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1622 Words
Carrasco Narrando A conversa é interrompida por um barulho vindo do lado de fora. Um ruído pequeno. Seco. Mas suficiente para me fazer parar. Da Vasco também fica em silêncio. Nós dois nos encaramos por um segundo. — Ouviu? — ele pergunta, baixo. Faço que sim com a cabeça. Não respondo. Presto atenção novamente. Nada. Só o vento passando pelas estruturas antigas e alguns sons distantes do morro. Então acontece outra vez. Um passo. Dessa vez, não tenho dúvida. Tem alguém lá fora. Faço um sinal para Da Vasco e saímos da construção sem pressa. Não quero alertar quem quer que esteja nos observando. Assim que atravesso a porta, olho para os lados. Nada. Da Vasco segue pela lateral. Eu caminho pelo outro lado, mantendo os olhos atentos. Não demoramos muito para perceber uma movimentação. Uma sombra passa rapidamente perto de uma parede. Depois outra. São duas pessoas. Mulheres. — Tem duas — Da Vasco murmura. Faço um sinal para cercarmos. A mulher que está mais perto percebe nosso movimento primeiro. Ela para. Por um instante, parece que vai permanecer escondida. Mas então olha para trás. Provavelmente percebe que Da Vasco está fechando o caminho. Ela recua. Eu avanço. — Ei. Ela se vira. A outra mulher está mais distante. Consigo vê-la por apenas um segundo antes que ela se esconda atrás de uma construção. A primeira também percebe. E corre. — Pega ela! — Da Vasco grita. A mulher dispara pelo caminho. Eu vou atrás. Ela não conhece o lugar. Isso fica evidente pela maneira como corre, olhando para os lados e tentando escolher uma direção. Ela dobra uma esquina. Eu acelero. Da Vasco vem pelo outro lado. A mulher percebe que está cercada e tenta voltar. É quando eu apareço na frente dela. Ela freia bruscamente. Os olhos arregalam. Ela fica imóvel. Está usando óculos. Tem uma mochila presa ao corpo e segura alguma coisa contra o peito. O celular. — Fica parada — ordeno. Ela não se mexe. Da Vasco aparece atrás dela. Agora não existe saída. Ela olha para mim. Depois para ele. Volta a olhar para mim. — Eu... A voz sai trêmula. — Quem é você? Ela não responde. — Eu perguntei quem é você. — Eu estava só... Ela para. — Só o quê? — Procurando uma coisa. Olho para Da Vasco. Ele cruza os braços. — Procurando o quê? Ela aperta os lábios. — Uma informação. — Informação sobre quem? — pergunto. Ela não responde. O silêncio dela me deixa ainda mais desconfiado. — Você estava escutando nossa conversa? — Não. A resposta é rápida. Rápida demais. — Estava. — Eu não estava. — Então por que correu? Ela abre a boca, mas não responde. Olho para o caminho atrás dela. A outra mulher desapareceu. — Cadê a outra? A garota fica imóvel. — Que outra? — Não brinca comigo. — Eu não sei. — Ela veio com você. Ela abaixa os olhos por um instante. — Sim. — Onde está? — Eu não sei. Da Vasco olha para mim. — Ela está escondendo. — Eu sei. Volto a encarar a garota. — Vocês entraram aqui juntas? — Sim. — Por quê? — Eu já disse. Estava procurando uma informação. — Que informação? Ela permanece calada. Meu olhar desce para a mochila. — Abre. Ela segura a alça com mais força. — Não. — Abre. — Não tem nada aí. — Então não deveria ter problema em mostrar. Ela não responde. Dou um passo em sua direção. Ela imediatamente recua. — Não chega perto. A coragem aparece por um instante. Ou talvez seja apenas medo. — Você entrou no meu território, estava escondida perto de uma conversa minha e tentou fugir quando percebeu que tinha sido descoberta. E agora quer me dizer o que eu posso ou não fazer? Ela engole em seco. — Eu não queria ouvir. Essa frase me faz parar. Então ela ouviu. — O que você ouviu? — Nada. — Não minta. — Eu não entendi. — Não foi o que perguntei. Ela respira fundo. — Eu ouvi vocês falando. Da Vasco olha para mim. Eu permaneço imóvel. — Sobre o quê? Ela não responde. — Fala. — Eu não sei. — Você acabou de dizer que ouviu. — Eu ouvi algumas coisas, mas não entendi o contexto. Observo o rosto dela. Ela parece estar falando a verdade dessa vez. Mas isso não muda o problema. Ela ouviu. E uma testemunha pode ser perigosa mesmo sem entender tudo. — Quem mandou vocês? — Ninguém. — Quem passou a informação? — Que informação? — Não faz isso. Ela fica em silêncio. — Você sabe do que estou falando. — Eu não trabalho para ninguém. — Todo mundo trabalha para alguém. — Eu não. Da Vasco se aproxima. — Carrasco, ela está com alguma coisa na mochila. A garota imediatamente olha para ele. — É só meu material. — Material de quê? Ela hesita. — Jornalismo. Meu olhar se estreita. Jornalismo. Lembro do aviso que recebi. Uma jornalista viria ao Cantagalo. Mas ainda não faço a ligação. Não sei se aquela garota é a pessoa que estavam esperando. Pode ser apenas alguém acompanhando. — Você é jornalista? Ela assente. — Sim. — Trabalha para quem? — Estou fazendo uma investigação independente. — Sobre? Ela respira fundo. — Eduardo Martins. Agora tudo se encaixa. O desaparecimento. As pistas. A movimentação. A presença dela. Mesmo assim, ainda não sei o nome. E não pergunto imediatamente. — Você veio aqui sozinha? — Com minha amiga. — A outra? — Sim. — Nome? Ela hesita. — Gleice. Guardo o nome. — E você? Ela fica quieta. Da Vasco olha para ela. — Ele perguntou seu nome. Ela finalmente responde: — Marcela. Marcela. Então é ela. A jornalista. A garota que estava investigando o desaparecimento. A mesma que tinha deixado seus dados na associação de moradores. Agora entendo por que sua presença chegou até nós antes mesmo de ela subir. Não era uma invasão planejada. Ela avisou que viria. Mesmo assim, acabou ouvindo algo que não deveria. — Marcela Barreto? Ela arregala os olhos. — Como você sabe? Não respondo. Ela percebe que isso não é uma boa notícia. — Vocês estavam me esperando? — Não exatamente. — Então por que sabem quem eu sou? — Porque você fez questão de anunciar que viria. Ela fica em silêncio. Lembro da informação que recebemos. A jornalista. Recém-formada. Investigando Eduardo Martins. Eu não sabia que ela seria encontrada tão perto de nós. Agora sei. — Você precisa entender uma coisa — digo. — O quê? — Você não está mais aqui como jornalista. Ela franze a testa. — Como assim? — Você virou uma testemunha. O rosto dela perde a cor. — Eu não vou contar nada. — Ainda não perguntei se vai. — Então me deixa ir. — Não. Ela dá um passo para trás. — Eu não posso ficar aqui. — Pode. — Minha amiga está escondida. — E nós vamos encontrá-la. — Não machuquem ela. — Se ela não fizer nada, ninguém toca nela. Marcela me encara. — E eu? Não respondo. Ela parece entender a ausência da resposta. O desespero toma conta do rosto dela. — Por favor. Ela tenta passar por mim. Seguro seu braço. — Me solta! Ela se debate. — Fica quieta. — Eu não fiz nada! — Você ouviu uma conversa que não era para ouvir. — Eu não entendi nada! — Isso não muda o fato de que ouviu. Ela tenta puxar o braço novamente. — Eu preciso ir embora. — Não vai. — Por quê? — Porque ainda não sei o que você sabe. Ela me encara com os olhos marejados. — Eu já disse tudo. — Não disse. — Disse, sim. — Então vai repetir. — Não! A resposta sai mais alta. Olho para ela. Ela imediatamente baixa o tom. — Desculpa. Da Vasco observa tudo em silêncio. Eu conheço aquele olhar. Ele está tentando entender por que ainda não dei uma ordem definitiva. Eu também deveria saber. Uma testemunha naquele lugar é um risco. A solução mais simples seria eliminar o risco. Mas não faço isso. — Leva ela — digo. Marcela fica imóvel. — Para onde? Não respondo. — Não, espera. Ela começa a se desesperar. — Por favor, não. Da Vasco segura o braço dela. — Anda. — Não! Ela olha para mim. — Eu não posso desaparecer. — Você não vai desaparecer. — Então me deixa ir. — Não. — Minha família vai procurar por mim. — Então você vai ficar quieta e não vai obrigar ninguém a procurar por você. Ela fica em silêncio. A frase parece assustá-la ainda mais. Da Vasco começa a conduzi-la. Ela olha para trás. — Gleice! Ninguém responde. — Gleice! A voz dela falha. Ela tenta se soltar. — Minha amiga está aqui! Faço um sinal para dois homens. — Procurem a outra. Eles saem imediatamente. Marcela acompanha os homens com os olhos. — Não façam nada com ela. — Já dei minha ordem. — Qual? — Ninguém machuca sua amiga. Ela respira fundo. Parece um pouco mais calma. Só um pouco. Enquanto Da Vasco a leva, caminho ao lado. Marcela permanece em silêncio durante alguns metros. Até que pergunta: — Você é o Carrasco? Paro por um instante. Olho para ela. Ela provavelmente já ouviu o nome. Talvez tenha vindo justamente por causa dele. — Você já sabe a resposta. Ela baixa os olhos. Continuamos andando. Eu não digo mais nada. Também não preciso. Ela acabou de entrar no Cantagalo para procurar respostas. Agora está sob meu controle. E, antes de decidir o que fazer com ela, preciso descobrir exatamente o que Marcela Barreto ouviu naquela conversa.
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