Ela começa a chorar.
As lágrimas descem pelo rosto enquanto ela continua me encarando, como se estivesse tentando encontrar alguma coisa na minha expressão.
Piedade.
Medo.
Talvez uma brecha.
Não sei.
E, sinceramente, não me interessa descobrir.
Eu continuo andando pelo corredor estreito, ouvindo os passos dos homens atrás de mim e o choro abafado dela alguns metros à frente. A voz dela não sai mais. É só aquele som baixo, irritante, de quem está tentando respirar enquanto segura o desespero dentro do peito.
Não funciona comigo.
Já vi homens armados implorarem pela própria vida.
Já vi gente mentir olhando diretamente nos meus olhos.
Já vi traição suficiente para entender que lágrimas não significam p***a nenhuma.
Então paro.
— Da Vasco.
Ele para no mesmo instante.
Olho para ele e depois para a garota.
Ela abaixa o rosto por um segundo, mas logo volta a me encarar.
— Leva ela pra sala da boca.
Da Vasco franze a testa.
— Pra sala?
— É.
— E depois?
Passo a língua lentamente pelo canto da boca, pensando.
Não posso simplesmente deixar aquela mulher andando pelo Cantagalo.
Não depois do que ela ouviu.
Não depois de ter aparecido justamente naquele lugar, justamente naquele momento.
— Depois eu decido onde ela vai ficar.
Da Vasco me observa por alguns segundos.
Ele me conhece bem o suficiente para saber que, quando eu digo que vou decidir alguma coisa depois, significa que ainda estou avaliando todas as possibilidades.
Ele olha para ela.
— E se ela tentar fugir?
— Não vai tentar.
Ela arregala os olhos.
Parece surpresa com a minha certeza.
Dou um passo na direção dela.
— Vai?
Ela engole em seco.
Não responde.
Apenas balança a cabeça negativamente.
— Ótimo.
Me viro para os homens.
— Quero mais gente procurando a outra.
Um deles imediatamente se aproxima.
— A amiga?
— A outra mulher que estava com ela.
— Já estamos procurando.
— Então procurem melhor.
Minha voz sai baixa.
Não preciso gritar.
— Quero saber por onde ela saiu, quem viu, onde se escondeu e se alguém ajudou. Quero informação, não desculpa.
— Sim, patrão.
Os homens se afastam.
Da Vasco continua parado ao meu lado.
— Se ela conseguiu sair daqui...
— Eu sei.
— E se ela for direto pra polícia?
Olho para ele.
— Ela é jornalista.
— Justamente.
Fico alguns segundos em silêncio.
Essa parte é o que mais me incomoda.
Uma pessoa comum poderia desaparecer por algumas horas e ninguém prestaria atenção.
Uma jornalista não.
Ela tem telefone.
Tem contato.
Tem gente esperando notícia.
Tem uma amiga que sabe onde ela estava.
E, pior ainda, tem uma história para contar.
Eu olho novamente para a garota.
Ela permanece parada entre dois homens, abraçando o próprio corpo.
Ainda está chorando.
Ainda parece não entender onde está.
Mas sabe o suficiente para estar com medo.
— Qual é o nome dela mesmo?
Da Vasco responde:
— Marcela Barreto.
O nome fica na minha cabeça.
Marcela.
— E a outra?
— Gleice.
Assinto.
— Descubram onde ela está.
Da Vasco se aproxima dela.
— Anda.
Ela hesita.
Olha para mim.
Eu sustento o olhar.
— Não me faça mandar alguém te carregar.
Ela limpa rapidamente uma lágrima com a ponta dos dedos.
— Eu posso andar.
A voz sai baixa.
Quase falhando.
— Então anda.
Ela começa a seguir Da Vasco.
Eu permaneço parado enquanto os dois se afastam.
Não sei explicar por que continuo olhando.
Talvez seja porque alguma coisa naquela mulher não encaixa.
Ela estava naquele lugar.
Sozinha.
Com outra mulher.
Escondida.
Ouvindo uma conversa que não deveria ouvir.
E, quando foi descoberta, entrou em pânico.
Uma jornalista.
Recém-formada.
Investigando justamente o caso que está sendo usado para colocar uma mira nas minhas costas.
Coincidência demais.
Eu não acredito em coincidências.
Nunca acreditei.
— Patrão.
Viro o rosto.
Um dos homens que ficou para trás se aproxima.
— Fala.
— Quer que a gente pegue o telefone dela?
Olho para ele.
— Por enquanto, não.
Ele espera.
— Mas deixa separado.
— Sim.
Ele se afasta.
Respiro fundo e passo a mão pela nuca.
Eu poderia simplesmente destruir o telefone.
Seria mais fácil.
Mas facilidade nunca foi o meu objetivo.
Se a amiga dela estiver com o próprio telefone, provavelmente vai tentar entrar em contato.
E, se não conseguirmos encontrá-la, o aparelho de Marcela pode servir para descobrir quem está procurando por ela.
Não preciso de mais problemas.
Preciso de controle.
É diferente.
Caminho de volta até a sala onde eu estava conversando com Da Vasco antes de tudo acontecer.
A porta continua aberta.
Entro.
A cadeira onde eu estava sentado ainda está no mesmo lugar.
Sento.
Por alguns segundos, fico apenas olhando para a mesa.
A conversa que eu tinha antes da interrupção volta à minha cabeça.
Alguém dentro da minha própria estrutura está passando informação.
Alguém está mexendo peças por baixo do meu nariz.
E agora uma jornalista aparece seguindo pistas que levam diretamente para o meu território.
Não gosto disso.
Muito menos da sensação que começa a se formar dentro do meu peito.
Desconfiança.
Não da garota.
Ainda não.
Da situação.
Pego o celular e vejo algumas mensagens.
Nada sobre a outra mulher.
Nada sobre o paradeiro dela.
Nada.
Bato os dedos na mesa.
— Merda.
Da Vasco entra alguns minutos depois.
Fecha a porta atrás de si.
— Ela está na sala.
Levanto os olhos.
— Sozinha?
— Com dois homens do lado de fora.
Assinto.
— Ela perguntou alguma coisa?
— Perguntou onde está.
Quase sorrio.
— E você respondeu?
— Que não era da conta dela.
Olho para ele.
— Fez certo.
Da Vasco se encosta na parede.
— Carrasco...
— Fala.
— Eu não acho que ela seja X9.
Meu olhar endurece.
— Você acha que eu não pensei nisso?
— Não foi o que eu disse.
— Então diz o que você quer dizer.
Ele suspira.
— Acho que ela realmente entrou aqui atrás da história do desaparecimento.
Fico em silêncio.
— Ela parecia assustada demais quando foi pega — continua. — Não tinha postura de quem veio preparada para alguma coisa.
— Pessoas inteligentes sabem fingir medo.
— E pessoas desesperadas também.
Cruzo os braços.
— Você está defendendo ela?
— Estou tentando entender.
— É diferente?
— Bastante.
Olho para ele por alguns segundos.
Da Vasco sempre foi assim.
Enquanto eu penso em todas as formas de uma situação dar errado, ele tenta encontrar a parte que ainda faz sentido.
É justamente por isso que ele está ao meu lado.
— Ela disse que é jornalista — falo.
— Disse.
— E disse que está investigando Eduardo Martins.
— Também.
— Isso não explica como ela encontrou aquelas pistas.
Da Vasco fica sério.
— Talvez alguém tenha entregado.
— Talvez.
— Ou talvez ela tenha descoberto sozinha.
— Não acredito nisso.
Ele não responde.
Eu me levanto.
— Quero saber tudo sobre ela.
— Tudo?
— Tudo que conseguirmos descobrir sem chamar atenção.
Da Vasco assente.
— Vou atrás.
Dou alguns passos até a janela.
Lá fora, o Cantagalo continua vivo.
Motos passam.
Vozes ecoam entre as vielas.
Uma música toca distante.
Crianças ainda correm por algum lugar.
A vida continua como se nada tivesse acontecido.
Mas, dentro daquela sala, eu sei que alguma coisa mudou.
Não porque Marcela está aqui.
Mas porque ela chegou carregando uma história que alguém fez questão de empurrar para dentro do meu território.
E eu preciso descobrir quem.
— E a amiga? — pergunto.
Da Vasco olha o celular.
— Ainda nada.
Viro lentamente para ele.
— Então aumenta a procura.
— Já mandei.
— Manda mais.
Ele assente.
— E se não encontrarmos?
Fico alguns segundos em silêncio.
Minha resposta sai calma.
— Então usamos a única coisa que ela deixou aqui.
Da Vasco entende imediatamente.
— O telefone.
— Exatamente.
— E o que você pretende fazer?
Olho para a porta fechada.
Atrás dela está a mulher que, até poucas horas atrás, era apenas uma jornalista atrás de uma história.
Agora ela é uma testemunha dentro do meu território.
— Primeiro, eu quero saber quem é Marcela Barreto.
Da Vasco cruza os braços.
— E depois?
Meu olhar permanece na porta.
— Depois eu descubro o que ela sabe.
Ele não pergunta mais nada.
Sai da sala.
Eu fico sozinho.
Por alguns segundos, penso em ir embora.
Mas não consigo.
Alguma coisa me faz andar até a porta.
Abro.
Os dois homens que estão de guarda se endireitam.
— Ela está quieta? — pergunto.
— Está.
— Chorando?
Um deles hesita.
— Um pouco.
Faço um gesto para que continuem onde estão.
Entro.
Marcela está sentada em uma cadeira no canto da sala.
O rosto ainda está molhado.
Os óculos estão tortos.
O cabelo está bagunçado.
Ela levanta os olhos assim que me vê.
E, pela primeira vez desde que a encontrei, não desvia.
Fico parado diante dela.
Ela parece querer dizer alguma coisa.
— O quê? — pergunto.
Ela respira fundo.
— Eu quero ir embora.
A frase é simples.
Direta.
Quase inocente.
Mas a resposta também é simples.
— Não.
Os olhos dela se enchem de lágrimas outra vez.
— Eu não fiz nada.
— Fez.
— O quê?
Dou um passo à frente.
— Você ouviu uma conversa que não era sua.
Ela fica em silêncio.
— E agora eu preciso saber exatamente quanto você ouviu.
Ela aperta as mãos sobre o colo.
— Eu não entendi tudo.
— Então me conta o que entendeu.
Ela me encara.
Dessa vez, não há apenas medo no olhar.
Existe resistência.
— Eu não vou inventar uma coisa que não ouvi.
A frase me faz parar.
Observo aquela garota por alguns segundos.
Ela está assustada.
Está presa.
Está sozinha.
Mas ainda consegue responder.
Interessante.
— Não precisa inventar.
Puxo uma cadeira e me sento à frente dela.
— Só precisa falar a verdade.
Ela engole em seco.
— E depois você vai me deixar ir?
Não respondo.
Ela percebe.
O silêncio entre nós fica pesado.
Então ela abaixa os olhos.
Eu me inclino um pouco para frente.
— Começa pelo motivo de você ter vindo ao Cantagalo.
Ela respira fundo.
E começa a falar.