— Como você consegue viver assim?
— Ué — respondeu Elisa, num tom seco, defensivo. — Não sou muito de sair. Pra que roupa nova? Passo o dia cuidando da casa. Imagina eu esfregando o chão vestida igual a você? — ironizou, com um sorriso provocador.
Clara soltou um riso forçado.
— Pois fique sabendo que nada disso vai pra casa nova. — Apontou para o armário, como quem fala de algo contaminado. — Nada que está aqui.
— Como é que é? — Elisa se virou, incrédula. — Essas são as minhas coisas! Quer que eu vá pelada pra casa do seu... do senhor Villar?
— Ele não faz o tipo que gosta de gente pelada andando pela casa — respondeu Clara, sorrindo de canto, deixando Elisa sem entender se era piada ou aviso. — Nós vamos sair agora. Vamos montar seu closet do zero.
— Mas... vai gastar dinheiro demais. — Elisa tentou argumentar, sentindo o rosto corar de vergonha.
— Dinheiro — disse Clara, com a voz doce e venenosa — é algo que não vai mais ser da sua conta, querida.
E, sem esperar resposta, virou-se sobre os saltos e começou a descer as escadas.
Elisa respirou fundo e foi atrás.
O barulho dos saltos de Clara ecoou pela casa, chamando a atenção de todos. Nanci e Karen se entreolharam, espantadas. Karla, no canto, sorriu discretamente e acenou para a irmã.
— Eu vou levar a senhorita Moreti para um banho de loja. — Clara falou com naturalidade, como quem fala de algo rotineiro. — Mais tarde trago de volta.
— Banho de loja? — Karen murmurou, boquiaberta.
— Qualquer coisa, entrem em contato. — Clara enfiou a mão na bolsa e tirou um cartão prateado. O contraste do papel caro com as mãos simples de Carlos era quase simbólico.
E, antes que alguém dissesse qualquer coisa, ela já seguia em direção à porta, com Elisa atrás, o vestido horrendo balançando de forma desajeitada — uma visão que parecia resumir perfeitamente o abismo entre as duas.
Elisa quase deixou o coração cair.
O carro preto, brilhante, com vidros escuros e interior de couro, estacionado bem em frente ao portão. Nunca tinha visto nada tão elegante — nem na televisão.
Clara entrou no veículo e apenas acenou para que Elisa se aproximasse.
— Vamos. — disse, sem olhar muito.
Elisa engoliu seco, ajeitou o vestido horroroso e entrou no carro, sentindo o cheiro do couro novo e do perfume caro. As mãos ficaram trêmulas sobre o colo.
— É... bonito, o carro. — murmurou, sem coragem de encarar Clara.
— É funcional. — respondeu ela, seca, mexendo no tablet. — E limpo.
Durante o trajeto, Elisa observava as ruas com um sorriso discreto, o rosto colado ao vidro como uma criança em seu primeiro passeio. Cada prédio, cada vitrine, cada árvore parecia novo. Clara notou, claro — mas preferiu fingir que não viu.
Quando o carro entrou no estacionamento do shopping, Elisa soltou um suspiro admirado.
— Meu Deus... — murmurou, olhando as fachadas de vidro e o brilho das luzes. — Isso aqui é enorme!
Clara apenas digitou algo no celular, sem levantar os olhos.
— Vamos focar no que viemos fazer, senhorita Moreti.
Mas Elisa seguia deslumbrada, tropeçando nos próprios pés de tão encantada com o ambiente. Passaram por vitrines reluzentes, manequins vestidos de seda e vitrines que pareciam cenários de filme. O perfume caro no ar, o som ambiente, o brilho dos lustres — tudo parecia de outro mundo.
— Eu nunca tinha vindo aqui. — confessou, quase sem perceber que falava alto. — Achei que shopping fosse... diferente.
Clara arqueou uma sobrancelha.
— É apenas um centro de compras. Não há nada de fascinante.
— Pra mim tem. — respondeu Elisa com um sorrisinho tímido. — É tudo tão... bonito.
— É caro. — corrigiu Clara. — E é isso que importa.
Elas entraram em uma boutique ampla e silenciosa. No instante em que Clara atravessou a porta, a gerente — uma mulher loira, elegante, com crachá dourado — veio pessoalmente recebê-la.
— Senhorita Clara! — exclamou a gerente, estendendo as mãos com um sorriso. — Que prazer! O senhor Villar vai precisar de algo hoje?
Clara apenas sorriu de leve, acostumada com o tratamento.
— Não. Hoje é pra montar um closet do zero pra ela. — Apontou com o queixo para Elisa.
A gerente olhou. E olhou de novo. A expressão se contraiu em segundos, o sorriso vacilou. Os olhos percorreram o vestido verde desbotado, as sandálias velhas, o cabelo solto de qualquer jeito.
— Ah... claro... — murmurou, sem saber como reagir.
Clara cruzou os braços, impaciente.
— Essa é a futura senhora Villar. E ela precisa se vestir à altura.
Elisa sentiu o rosto ferver.
— Futura o quê? — a gerente quase gaguejou. — A... senhora Villar?
— É. — respondeu Elisa, sem graça. — Pelo visto, sim.
A gerente endireitou a postura na mesma hora, tentando recuperar a compostura.
— É um prazer enorme, senhorita...
— Moreti. — respondeu Elisa.
— Moreti... — repetiu a mulher, agora com um sorriso treinado. — Moreti e Villar. Um casamento de peso, não é?
Elisa revirou os olhos.
— A gente vai ver roupas ou discutir a minha vida?
O silêncio que se seguiu foi constrangedor. Clara pigarreou, disfarçando um sorriso discreto.
— Mostre o melhor que vocês têm. — ordenou.
A gerente assentiu rapidamente e chamou uma das funcionárias.
— Tragam os modelos da coleção nova. Vestidos, conjuntos, sapatos. Tamanhos variados. — E então, mais baixo: — E, por favor, sem etiqueta de preço visível.
O desfile começou. Elisa entrou e saiu do provador dezenas de vezes. Clara analisava cada peça com olhos críticos, desaprovando quase tudo com um simples levantar de sobrancelhas.
— Esse está péssimo. — dizia ela.
— Troque o sapato. — dizia de novo.
— Não combine cores assim nunca mais.
Elisa bufava, mas obedecia. Aos poucos, foi se acostumando a se ver diferente no espelho. O tecido das roupas era macio, o caimento leve, o brilho sutil. A cada olhar, via uma versão de si mesma que não reconhecia — e que, ao mesmo tempo, a fascinava.
Quando terminaram, a mesa de caixa estava coberta de sacolas e caixas empilhadas: vestidos, terninhos, bolsas, sapatos, lingerie, acessórios. Elisa olhou o valor na tela e sentiu o estômago revirar.
“Meu Deus... deve ser isso que meu pai recebeu por mim”, pensou, o peito apertando.
Balançou a cabeça, tentando afastar o pensamento.
— Envie tudo direto pra casa do senhor Villar. — ordenou Clara à atendente, sem sequer olhar o total. — E providencie transporte seguro.
Elisa, atordoada, apenas observava.
Minutos depois, saiu da loja já com um dos novos vestidos — um azul-marinho simples, mas elegante. O tecido deslizava pela pele, o corte valorizava seu corpo sem exagero. As sandálias velhas ficaram esquecidas dentro de uma sacola qualquer.
Enquanto caminhavam juntas pelo shopping, Clara percebeu o quanto ela parecia diferente. Mesmo insegura, Elisa tinha uma leveza no olhar — um brilho que não se comprava.
Mas a assessora apenas ajeitou o blazer e disse, seca:
— Se acostume. Isso é só o começo.
Elisa sorriu de lado, sem responder.
O vestido novo era leve, o corpo também — mas o coração, esse, pesava mais do que nunca.
O caminho de volta foi silencioso, mas o silêncio não era leve. Dentro do carro, só o ronronar do motor e o zumbido distante da cidade se faziam ouvir. Elisa mantinha as mãos sobre o colo, agora cobertas por o tecido fino do novo vestido azul-marinho. Ainda se sentia deslocada — uma farsa bem vestida.
O carro deslizou pela avenida principal e, quando parou em um semáforo, o som ecoou:
gruuuuc.
O barulho veio do estômago dela — alto, faminto, traidor.
Clara arqueou uma sobrancelha, virando-se lentamente.
— Isso foi... você?
Elisa ficou vermelha, apertando o ventre com as mãos.
— Eu... acho que sim.
— Está com fome? — A voz da mulher saiu quase divertida, o que era raro.
— Um pouco. — tentou minimizar, encolhendo os ombros.
— Você almoçou? — Clara insistiu.
Elisa desviou o olhar pela janela, em silêncio.
Clara olhou o relógio. — Já passa das sete da noite, Moreti. — suspirou. — Como alguém fica o dia inteiro sem comer?
— Eu tomei café... — murmurou, hesitante. — Depois tive tanta coisa pra fazer em casa que... não deu tempo antes da senhora chegar.
— Senhora? — Clara riu curto, debochada. — Eu nem sou velha.
Elisa deu um sorrisinho sem graça.
Clara revirou os olhos, encostando o corpo no banco. — Certo. Vamos jantar.
— O quê? — Elisa arregalou os olhos. — Não precisa, de verdade, eu posso comer qualquer coisa quando chegar em casa.
— Qualquer coisa? — repetiu Clara, em tom de incredulidade.
Elisa deu de ombros. — É. Qualquer coisa mesmo. Um arroz com ovo, um pão com manteiga, uma sopa rala... tá de bom tamanho.
O som que saiu da garganta de Clara foi uma mistura de desdém e incredulidade.
— Que horror. Você nunca mais vai comer essas porcarias.
Elisa franziu o cenho. — Não são porcarias. — rebateu, ofendida. — É comida.
— É sobrevivência, não comida. — Clara rebateu, já impaciente. — E você sabe pelo menos comer?
Elisa piscou, confusa. — Comer?
— Etiqueta, mesa posta, talheres. — explicou, como se falasse com uma criança.
— Ah. — respondeu, aliviada. — Sei sim.
Clara suspirou, agradecendo teatralmente aos céus. — Menos um problema pra resolver.
— Problema? — murmurou Elisa, irritada, mas a outra já estava pegando o celular.
— Henrique, leva a gente praquele restaurante que eu e o senhor Villar sempre vamos.
O carro deslizou pelas ruas iluminadas do centro como um felino n***o. Elisa observava pela janela, o rosto colado ao vidro, os olhos refletindo o brilho das vitrines e letreiros.
Tudo parecia novo — e caro.
Até o ar parecia mais leve, perfumado, como se a cidade tivesse outro cheiro naquele lado da ponte.
— Feche a boca, vai acabar entrando mosquito. — comentou Clara, sem olhar pra ela.
Elisa corou e endireitou a postura, cruzando as mãos no colo.
— Nunca tinha vindo pra esse lado da cidade.
— Imagino. — Clara disse, seca. O motorista estacionou em frente a um restaurante de fachada dourada e vidro fumê. — Vamos ver se ainda conseguimos mesa.
Elisa olhou o letreiro com um nome em francês.
— Aqui? A gente vai comer aqui?
— Algum problema?
— Não... só parece caro demais.
— Villar paga. — respondeu Clara, simplesmente, e saiu do carro com passos decididos.
O maître — um homem de terno impecável e sorriso automático — pareceu pronto pra dispensá-las quando Clara se apresentou:
— Boa noite. Estamos da parte do senhor Villar.
O sorriso dele travou por um segundo, e então o tom mudou completamente.
— Mas é claro, madame. Um momento, por favor... — e em menos de um minuto havia uma mesa sendo preparada no centro do salão, perto das janelas.
Elisa piscou, surpresa.
— Isso acontece sempre que fala o nome dele?
— Sempre. — Clara respondeu, sentando-se com naturalidade. — É o efeito Villar. Aprenda a usar.
O restaurante era todo em tons de marfim e dourado, o ar impregnado de vinho e manteiga. Garçons se moviam em silêncio, e a música francesa tocava ao fundo, suave.
Quando o garçom se aproximou, Elisa respondeu ao cumprimento dele sem hesitar:
— Bonsoir.
Clara ergueu as sobrancelhas, quase sorrindo. Chocada.
— Você fala francês?