1.
Era apenas um dia normal para Rose.
Levou o filho à escola, foi trabalhar, ajudou os amigos, comeu qualquer coisa e agora estava no seu sítio favorito em todo o mundo…
No meio do campo, a olhar para o lago de cima do penhasco, o vazio e a calma do lugar lembravam-lhe como a própria alma tinha sido um dia… vazia e calma, mas se uma pedra caísse no sítio certo iria criar caos e solidão.
Ela sabia que tinha mais sorte que muitas pessoas… o seu filho era saudável, tinha um emprego, tinha uma casa… até há pouco tempo, sentia que lhe faltava algo toda a vida, que nunca tinha sido feliz. Parecia sempre que essa felicidade fugia dela e tudo o que parecia uma bênção se tornava numa maldição, excepto o seu filho.
Quando ouvimos alguém dizer que a única razão pela qual ainda estão nesta terra é pelos filhos, normalmente, não acreditamos. As pessoas são egoístas, certo? Tem que existir outra razão. Bem, acreditem, é verdade. Até há uns meses atrás, o seu filho era a única razão pela qual ainda não tinha tirado a sua vida e porque vinha a este penhasco sempre a pensar que ia encontrar paz e sempre voltava sem nada fazer.
Mas tudo tinha mudado.
Nas semanas em que o seu filho estava com o pai, tudo costumava piorar mas hoje, mantinha-se calma.
Poucas pessoas sabiam como ela se tinha sentido um dia e estavam orgulhosas de quem ela se tinha tornado.
Ela era uma óptima ouvinte, todos desabafavam com ela, mas recusava-se a falar dos seus problemas… já tinha aprendido, deveria partilhar algumas derrotas e vitórias com quem realmente se importava.
Ainda guardava alguns dias menos bons para si e deixava todos pensarem que tudo estava bem, pois continuava sem suportar que se preocupassem com ela.
Mas a vida era mais fácil quando algumas pessoas sabem como realmente nos sentimos, menos complicada e ela não tinha que se explicar muito… eles ouviam e ela entendeu isso.
As memórias dela não eram boas, mas passado era passado.
Se gostava de ter alguém para estar com ela, apoiá-la, carregarem os fardos juntos? Gostava.
Mas não precisava que homem nenhum completasse a sua vida, nunca tinha precisado e não era agora que iria começar.
Uma ilusão, apenas, e ela sabia disso.
Levantou-se, o vento a soprar no seu cabelo ruivo comprido, e dirigiu-se ao carro para ir para casa.
Enquanto caminhava, reflectia na ironia das ironias.
Era a um homem que tinha que agradecer a força e certeza toda que tinha agora.
Gabriel.