O relógio digital marcava oito e quinze quando as portas do elevador se abriram, revelando Dante Villar — impecável como sempre, terno escuro, expressão cansada e um olhar que raramente denunciava qualquer emoção.
O som compassado dos sapatos ecoava pelo corredor de mármore e vidro fosco quando Magali, sua secretária, se levantou de um salto.
— Boa tarde, senhor Villar. — A voz dela carregava aquele tom que misturava respeito e medo. — O senhor tem visita.
Ele franziu o cenho antes mesmo de chegar à porta.
— Visita? — O tom de incredulidade saiu seco. — Por acaso isso aqui virou minha casa pra eu receber visita?
Magali engoliu em seco.
— Eu tentei avisar, mas... são seus pais.
O silêncio que se seguiu foi quase audível.
— O senhor queria que eu barrasse os dois?
— Claro que não. — Dante parou, suspirou fundo e fechou os olhos por um segundo. — Mas devia ter me avisado antes.
— Desculpe — Ela disse baixo e ele balançou a cabeça.
Soltou um meio sorriso cansado e seguiu pelo corredor, o paletó se movendo com precisão a cada passo.
As vozes de Marta e Jorge Villar já se faziam ouvir antes mesmo de ele abrir a porta. O tom leve, alegre — quase deslocado no ambiente sóbrio e moderno da diretoria.
Quando entrou, a mãe levantou-se imediatamente, radiante, e veio até ele com os braços abertos.
— Oi, meu amor! — Disse, sem dar tempo para reação, o abraçando com força e deixando um rastro de perfume doce no ar. — Viemos antes, queríamos te fazer uma surpresa!
Dante soltou um suspiro contido e forçou um sorriso educado.
— Pode acreditar, mãe, se tem uma coisa que eu estou... é surpreso. — Limpou discretamente o batom que ela deixara em seu rosto.
Jorge, o pai, se levantou logo em seguida, apertando-lhe a mão com firmeza.
— Filho.
— Pai. — respondeu, com o mesmo tom protocolar, antes de ir se sentar na cadeira de couro atrás da mesa. — Então, por que exatamente a visita surpresa na empresa?
Marta cruzou os braços, o olhar de quem vai começar um interrogatório.
— Achamos que você não estaria em casa, afinal, nunca está. — Ela se inclinou ligeiramente para frente. — E nem sabíamos que você tinha namorada, muito menos que ia se casar! Quer explicar isso direitinho pra mamãe?
Dante recostou na poltrona, girando a caneta entre os dedos.
— Vocês passam anos me cobrando pra casar, formar família, dar netos… e agora que finalmente atendo o pedido, estão aí com essa cara de reprovação?
— Olha o tom! — Jorge advertiu, firme, com aquela voz que ainda fazia Dante travar a mandíbula.
— Nós só queremos entender. — Marta interveio. — Foi tudo muito repentino. Quem é essa moça? De onde saiu?
Dante se inclinou levemente para frente, o olhar frio, a mentira saindo com naturalidade.
— Tive alguns negócios com o pai dela. Conheci Elisa num jantar. É uma mulher linda, educada, tem um bom sobrenome… nossos filhos serão lindos.
Marta arqueou uma sobrancelha, visivelmente interessada.
— Queremos jantar com vocês. Hoje.
O copo de cristal quase escorregou da mão dele.
— Hoje? — repetiu, com um riso curto e incrédulo. — Impossível. Elisa está atolada com os preparativos do casamento.
— Preparativos? — Jorge soltou um grunhido. — O casamento vai ser no salão da casa de vocês, Dante. O que diabos ela tem pra preparar?
Marta riu, divertida, cutucando o marido.
— Jorge, deixa o menino! Mas eu quero conhecê-la, e hoje seria perfeito.
Dante passou a mão pelo rosto, rendido.
— Vocês são impossíveis. — Se levantou. — Vão pra casa, descansem da viagem. Eu vejo o que posso fazer.
— Não tem “ver o que posso fazer”. — A mãe se aproximou e ajeitou o colarinho dele como se ele ainda fosse um garoto de quinze anos. — Eu vou pedir à sua empregada um jantar especial. Você aparece com essa moça e pronto. Ela precisa me conquistar.
— Tá bem, tá bem. — levantou as mãos em rendição. — Eu ligo pra ela. Mais alguma exigência?
Marta abriu um sorriso largo.
— Te espero à noite, bebê.
Ele cerrou o maxilar.
— Mãe, por favor… não me chama assim no trabalho.
— Ah, meu filho, você sempre vai ser meu bebê. — Disse, passando a mão em seu cabelo como se o gesto não tivesse acabado de ferir o orgulho dele. — Te amamos muito.
— Também amo vocês. — respondeu automaticamente, acompanhando com o olhar os dois deixando a sala, cumprimentando cada funcionário, afinal, eram os donos do lugar.
Quando a porta se fechou e o silêncio voltou, Dante recostou na cadeira, massageando a têmpora.
— Ótimo. — murmurou pra si mesmo. — Agora, além de um casamento arranjado, terei um jantar de família. Perfeito.
Aquelas paredes de vidro refletiam o brilho cinza do centro financeiro, enquanto o som abafado dos carros subia do térreo. Dante olhou a pasta sobre a mesa e apertou o botão do interfone.
— Clara! — A voz ecoou pela sala com o tom autoritário que fazia os estagiários tremerem no andar.
A porta se abriu de imediato. A mulher apareceu elegante, como sempre — salto alto, batom vermelho, o cabelo escuro 0em um coque impecável.
— Pois não, senhor Villar? — tentou disfarçar a tensão, mas sabia que ele estava de mau humor.
— Preciso do endereço da Elisa Moreti. Agora. — Disse sem rodeios, girando a caneta entre os dedos.
Clara franziu a testa, hesitante. — O senhor vai até lá? Pensei que tivesse me mandado cuidar do assunto.
— Meus pais decidiram que querem um jantar pra conhecê-la. — Dante bufou, encostando-se na cadeira. — Preciso falar com ela antes. Ou você acha que eu tenho cara de quem faz visita social?
Clara cruzou os braços, o salto tilintando no piso de mármore. — Quer que eu vá junto? — perguntou com um sorriso enviesado. — Seja lá no que for, posso ajudar.
Dante ergueu o olhar, analisando-a por um instante. — Você se morde de ciúmes da Elisa, não é? — provocou, um canto da boca se erguendo. — Ou é inveja?
— Inveja? — Ela riu, amarga. — Eu te conheço, Dante. A gente sabe o que é isso aqui. Mesmo depois de casado, você vai continuar me procurando. Ela pode ter o sobrenome certo, mas nunca vai ser mulher pra você.
Ele deu uma risada breve, seca. — Você não aprende. — Pôs-se de pé, andando até a janela panorâmica. — Se tivesse nascido em outra família... talvez fosse você com quem eu me casaria sábado.
— Ou se não fôssemos primos, é isso? — Ela rebateu, cruzando os braços. — Você dá valor demais pra esse teatro de nome e poder. Vive como se ainda estivéssemos na Idade Média.
Dante se virou, o olhar duro. — Já chega, Clara. — A voz soou cortante. — Se continuar me provocando, vai perder o emprego junto com o resto.
O silêncio caiu pesado. Clara mordeu o lábio, ferida no orgulho.
— Tudo bem, senhor Villar. — respondeu, fria, forçando um sorriso. — Quer o endereço dela, não é?
Digitou no celular e, em segundos, o som de uma notificação ecoou no aparelho dele.
— Aqui está. Bom jantar. — Fez menção de sair.
— Eu, por acaso, disse que podia sair? — A voz dele a fez parar na porta. Dante se inclinou sobre a mesa, os dedos batendo no tampo de vidro. — Você está confundindo demais as coisas. Eu realmente preciso ir agora, mas depois… vamos conversar sobre essa merda.
Clara ergueu o queixo, disfarçando o incômodo. — Como quiser, senhor Villar. — O tom carregava um veneno quase imperceptível. — Mas está esquecendo que tem uma reunião importantíssima com os j*******s em quinze minutos. E que viemos aqui para isso.
— p**a merda. — Dante recostou-se na cadeira, esfregando o rosto. — Já tinha apagado isso da cabeça.
Apertou outro botão no interfone. — Magali, venha até aqui.
A secretária entrou em segundos, segurando a prancheta contra o peito. — Pois não, senhor Villar?
— Vou pra reunião com os clientes j*******s. Cancele todos os compromissos seguintes. Tenho um assunto pessoal pra resolver.
— Sim, senhor. — Ela anotou rápido, a voz trêmula.
Quando a secretária saiu, Dante lançou um olhar a Clara. — Está vendo? É assim que se faz. Obediência, poucas palavras.
Ela respirou fundo. — O senhor pode deixar, vou ser assim a partir de agora. — Atravessou a sala com passos firmes. — Será que posso ir?
Ele assentiu, já com o olhar perdido nas anotações da mesa.
Clara saiu, o perfume forte ficando no ar.
Por um instante, Dante encostou o corpo na cadeira e fitou o teto, deixando o cansaço pesar. Entre o jantar que precisava arranjar e a imagem de Elisa — a mulher que ele ainda não conhecia, mas já carregava o peso de um acordo político —, uma sensação incômoda crescia em seu peito.
— Jantar com a família... que inferno. — murmurou, ajeitando o paletó antes de sair para a reunião.
O reflexo no vidro mostrava um homem impecável, poderoso, mas com os olhos cansados demais pra idade.
E ainda assim, cada passo ecoava o mesmo ritmo frio de quem aprendeu que, no mundo dele, até o amor era um contrato.