Ele apenas assentiu, impassível, e caminhou até a porta.
Elisa o seguiu, sem olhar para trás.
Do lado de fora, o ar-condicionado do shopping os envolveu num sopro gelado.
— Podemos ir agora? — ela perguntou, com um resquício de cansaço na voz.
— Ainda não. — respondeu, ajustando o relógio no pulso. — Falta vestir e calçar você. Não dá pra chegar com essa roupa e esse tamanco pra conhecer meus pais.
Ela suspirou, resignada.
Dessa vez, ele diminuiu o passo e andou ao lado dela.
Chegaram à mesma boutique onde Clara a levara no dia anterior. A atendente reconheceu Dante de imediato, endireitando a postura e abrindo um sorriso profissional — e levemente encantado.
— Senhor Villar, é um prazer revê-lo.
— Preciso de algo apropriado pra ela. — disse, indicando Elisa com um gesto breve. — Vai conhecer minha mãe hoje à noite.
A mulher arregalou os olhos, surpresa.
— Claro, senhor. — guiou Elisa até os provadores, empolgada.
Minutos depois, ela saiu usando um vestido simples, mas elegante — em tons claros, que valorizavam a pele recém-tratada e o novo corte de cabelo.
Dante se levantou do sofá, instintivamente.
O olhar dele percorreu o corpo dela devagar, sem o mesmo desdém de antes. Por um instante, parecia procurar falhas… mas não encontrou.
— Está bom. — disse por fim, pigarreando, como se precisasse se recompor. — Vamos.
Ela apenas assentiu.
No caminho para o estacionamento, passaram diante de uma joalheria. No centro da vitrine, um conjunto de colar e brincos prateados reluzia sob a luz branca. Dante parou por um instante.
— É só o que falta. — murmurou, olhando de relance para ela.
— É muito caro. — Elisa respondeu automaticamente, baixando o olhar.
Ele rolou os olhos.
— Experimenta — disse, abrindo a porta da loja e fazendo um sinal para que ela entrasse. — Vamos ver se combina com o vestido.
Ela hesitou.
— Eu não preciso disso.
— Mas eu quero que você use.
Os olhos dele a encaravam com firmeza, e havia algo que Elisa não soube decifrar — não era exatamente arrogância, nem interesse. Talvez apenas curiosidade.
Entrou.
E, enquanto o vendedor se apressava para pegar o conjunto, Dante ficou encostado no balcão de vidro, observando-a com aquele olhar que parecia atravessar tudo o que ela tentava esconder.
O vendedor se aproximou trazendo uma bandeja de veludo azul. Nela, o colar e os brincos reluziam sob a luz branca da vitrine, pequenos pontos de brilho contra o metal prateado.
— Pode experimentar, senhorita. — disse o rapaz, estendendo o conjunto com cuidado.
Elisa hesitou, olhando primeiro para o funcionário e depois para Dante. Ele apenas cruzou os braços, esperando.
— Anda logo, não é veneno. — disse, seco.
Ela respirou fundo, recolhendo o cabelo para o lado e tentando prender o fecho sozinha. Mas os dedos trêmulos e o nervosismo atrapalharam. O colar escorregava, e a corrente teimava em não se prender.
— Deixa que eu faço. — A voz de Dante veio baixa, rouca, bem próxima da orelha dela.
Antes que pudesse responder, ele já estava atrás dela, afastando suavemente as mechas recém-cortadas de seu pescoço. Os dedos dele tocaram sua pele — um toque leve, mas que fez Elisa arrepiar inteira.
Ele prendeu o fecho com cuidado, os nós dos dedos roçando na nuca dela por um segundo a mais do que o necessário. O perfume suave que vinha do cabelo dela se misturou ao cheiro amadeirado do perfume dele.
Elisa engoliu em seco.
— Pronto. — murmurou ele, quase como se tivesse esquecido o que estava fazendo.
Os dois levantaram o olhar para o espelho grande da loja.
O reflexo os mostrava lado a lado — ela com o vestido claro e o colar cintilando sobre a pele, ele de terno escuro, imponente, as mãos ainda próximas dos ombros dela.
Por um instante, parecia uma cena ensaiada.
Um casal.
Dante arqueou um leve sorriso, quase surpreso.
— Formamos um belo par. — disse, a voz baixa, sincera demais para o tom habitual. — Eu… não imaginei isso.
Elisa desviou o olhar, rompendo o encanto do momento.
— O colar e os brincos são lindos. Combinam com o vestido. — respondeu, contida.
Dante pigarreou, voltando ao habitual controle.
— Então pronto. — virou-se para o vendedor e estendeu o cartão. — Vamos levar.
A transação foi rápida. Ele agradeceu com um aceno e saiu, abrindo a porta para que ela passasse antes.
No caminho até o estacionamento, os dois seguiram em silêncio.
Um silêncio denso, carregado de tudo o que não disseram — e de algo novo, estranho, que nenhum dos dois queria nomear.
Quando entraram no carro, Dante ligou o motor sem olhar pra ela.
Elisa observou o reflexo do colar no vidro da janela e virou o rosto, escondendo o próprio sorriso confuso.
E seguiram.
Cada um imerso nos próprios pensamentos, como se tivessem acabado de atravessar uma linha invisível — e nenhum soubesse muito bem o que fazer agora.
O carro deslizava pela avenida quase vazia. Do lado de fora, as luzes do fim de tarde refletiam nos vidros, tingindo o interior do veículo de um dourado suave. Dante mantinha as mãos firmes no volante, o olhar fixo à frente. Elisa, ao lado, observava a paisagem passando depressa demais, como se o mundo também quisesse fugir daquele silêncio.
Ele foi quem quebrou primeiro.
— Você sabe atuar? — perguntou, sem olhá-la.
Elisa demorou alguns segundos para responder.
Ainda fitava a janela, o rosto voltado para a cidade que ficava para trás.
— Aprendi a fingir muita coisa ao longo dos anos. — disse com calma. — É só me contar o que você disse a eles. Foi paixão à primeira vista?
Dante assentiu de leve.
— Foi. — confirmou, como se recitasse uma linha ensaiada. — Por isso o casamento tão apressado.
Um sorriso breve — triste e cansado — cruzou o rosto dela.