Marcela Narrando
Eu não consigo acreditar que estou sentada na frente dele.
O homem que comanda o Cantagalo.
O mesmo homem que me encontrou escondida dentro de um lugar onde eu jamais deveria estar.
O mesmo homem que decidiu que eu não vou embora.
Minha respiração está presa no peito.
Os meus dedos se apertam uns contra os outros sobre o colo enquanto tento controlar o tremor das minhas mãos.
Carrasco está sentado à minha frente, completamente calmo.
Calmo demais.
Ele parece não ter pressa.
Parece que pode ficar ali por horas me encarando até conseguir arrancar de mim exatamente aquilo que quer.
— Começa pelo motivo de você ter vindo ao Cantagalo — ele repete.
Engulo em seco.
— Eu vim por causa do desaparecimento do Eduardo Martins.
Ele não demonstra reação.
— Eu sei.
— Então você já sabe.
— Sei que você é jornalista. Sei que estava investigando o caso. Sei que entrou aqui acompanhada de outra mulher. O que eu quero saber é o que você descobriu.
Baixo os olhos.
— Eu não descobri muita coisa.
— Isso é o que você está dizendo.
— É a verdade.
Ele permanece em silêncio.
Aquele silêncio me incomoda mais do que se estivesse gritando.
— Você estava escondida — ele continua. — Estava ouvindo uma conversa minha com o Da Vasco.
Meu coração acelera.
— Eu não estava tentando ouvir.
— Mas ouviu.
— Sim.
— Então me diga o que ouviu.
Levanto o rosto.
— Eu não tenho como falar.
As sobrancelhas dele se juntam.
— Como não?
— Porque eu não tive contexto.
Ele fica me encarando.
— Explica.
Respiro fundo.
— Eu ouvi vocês falando, mas cheguei no meio da conversa. Não sei do que vocês estavam falando antes. Não sei quem é a pessoa que vocês mencionaram. Não sei o que aconteceu. Não sei quem está traindo quem. Eu não entendi a situação inteira.
Ele apoia os braços nas pernas.
— Então fala o que você escutou.
Fico alguns segundos em silêncio.
— Eu quero entender o que você escutou.
A forma como ele fala faz meu estômago se revirar.
Parece uma ordem.
Não um pedido.
— Eu ouvi você dizendo que não tinha sido coincidência.
Ele não se mexe.
— Continue.
— Depois você falou que alguém tinha entregado informações.
Os olhos dele continuam presos aos meus.
— Mais alguma coisa?
— O Da Vasco perguntou se você tinha certeza.
— E?
— Você disse que sabia.
Ele inclina a cabeça.
— Foi só isso?
— Foi.
— Tem certeza?
— Tenho.
Ele se levanta.
Meu corpo inteiro reage ao movimento.
A cadeira arrasta no chão.
Carrasco passa a mão pela nuca e começa a andar lentamente pela sala.
— Então eu falei à toa?
Franzo a testa.
— O quê?
Ele olha para mim.
— Você entrou no Cantagalo, se escondeu para ouvir uma conversa, foi pega, virou minha prisioneira e agora me diz que não entendeu nada.
— Eu não pedi para ser sua prisioneira!
Minha voz sai mais alta do que eu pretendia.
Ele para.
— Eu sei.
— Então por que eu estou aqui?
— Porque você ouviu uma conversa que não deveria.
— Eu já falei o que ouvi!
— E eu ouvi.
Ele se aproxima alguns passos.
— Mas isso não muda o fato de que você continua sendo uma testemunha.
Sinto os olhos arderem.
— Então eu falei à toa?
Ele me encara.
— Não.
— Então vou continuar aqui?
A resposta demora apenas um segundo.
— Aqui não.
Meu peito aperta.
— Como assim?
— Você não vai ficar nessa sala.
Por um instante, sinto um pequeno alívio.
Mas ele continua:
— Vai continuar no Cantagalo.
O alívio desaparece imediatamente.
— Sob a minha supervisão.
Fico olhando para ele sem acreditar.
— Então não adiantou de nada eu falar.
Ele não pisca.
— Adiantou sim.
— O quê?
— Você está viva.
A frase me atinge como um tapa.
Meu corpo reage antes da minha cabeça conseguir pensar.
Levanto de uma vez.
— Você é um desgraçado!
Dou um passo na direção dele.
Ele permanece parado.
— Você me sequestra, me prende aqui e ainda fala como se eu tivesse que agradecer porque estou viva?
Empurro o peito dele.
Uma vez.
Depois outra.
— Eu quero ir embora!
Ele segura meu pulso.
Eu puxo o braço.
— Me solta!
— Marcela.
— Não encosta em mim!
Empurro novamente.
Dessa vez com toda a força que consigo.
— Eu não fiz nada para você!
Bato no peito dele.
Uma.
Duas vezes.
As lágrimas começam a cair.
— Eu só estava trabalhando!
Ele segura meus braços.
— Para.
— Eu odeio você!
Tento me soltar.
— Me solta!
Ele perde a paciência.
Num movimento brusco, me empurra.
Meu corpo perde o equilíbrio.
Eu caio no chão.
O impacto faz minhas mãos arderem.
Por alguns segundos, fico sem reação.
Só consigo olhar para ele.
Carrasco também está parado.
O rosto dele mudou.
Não existe mais aquela calma fria.
Ele parece ter percebido o que acabou de fazer.
Mas eu não espero nenhuma explicação.
Me arrasto para trás até encostar na parede.
Meu coração dispara.
Puxo os joelhos contra o peito e abraço minhas próprias pernas.
— Sai daqui!
Minha voz falha.
Ele não se mexe.
— Sai daqui agora!
Começo a chorar de verdade.
Não consigo mais segurar.
O medo, a raiva, a saudade da minha casa, a preocupação com Gleice, tudo parece explodir ao mesmo tempo.
— Eu quero ir embora!
Minha voz ecoa pela sala.
— Eu quero minha amiga!
Ele continua parado.
— Você não entende? — grito. — Eu não sei de nada!
As lágrimas escorrem pelo meu rosto.
— Eu não sei quem está traindo você! Eu não sei o que aconteceu com aquele homem! Eu não sei por que vocês estavam falando aquelas coisas!
Minha respiração fica descompassada.
— Eu só queria fazer uma reportagem!
Ele permanece em silêncio.
— Eu só queria uma matéria!
A frase sai entre soluços.
— Eu trabalhei tanto para conseguir alguma coisa...
Passo as mãos pelo rosto.
— Eu acabei de me formar.
Minha voz diminui.
— Eu nem consegui começar direito.
Olho para ele novamente.
— E agora eu estou presa aqui.
Ele dá um passo.
Eu imediatamente me encolho.
— Não.
Ele para.
— Não chega perto de mim.
Minha voz sai baixa, mas firme.
— Eu não quero você perto de mim.
Ele fica parado.
Eu abraço os joelhos com mais força.
— Sai.
Por alguns segundos, ninguém fala.
Consigo ouvir apenas minha própria respiração.
Então ele olha para mim.
Não sei o que existe naquele olhar.
Não sei se é raiva.
Se é arrependimento.
Se é apenas irritação.
Não quero saber.
Só quero que ele vá embora.
Ele finalmente se vira.
Caminha até a porta.
Antes de sair, para.
Eu não levanto os olhos.
— Ninguém vai entrar aqui sem minha autorização — ele diz.
Não respondo.
— E ninguém vai encostar em você.
Continuo em silêncio.
— Mas você continua no Cantagalo.
Fecho os olhos.
Uma lágrima cai sobre meu joelho.
A porta se abre.
Ele sai.
A porta se fecha.
E eu finalmente deixo o choro sair completamente.
Enterro o rosto nos braços.
— Gleice...
O nome da minha amiga escapa dos meus lábios.
Meu peito dói.
Eu não sei onde ela está.
Não sei se conseguiu sair.
Não sei se alguém encontrou ela.
Não sei se está segura.
E isso é o que mais me assusta.
Levanto lentamente a cabeça e olho para a porta.
Eles podem ter me encontrado.
Mas Gleice conseguiu escapar.
Pelo menos é nisso que preciso acreditar.
Porque, se alguma coisa aconteceu com ela por minha causa, eu nunca vou conseguir me perdoar.
Passo as mãos pelos cabelos, tentando respirar.
— Calma, Marcela...
Falo comigo mesma.
— Calma.
Mas não existe calma.
Não quando estou presa dentro do Cantagalo.
Não quando minha amiga está desaparecida.
Não quando um homem que eu conheci hoje decidiu que a minha liberdade depende dele.
E muito menos quando eu ainda não faço ideia de como vou sair daqui.