O som das sandálias de Elisa ecoava no chão de mármore claro do shopping, tentando acompanhar o ritmo apressado de Villar. Ele caminhava como quem tinha um objetivo fixo e urgente, ignorando completamente o fato de que ela quase precisava correr para acompanhá-lo.
— Pode... — ela arfou, segurando o vestido leve que batia contra as pernas — ...andar um pouco mais devagar?
Villar nem virou o rosto.
— Anda mais rápido.
Elisa parou, firme no meio do corredor, enquanto as pessoas passavam olhando de relance.
— Eu pedi pra você ir mais devagar, não pra me deixar pra trás.
Ele parou alguns passos à frente e girou lentamente, o maxilar travado.
— Anda.
— Em público, — ela rebateu, cruzando os braços — você devia tentar ser um pouco mais simpático comigo, se quer que esse teatro de casamento dê certo. Se alguém tirar uma foto da gente agora, vai parecer que você tá fugindo de mim.
Os olhos dele brilharam com um humor seco e c***l.
— Se alguém tirar uma foto da gente agora, vai achar que eu levei a empregada da minha casa pra passear.
As palavras cortaram. Elisa sentiu o peito apertar, o rosto corar — não de vergonha, mas de raiva. Por um instante, Villar notou a expressão dela: a mágoa evidente, o orgulho ferido. E, por algum motivo que ele não quis admitir, aquilo o incomodou.
Sem dizer nada, ele soltou um suspiro discreto e reduziu o passo.
Elisa notou, mas fingiu não perceber. Seguiu ao lado dele, com a cabeça erguida, tentando ignorar o nó que ainda pesava no estômago.
O salão de beleza ficava no canto mais elegante do andar. A fachada era toda de vidro e o aroma de produtos caros escapava pelo ar-condicionado. Assim que entraram, o sino delicado da porta anunciou a chegada deles.
Uma mulher de cabelos loiros e presos num coque alto se aproximou, o sorriso afiado nos lábios. O perfume dela era forte e doce, o tipo de fragrância que tomava o espaço.
— Dante Villar… — disse, com um brilho nos olhos que dispensava apresentações. — Quanto tempo. Achei que tinha me esquecido de mim.
Ele sorriu de volta — aquele tipo de sorriso que Elisa ainda não tinha visto.
— Difícil esquecer de você, Marise.
Marise riu baixinho, tocando o braço dele com familiaridade.
— O que o traz aqui?
— Trabalho, infelizmente. — respondeu num tom leve, deixando a mão dela repousar por um segundo a mais do que o necessário. — Preciso que transforme a minha… — lançou um breve olhar para Elisa, com uma pausa sutil, quase estudada — …noiva em alguém apresentável.
Marise voltou-se para Elisa, os olhos percorrendo cada detalhe com aquele tipo de análise que parecia mais julgamento do que gentileza.
— Entendi. — sorriu, forçado. — Está em boas mãos, querida.
— Eu não tenho dúvida. — Villar respondeu antes que Elisa pudesse abrir a boca.
A troca de olhares entre ele e Marise era clara, íntima — o tipo de linguagem silenciosa que só existe entre pessoas que já se conheceram de perto.
Elisa engoliu seco. Aquela sensação — o incômodo latejante que subia pelo peito — era a mesma de quando ele estivera na casa dela, olhando para Karen do mesmo jeito.
Ou algo parecido com isso.
— Me ligue quando ela estiver pronta, Marise. — disse ele, num tom baixo, carregado de duplo sentido. — Vou esperar no carro.
— Pode deixar, Dante. — respondeu ela, sorrindo. — Vai sair daqui deslumbrante.
Elisa ficou parada por alguns segundos, observando o reflexo dos dois no espelho do salão — a forma como ele sorria pra outra, o brilho nos olhos dela.
E, sem entender exatamente por quê, sentiu vontade de chorar.
Quando ele saiu, o sino da porta soou de novo, e o som pareceu pesar no ar.
Marise voltou-se para ela, cruzando os braços.
— É um homem… intenso, não acha?
Elisa olhou o próprio reflexo no espelho.
— Intenso é uma palavra bonita pra usar.
E se sentou na cadeira, o coração ainda em chamas.
Elisa não teve tempo de reagir quando Marise estalou os dedos e, de repente, quatro funcionárias surgiram ao redor dela.
— Vamos começar pela pele — disse uma delas, puxando delicadamente o queixo de Elisa para o alto. — A pele dela é boa, mas tá descuidada.
— “Descuidada” é uma forma educada de dizer “abandonada” — comentou outra, rindo.
Elisa tentou fingir que não ouviu. Sentou-se na grande poltrona de couro branco, cercada por espelhos que refletiam seu desconforto de todos os ângulos. O ambiente era frio, perfumado demais, cheio de sons metálicos de tesouras e secadores.
A primeira etapa foi a limpeza de pele. Um vapor quente envolveu o rosto dela, o cheiro forte do produto entrando pelo nariz. Sentia cada toque como uma invasão.
Depois veio a extração, dolorida e demorada. Elisa apertava os dedos no braço da cadeira, tentando não se encolher.
— É impressionante o estado das sobrancelhas — comentou uma das esteticistas, inclinando-se sobre ela. — Quem deixou chegar assim?
Elisa não respondeu. A verdade é que nunca teve tempo ou dinheiro pra se preocupar com essas coisas.
Logo a depiladora surgiu, chamando-a para uma salinha ao fundo. O chão era frio sob os pés descalços.
— Vamos deixar tudo lisinho, querida. O senhor Villar gosta de mulheres bem cuidadas, né? — disse a mulher num tom cúmplice.
Elisa corou.
— Eu… não sei do que ele gosta. — respondeu, baixinho.
A mulher riu, um riso curto.
— Vai saber logo.
Voltou minutos depois, com a pele ardendo, sentindo-se menor do que entrou. m*l teve tempo de respirar antes de ser levada de volta à cadeira principal. Agora era o cabelo.
— Ele disse pra cortar — avisou Marise, entregando uma tesoura à cabeleireira. — Não muito curto, mas o suficiente pra parecer outra pessoa.
Os fios loiros caíam sobre o chão como uma chuva silenciosa. Elisa os observava cair no reflexo do espelho, sentindo uma estranha vontade de chorar.
Era como se, a cada mecha, uma parte dela estivesse sendo levada embora.
— Vai ficar linda, querida. — disse Marise, o sorriso dela soando mais como provocação. — Quando ele te vir, vai até se surpreender.
Elisa mordeu o lábio para não responder.
Depois veio a escova, o brilho, a maquiagem leve — que de leve não tinha nada — e as unhas. Tudo ao mesmo tempo.
Uma pintava as mãos, outra ajeitava os cílios, uma terceira secava o cabelo. Parecia uma operação de guerra.
Horas se passaram. O relógio de parede já marcava quase cinco da tarde quando finalmente se afastaram.
— Pronto. — anunciou Marise, com satisfação. — Agora sim, uma mulher digna do sobrenome Villar.
Elisa se olhou no espelho. A imagem que viu não era exatamente estranha, mas também não era ela. A pele estava lisa demais, o cabelo brilhante demais, o olhar apagado demais.
Por dentro, tudo continuava do mesmo jeito — embaralhado, ferido, indignado.
— Ele vai adorar — disse uma das funcionárias. — Deve ser bom ter alguém que paga pra te deixar perfeita.
Elisa se levantou, ajeitando o vestido simples que usava, agora destoando completamente do resto.
— Deve ser ótimo, sim. — respondeu com ironia, o tom firme, quase frio. — Ter alguém que acha que perfeição se compra.
Marise arqueou uma sobrancelha, o sorriso ainda no rosto.
— O cinismo não combina com esse novo visual, querida. Aprende uma coisa: às vezes é mais fácil agradar um homem poderoso do que enfrentá-lo.
Elisa sustentou o olhar da mulher por um longo instante.
— Às vezes, agradar um homem poderoso é o mesmo que se perder inteira.
O salão silenciou por um segundo, antes que alguém soltasse um riso nervoso.
**
O celular de Dante vibrou sobre o painel do carro.
— Fale, Marise. — Atendeu, sem muita paciência.
— Terminamos aqui, querido. — A voz dela soava satisfeita, com aquele tom arrastado e provocante que ele conhecia bem. — Pode vir ver o resultado, acho que vai gostar.
Ele suspirou, jogando o telefone no banco do passageiro e saiu do carro.
Ao entrar no salão, o perfume de sprays e cosméticos quase o fez recuar. Marise o recebeu com um sorriso largo, o corpo levemente inclinado, como quem oferecia mais do que profissionalismo.
— Está pronta. — anunciou, fazendo um gesto para a poltrona do fundo.
Elisa se levantou.
Por um segundo — apenas um — Dante perdeu o ar.
A garota magra e assustada que deixara ali horas antes havia desaparecido.
A mulher diante dele tinha a pele iluminada, o cabelo agora num corte leve que moldava o rosto, os olhos destacando um azul profundo que ele não tinha notado antes.
Era bonita. Bonita de um jeito que o desarmava.
Dante piscou, tentando disfarçar o impacto.
— Essa não é a mulher que eu deixei aqui. — disse, quase sem reconhecer a própria voz.
Marise riu, satisfeita.
— Milagre do meu toque. — comentou, orgulhosa. — Fizemos um resgate completo.
Ele passou os olhos novamente por Elisa, de cima a baixo, num misto de surpresa e análise.
— Não é que você é mesmo bonita como o seu pai disse? — soltou, num tom calculadamente neutro, mas o olhar o traía.
Elisa manteve o rosto impassível.
— Já terminamos aqui? — perguntou, fria. — Eu quero ir embora.
Dante arqueou uma sobrancelha.
— Claro. — Pegou o cartão preto da carteira e o estendeu a Marise que rapidamente buscou a máquina e o pagamento foi concluído.
— A casa agradece a preferência. — respondeu ela, piscando.