Capítulo 5

1739 Words
— Um pouco. — Elisa deu de ombros, abrindo o cardápio. — Aprendi na escola. Clara arqueou uma sobrancelha. — Escola? Não parecia que alguém naquela casa te deixava estudar. — É, eu também me surpreendo com isso... — Elisa respondeu, sem tirar os olhos do cardápio. O garçom aguardava, paciente. — Je vais prendre le coq au vin, s’il vous plaît. — disse Elisa, tranquila. O homem anotou, com um leve sorriso de aprovação, e se voltou pra Clara. — Et pour madame ? — O mesmo. — respondeu ela, ainda observando Elisa. — Não esperava isso de você. — As pessoas raramente esperam alguma coisa de mim. — replicou a loira, erguendo o olhar por um instante. O jantar veio em silêncio. O aroma do vinho tinto e do frango cozido lentamente encheu o ar. Elisa provou o prato com elegância, movimentos contidos, postura impecável. Clara percebeu — e, no fundo, se irritou por não conseguir encontrar nela o desajeito que esperava. Durante longos minutos, o único som entre as duas foi o tilintar dos talheres e o murmúrio da música francesa. Quando terminaram, Clara pegou o celular. — Muito bem… hora de falar com o chefe. — Com o senhor Villar? — Elisa perguntou, a voz quase sussurrada. — Claro. — Clara digitava rápido, sem olhar. — Precisamos pagar a conta, né? Elisa piscou, surpresa. — Vai pedir dinheiro pra ele… assim na cara de p*u? Clara riu, um riso afiado. — É lógico, você é noiva dele. Ele quem tem que pagar por esse belíssimo jantar que acabamos de ter. Ela pressionou o viva-voz. O toque soou uma vez, duas. — Fala. — A voz de Dante veio seca, grave, impaciente. — Boa noite, Villar. Interrompi alguma coisa? — Sempre. O que foi? Clara revirou os olhos. — Estamos jantando, eu e Elisa. Tivemos uma tarde agradável no shopping e… — E? Direto ao ponto, Clara! — Ele exigiu. — E precisamos pagar a conta. Do outro lado, silêncio. Depois, a resposta curta: — Viu só? Muito melhor assim, você fala demais. Vou fazer o pix. E desligou. Clara apoiou o celular na mesa e começou a rir, balançando a cabeça. — Isso foi ele de bom humor. Elisa o olhou, espantada. — Então… eu prefiro não ver ele de mau humor. Clara ergueu a taça de vinho, com um meio sorriso. — Sábia decisão, Moreti. É por isso que talvez você sobreviva. Elisa abaixou o olhar, mexendo no guardanapo. Mas não respondeu. Lá fora, a noite carioca refletia nas vidraças, e por um instante, ela se perguntou se realmente tinha entrado no mundo dele — ou se só estava sendo engolida por ele. ** O portão da casa rangeu quando Elisa entrou, o salto ecoando no piso frio da varanda. O vestido novo caindo com elegância, o cabelo ainda solto, e um brilho diferente no olhar — como se, por um instante, tivesse lembrado como era ser alguém. O sorriso dela se apagou lentamente ao notar os olhares voltados em sua direção. A família toda estava reunida na sala: Nanci no sofá, com o olhar severo; Carlos folheando um jornal que não lia; Karen esparramada na poltrona, mexendo no celular; e Karla, a única que sorriu de verdade. — Boa noite — disse Elisa, tentando manter a leveza na voz. — Vou subir, tomar um banho e descansar um pouco. — Não vai jantar? — perguntou Nanci, sem tirar os olhos da filha. — Não, obrigada. — Elisa sorriu. — Clara me levou pra jantar num restaurante francês. Karen ergueu uma sobrancelha, debochada. — Restaurante francês? Olha só, que chique. Karla, ao contrário, abriu um sorriso genuíno. — Quero saber tudo! — disse, levantando-se. — Posso subir com você? Elisa assentiu, mas antes que pudessem sair da sala, Karen se levantou abruptamente, bloqueando o caminho. — Cadê o meu vestido? — perguntou, com a voz seca. Elisa piscou, sem entender de imediato. — Ficou na loja. — Então esse que você está usando é meu. — O tom de Karen era venenoso, mas calculado. Elisa deu um passo para trás, mantendo a calma. — De jeito nenhum. O meu vestido novo é meu. E aquele horroroso nem vai te fazer falta — respondeu, com um sorriso sarcástico. — Nunca te vi usar ele. Karen cruzou os braços. — Não importa. Era meu, e agora esse aí é. Tira. — Karen, para com isso — interveio Karla, se colocando ao lado de Elisa. — Você tem um monte de vestidos. — Ninguém perguntou sua opinião, anã de jardim. — Karen a empurrou de leve, sem tirar os olhos da mais velha. — Anda, Elisa. Tira logo. Elisa respirou fundo, tentando manter o controle. — Você tem vários vestidos, Karen. Não é justo querer o único que eu acabei de ganhar. É meu. Karen deu um passo à frente, e antes que Elisa pudesse recuar mais, agarrou a alça fina do vestido e puxou com força. O som do tecido rasgando ecoou pela sala. — Karen! — gritou Elisa, empurrando a irmã. — Olha o que você fez! — Bem feito. — O sorriso da menina era c***l. O tapa veio antes que Elisa pudesse pensar. Um estalo seco cortou o ar, e por um segundo, o silêncio tomou conta da sala. Elisa ficou imóvel, a mão ainda erguida, o arrependimento crescendo no peito. Karen levou a mão ao rosto, teatral, e começou a chorar alto. — Papai! Ela me bateu! Carlos largou o jornal e levantou de uma vez, os olhos faiscando. — Você ficou louca, Elisa?! — gritou, atravessando a sala em dois passos. — Pai, eu… ela me provocou, eu não— — Cala a boca! — rugiu ele, agarrando-a pelo pescoço. — Quem você pensa que é pra levantar a mão pra minha filha?! Elisa tentou falar, mas a voz saiu em um fio. — Me solta… por favor… O rosto dele estava tão perto que ela podia sentir o hálito quente e o cheiro de cigarro impregnado. — Pode até ter ido comprar umas roupinhas novas — cuspiu ele —, mas não se esqueça de quem você é. Continua sendo minha filha, entendeu? — Entendi… — chorou Elisa, as lágrimas escorrendo, o corpo trêmulo. Carlos a soltou com um empurrão. Elisa levou as mãos ao pescoço, ofegante, tentando recuperar o ar. O medo a paralisava, mas antes que pudesse se afastar, ele a segurou pelo braço novamente. — E pra você aprender — disse, com frieza. Num gesto rápido, puxou o vestido rasgado e o rasgou ainda mais, deixando-a de calcinha, o tecido pendendo em farrapos. O bojo rasgado caiu, e Elisa instintivamente cobriu os s***s com as mãos, o rosto queimando de vergonha. — Pai, chega! — gritou Karla, desesperada. — Por favor! — Não se mete, Karla! — Nanci levantou-se, mas não interveio. Apenas observava, o olhar duro, indiferente. Elisa recuou, humilhada, com o coração disparado. Sem pensar, correu pelas escadas, tropeçando no salto, segurando o que restava do tecido. As lágrimas turvaram sua visão. Trancou-se no quarto, encostando as costas na porta, o corpo inteiro tremendo. Caiu no chão, abraçada aos joelhos, tentando conter o choro. O silêncio do corredor se estendeu por alguns segundos após a saída de Elisa, mas não durou muito. Karen permaneceu parada, os olhos marejados de inveja e desejo, observando a porta se fechar. — Por que você não me indicou pra esse casamento, papai? — perguntou, a voz falhando, quase um sussurro carregado de raiva e cobiça. — Veja só o que ela vive… parece maravilhoso. Carlos ergueu uma sobrancelha, como se estivesse ponderando algo profundamente lógico. — Eu não ia obrigar você a se casar com um homem que a gente não conhece — respondeu, como se falasse de uma absurda injustiça. — Não seria justo. — Não conhecemos, mas é podre de rico! — rebateu Karen, cruzando os braços, os olhos brilhando de uma ambição quase c***l. — Eu devia estar vivendo tudo isso e não a sem graça da Elisa! Carlos desviou o olhar por um instante, observando a filha do meio com uma atenção quase calculada, como se estivesse medindo cada reação. — Ela está incrível agora, mas você não sabe o que vai acontecer com ela depois que casar. — A voz dele baixou, carregada de uma autoridade sombria. — Esse homem é estranho. Nenhum homem normal encomenda uma noiva. E você… você é minha, Karen. A menina se encolheu levemente, um arrepio percorrendo sua espinha, mas a inveja ainda brilhava nos olhos. — Talvez você tenha razão — murmurou, como se ceder à razão fosse um jogo. — Tomara que seja bem r**m. Vou fazer questão de rir dela quando eu a vir com hematomas. — Isso lá é coisa que se deseje? — Karla interrompeu, a voz fina mas firme, a indignação clara. — Deixa de ser i****a, Karen. Karen rolou os olhos, um sorriso debochado surgindo nos lábios. — Começou a anã de jardim a defender a sem sal. — Sua voz se elevou, carregada de sarcasmo. — Vou pro meu quarto. — Você não perde uma oportunidade de ficar calada — Nanci disparou, irritada. — Deixa sua irmã em paz. — Claro, a errada sou eu. — Bufou Karla, virando-se com um ar dramático. — Sempre… Vou conversar com a Elisa, boa noite. As duas meninas desapareceram pelo corredor. O silêncio voltou a se instalar, pesado, quebrado apenas pelo som do relógio antigo na sala. Nanci se aproximou de Carlos, sentando-se ao lado dele e entrelaçando os dedos aos dele. — Não acha que errou? — perguntou, a voz carregada de dúvida e preocupação. Carlos balançou a cabeça, lentamente, negativo e Nanci continuou: — Ele se casando com a Karen, nossa situação melhora dez vezes mais — disse, a voz firme, calculista, fria. Carlos franziu a testa, apertando a mão dele. — Eu não vou entregar a minha princesa nas mãos de um maluco por causa de dinheiro — disse, quase implorando. — A Elisa é lucro, nossa filha não. Vai saber o que o doente está pretendendo… Carlos inclinou-se para trás, apoiando a cabeça no encosto do sofá, os olhos fixos no vazio, como se visualizasse cada detalhe de seus planos. A tensão pairava no ar, uma mistura de cobiça, poder e uma sombra que ninguém ousava mencionar, mas que se insinuava nos olhares trocados e nas palavras carregadas de intenção.
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