O quarto estava em meia-luz. A penumbra era cortada apenas pelo brilho frio do notebook aberto sobre a escrivaninha, projetando sombras no rosto cansado de Dante. O terno pendia no encosto da cadeira, a gravata esquecida sobre a cama ainda desfeita — ele não tivera forças nem vontade de se trocar quando subira. Sentou-se, apoiando os cotovelos nos joelhos, os dedos entrelaçados, o olhar perdido no chão por longos minutos. A conversa com Karla ecoava em sua cabeça como um disco arranhado. Cada palavra da menina parecia ter ficado presa em algum lugar fundo demais para ele ignorar. “Ela ficava trancada no quarto.” “Sem comida, sem água.” “Ele esfregou a cara dela no chão.” Dante cerrou o maxilar, respirou fundo. Ele sempre soube — ou achava que sabia — que Elisa vinha de uma casa difí

