Carlos pigarreou, tentando dissipar o ar pesado que se instalara entre eles.
— Não é tão r**m quanto parece, senhor Villar. A Elisa é obediente, sabe lidar bem com pessoas… com o tempo, o senhor vai ver.
Dante ainda a olhava, o maxilar travado. Por dentro, um nó de frustração apertava seu peito.
O nome já havia sido anunciado. O casamento, marcado. A imprensa local, convidada. Cancelar tudo às vésperas seria um escândalo. E trocar de noiva? Impossível.
Ele bufou, num riso sem humor.
— As fotos que me mandaram, Moreti… — ele balançou a cabeça, rindo de puro desespero. — Eram de qualquer mulher, menos dessa aí.
— Eram dela, sim. — Carlos rebateu com firmeza. — Só estava mais… arrumada.
Dante passou a mão no rosto, praguejando baixo. O sangue pulsava nas têmporas. Sem mais o que dizer, ele se aproximou e segurou o braço de Elisa — com mais força do que deveria.
Ela arfou.
— Solta. — pediu, tentando recuar, mas o aperto dele apenas aumentou.
— Você vai me ouvir. — rosnou.
Karla deu um passo à frente, mas o pai ergueu a mão, o olhar duro.
— Fica onde está, Karla.
Elisa tentou se desvencilhar.
— Eu pedi pra soltar!
Os olhos de Dante se estreitaram.
— Nunca mais levante a voz pra mim. E muito menos me morda.
Ela o fitou com raiva, o queixo erguido apesar das lágrimas ainda presas nos cílios.
— Ou o quê? — desafiou. — Vai me bater?
Ele a soltou no mesmo instante, como se tivesse tocado fogo.
— Claro que não. — respondeu, num tom quase ofendido. — Eu não sou esse tipo de homem.
— Parece que é. — retrucou ela, baixinho, mas o bastante pra ele ouvir.
— Você é muito bocuda. — Dante devolveu, irritado. — E eu odeio isso. Vai aprender a calar essa boca.
Carlos lançou a filha um olhar que a gelou por dentro — aquele mesmo olhar que, desde criança, era um aviso silencioso de que as consequências viriam depois. Elisa engoliu em seco, o peito subindo e descendo depressa.
— Me desculpa. — murmurou, sem encará-lo.
— É melhor assim. — Dante respondeu seco, e tornou a segurar o braço dela. — Vamos.
— Eu não vou a lugar nenhum com você. — disse Elisa, puxando o braço com força, libertando-se.
Ele inspirou fundo, a paciência se esfarelando.
— Você sabe se comportar, ao menos? À mesa?
Ela revirou os olhos, cansada daquela humilhação.
— Sei. Já provei isso pra Clara ontem, quando jantamos.
Um músculo se moveu no rosto dele, e por um segundo ela jurou ver um traço de surpresa — talvez até respeito, mas passou rápido.
— Pelo menos isso. — murmurou. — Você tem alguma roupa que preste?
Elisa olhou pro pai, que permaneceu em silêncio.
— Não. As roupas novas… fora pra sua casa. — respondeu.
Dante suspirou, irritado. Pensou rápido.
— Então vamos resolver isso.
— Pra onde você vai me levar? — perguntou, desconfiada.
— Consertar essa cara, esse cabelo, e arrumar algo decente para vestir. — respondeu ele, sem rodeios. — Você não vai conhecer meus pais parecendo uma mendiga.
Elisa sentiu o rosto queimar. Segurou o impulso de responder.
Dante se virou para a família, num tom quase cínico:
— Senhores Moreti. Foi… um prazer.
Sem esperar resposta, puxou Elisa pelo braço outra vez, conduzindo-a até a porta.
Ela tentou acompanhá-lo, tropeçando um pouco, o coração disparado — mais de ódio do que de medo.
Quando cruzou o batente, olhou por cima do ombro uma última vez.
Karen, ao fundo, ainda o seguia com os olhos brilhando.
Do lado de fora, o sol batia forte, e o calor misturava-se ao gosto amargo da vergonha.
Elisa respirou fundo, tentando não desabar.
Dante, ao lado, destravou o carro.
— Entra. — disse apenas.
Ela hesitou por um segundo. Depois, sem outra escolha, obedeceu.
O motor ligou. E, com ele, a certeza amarga de que o inferno, às vezes, tinha o rosto bonito de um homem chamado Villar.
O ronco do motor foi se afastando até sumir na curva de terra que levava ao portão.
Karen ficou parada na varanda, com os dedos crispados no corrimão enferrujado. O vento balançava as cortinas da sala e fazia o som da dobradiça da porta ranger — como se a própria casa lamentasse o que acabara de acontecer.
— Papai, volta atrás… — a voz dela saiu quase trêmula, mas carregada de uma doçura treinada. — Ele vai adorar casar comigo, eu sei. — Tentou sorrir, os olhos ainda grudados na estrada poeirenta. — Eu acho que me apaixonei à primeira vista.
Carlos a olhou por longos segundos. O sorriso que ela esperava encontrar simplesmente não veio.
O olhar dele, duro e impaciente, bastou para fazê-la se encolher.
— Você viu a forma como ele tratou a Elisa? — perguntou, a voz grave ecoando na varanda. — É isso que quer pra você? Ser humilhada na frente de outras pessoas?
Karen desviou o rosto, cruzando os braços, mas não respondeu.
Carlos deu um passo à frente e pousou a mão no ombro dela, o tom mais brando — ainda que forçado.
— Tem certas coisas no mundo, minha filha, que nenhum dinheiro paga. — suspirou, como quem tentava convencê-la, mas também a si mesmo. — Fica aqui pertinho do papai. Eu sempre vou cuidar de você com muito carinho.
Ele ergueu a mão, tentando fazer um carinho no rosto dela, mas Karen recuou, como se o toque o queimasse.
O gesto o feriu — ainda que ele jamais admitisse.
— Elisa também não quer isso pra ela. — a voz de Karla soou firme atrás dos dois, cortando o ar carregado.
Pai e filha mais velha se viraram ao mesmo tempo.
— Como é que é? — Carlos arqueou a sobrancelha, o olhar se estreitando.
— É incrível como nessa casa tem dois pesos e duas medidas. — Karla retrucou, o queixo erguido. — A Karen é protegida, mimada. E a Elisa… a Elisa é entregue como se fosse um fardo que o senhor quer despachar.
O silêncio que se seguiu foi tão denso que dava pra ouvir o canto distante dos grilos no quintal.
Carlos respirou fundo, controlando a raiva que ameaçava subir.
— Cuidado com o tom, Karla.
Ela apenas assentiu com um sorriso triste.
— Pode deixar. — respondeu, antes de virar as costas.
Subiu as escadas devagar, cada degrau rangendo sob seus pés. No quarto, fechou a porta e se ajoelhou ao lado da cama. As mãos se uniram em prece, o coração acelerado.
O som abafado do vento entrando pela janela se misturava à voz baixa dela, quase um sussurro:
— Que Deus proteja a Lisi… que ele não a machuque. Que ela aguente.
Lá embaixo, Carlos permanecia na varanda, olhando o ponto distante onde o carro de Villar havia desaparecido.
Karen, encostada no batente da porta, observava o pai em silêncio — o rosto ainda aceso por aquela paixão repentina e impossível.
E a casa Moreti mergulhava num silêncio desconfortável, como se as paredes tivessem ouvido mais do que deveriam.
**
O silêncio dentro do carro era tão espesso que dava pra ouvir o som do relógio no painel. Dante dirigia com o maxilar travado, os olhos fixos na estrada à frente. Elisa, imóvel no banco ao lado, observava o próprio braço. A pele clara estava marcada — cinco dedos vermelhos desenhados na carne.
Ela roçou os dedos sobre a mancha, e o ardor fez seu queixo tremer.
— Você é muito bruto — murmurou, sem olhá-lo. — Não precisava daquilo tudo.
Dante lançou-lhe um olhar rápido, depois voltou a atenção ao trânsito.
— Você me mordeu.
— Ninguém mandou você enfiar o dedo na minha boca — rebateu, mordendo as palavras.
Ele expirou com força, o som pesado no ar-condicionado. — Senhor.
Elisa franziu a testa. — O quê?
— É “senhor Villar”. — O tom foi impaciente, autoritário. — Quando se dirigir a mim.
Ela o olhou, incrédula, e soltou uma risada curta, quase debochada. — Ah, claro. Porque a única que pode ignorar essa formalidade é a Karen, né? Ela pode te chamar de Dante, pelo que ouvi.
Dante manteve o rosto impassível, o olhar ainda fixo na pista. — Sim. Karen pode me chamar como quiser. — Fez uma pausa. — Mas a senhorita, não. Senhor Villar.
Elisa bufou, cruzando os braços. — Ridículo. Nós vamos nos casar, mas eu tenho que te chamar de senhor?
— É fachada — respondeu ele, a voz sem emoção, como se estivesse dando uma ordem trivial.
Ela virou o rosto devagar, encarando-o. — Você é gay?
O canto da boca dele quase se curvou, mas ele conteve o riso. — Como chegou a essa conclusão?
— Ora, pra comprar uma noiva e ainda querer um casamento de fachada, só se for gay.
Dante arqueou uma sobrancelha, incrédulo. — Não. Não sou gay. — E então completou, frio: — E, pra constar, nem vai ser tão fachada assim. Quando eu quiser, nós vamos t*****r.
Elisa se virou inteira pra ele, o rosto em choque. — Quando você quiser? Eu sou o quê, uma boneca inflável?
Dante não piscou. — Escute com atenção — disse, a voz baixa e controlada, como se cada palavra tivesse peso. — Existem regras.
Ela engoliu em seco, mas manteve o queixo erguido.
— Exijo respeito. — Ele começou, ainda sem olhá-la. — Você vai parar de ser bocuda. Não quero conversar com você, saber do seu dia nem ouvir reclamações. Não entra no meu quarto sem ser chamada, nem no meu escritório.
— Uau, um casamento de sonhos — murmurou, sarcástica.
— E não me chame pelo nome — continuou ele, ignorando o comentário. — O meu nome é pra pessoas íntimas.
Ela arqueou uma sobrancelha, provocando. — A esposa não é íntima o suficiente?
— Você não. — A resposta veio rápida, dura. — Nunca será.
As palavras cortaram mais do que ela esperava. Uma pontada no peito. Elisa virou o rosto pra janela, tentando disfarçar o que sentia, mas a voz saiu baixa, quase um sussurro:
— Não era assim que eu imaginava o meu casamento...
Dante fingiu não ouvir.
— Quando chegar a hora — prosseguiu ele, metódico — teremos um filho.
Ela soltou um riso sem humor. — Coitada dessa criança.
Ele a ignorou completamente, o olhar firme no retrovisor.
— Eu não me importo com o que você faz do seu dia — disse depois de um tempo. — Desde que não me envolva. Vai ter um cartão e poderá comprar o que quiser. — Fez uma pausa, o tom ficando mais sombrio. — Mas há uma única coisa que você nunca poderá fazer: arranjar um amante.
Ela se virou pra ele, ofendida. — Eu nunca faria isso...
— Ótimo — interrompeu, frio. — Porque eu odeio escândalos. Não quero meu nome na mídia sendo associado a uma esposa infiel. Não quero ser ridicularizado como um chifrudo. Estamos entendidos?
Elisa respirou fundo. — Sim, senhor.
Dante assentiu, satisfeito. O carro silenciou novamente, a tensão pairando entre os dois como uma corda esticada demais.
Do lado de fora, as luzes do centro começaram a surgir, refletindo nos vidros fumês. O carro desacelerou, dobrando a esquina de um shopping luxuoso.
Elisa o reconheceu imediatamente — o mesmo lugar onde esteve com Clara no dia anterior.
— Claro... — murmurou, amarga. — De novo.
Dante estacionou, desligou o motor e soltou o cinto.
— Vamos — ordenou, abrindo a porta. — Consertar a sua cara, o cabelo... e arrumar uma roupa decente.
Ela o olhou, firme, com o mesmo orgulho ferido de antes. — E se eu não quiser?
Ele inclinou a cabeça, um meio sorriso surgindo nos lábios — frio, perigoso.
— Então, senhorita Moreti, vai ter o desprazer de conhecer o que acontece quando me fazem perder a paciência.
Elisa engoliu em seco. Mas, mesmo tremendo por dentro, empurrou a porta e saiu, mantendo o queixo erguido.
Dante a seguiu, o olhar atento, avaliando cada movimento dela — e, por um breve instante, o respeito teimoso que ela mantinha o intrigou mais do que ele gostaria de admitir.