando a amiga. — Claro. — Quero saber se ela saiu do Cantagalo sozinha. — Vou descobrir. — E se alguém ajudou. — Também. Assinto. Da Vasco me observa por alguns segundos. — Você está diferente. Meu olhar endurece. — Não estou. — Está. — Da Vasco. — Tá bom. Ele levanta as mãos. — Não falei nada. Pego meu celular. Tenho algumas mensagens acumuladas. Abro uma delas. Nada. Outra. Nada. Nenhuma informação sobre a garota que conseguiu escapar. Isso começa a me incomodar. Não porque eu esteja preocupado com ela. Pelo menos é isso que repito para mim mesmo. Mas porque, enquanto ela estiver solta, existe uma ponta desse problema fora do meu controle. E eu odeio coisas fora do meu controle. — Quando encontrar alguma coisa, me chama. — Pode deixar. Saio da sala. Enquanto caminho em direção à área externa, minha cabeça volta para Eduardo Martins. O desaparecimento. As pistas. O carro. O Cantagalo. A conversa que eu e Da Vasco tivemos. A jornalista. Tudo parece conectado. Só que ainda falta a parte mais importante. Quem está fazendo isso? Quem está plantando essas informações? Quem está usando o nome do Cantagalo para encobrir alguma coisa? Eu paro perto do muro e fico olhando as luzes espalhadas pela comunidade. Não sou inocente. Sei que meu nome carrega peso. Sei que muita gente olha para mim e já decide o que pensa antes mesmo de me conhecer. Mas existe uma diferença entre saber quem eu sou e aceitar uma culpa que não é minha. E alguém está tentando fazer exatamente isso. Está colocando merda nas minhas costas. Está deixando rastros para que pareça que tudo começa aqui. E agora Marcela aparece seguindo esses rastros. Talvez ela seja apenas uma jornalista que acreditou nas pistas erradas. Talvez tenha sido usada. Ou talvez esteja escondendo alguma coisa. Ainda não sei. E esse é o problema. Eu não consigo trabalhar com dúvidas. Preciso de fatos. Volto para dentro. No caminho, passo novamente pela sala onde Marcela está. Paro diante da porta. Não entro. Escuto. Silêncio. Bato duas vezes. Nenhuma resposta. Abro. Ela está exatamente onde a deixei. Sentada no chão, encostada na parede. Os joelhos continuam junto ao peito. Os olhos estão inchados. Ela levanta a cabeça assim que me vê. O olhar dela muda imediatamente. Medo. Raiva. Desconfiança. Tudo misturado. Eu fico alguns segundos olhando para ela. A lembrança de poucos minutos atrás volta com força. O corpo dela caindo. O choro. A forma como ela pediu para eu sair. Eu travo o maxilar. — Você vai sair daqui. Ela me encara. — Pra onde? — Pra minha casa. Os olhos dela se arregalam. — Não. — Não foi uma pergunta. Ela se levanta devagar. — Eu não vou para lugar nenhum com você. — Vai. — Você não pode fazer isso. — Posso. — Eu não quero! — Eu sei. Ela limpa o rosto com as mãos. — Por que sua casa? — Porque lá eu consigo garantir sua segurança. Ela solta uma risada amarga. — Segurança? A palavra vem carregada de indignação. — Você me sequestrou e está falando de segurança? Eu fico em silêncio. Ela respira fundo. — Eu tenho medo de você. Aquilo me atinge de um jeito estranho. Não demonstro. — É melhor ter. Ela me encara com raiva. — Eu te odeio. Assinto uma vez. — Eu sei. — Então por que está fazendo isso? Olho para ela. Porque eu não confio em ninguém. Porque alguém está tentando me incriminar. Porque você pode ser uma peça nessa merda toda. Porque eu não consigo simplesmente mandar te matarem. Porque, contra toda lógica, alguma coisa em mim travou quando você caiu naquele chão. Nenhuma dessas respostas sai da minha boca. — Porque você ouviu demais. Ela abaixa os olhos. — Eu não entendi nada. — Eu sei. — Então me deixa ir. — Não. Ela volta a me olhar. — Você é horrível. Não respondo. Talvez seja verdade. Talvez seja exatamente o que eu precise ser. Dou um passo para trás. — Vão trazer suas coisas. Ela franze a testa. — Minhas coisas? — O que você tiver. — Meu telefone? Penso por um instante. — Ainda não. — Por quê? — Porque eu ainda preciso descobrir se sua amiga está com alguém. Ela fica tensa. — Gleice... O nome escapa. Eu guardo imediatamente. Então esse é o nome da outra. Tinha apagado da memória, mas ela me recordou. Gleice. Ela percebe o que acabou de fazer. — Você... — Gleice — repito. Ela fecha os olhos. — Você não vai fazer nada com ela. — Se ela não fizer nenhuma merda, ninguém vai fazer nada. — Ela não fez nada! — Então não tem motivo para ter medo. — Você não entende! — Entendo mais do que você imagina. Ela me encara. — Não. Você não entende. Fico alguns segundos em silêncio. Talvez ela realmente não entenda. Talvez, se estivesse no meu lugar, enxergasse tudo de outra forma. Se soubesse que alguém está tentando montar uma história inteira para colocar nas minhas costas. Se soubesse que cada pista encontrada por ela pode ter sido colocada exatamente para levá-la até mim. Se soubesse que, enquanto ela procura respostas, existe alguém procurando uma maneira de destruir o meu comando. Talvez entendesse. Ou talvez não. Eu já não sei. — Vamos. Ela não se mexe. — Marcela. Ela aperta os braços ao redor do próprio corpo. — Eu não vou fugir. — Então facilita. Ela hesita. Depois começa a caminhar. Passa por mim sem olhar. Eu a acompanho. Não encosto nela. Não preciso. Os homens abrem caminho. E, enquanto seguimos pelo corredor, uma única certeza permanece na minha cabeça: Eu trouxe para dentro da minha casa a mulher que pode ser uma das peças da armação que estão construindo contra mim. E, a partir de agora, vou ter que descobrir se Marcela é apenas uma testemunha... ou se alguém colocou aquela mulher no meu caminho por um motivo que eu ainda não consigo enxergar.
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