Camilla
A sede é uma coisa humilhante quando você está presa.
Não irrompe como uma dor, mas como um aviso sutil. A garganta fica áspera, a língua parece mais pesada. É o corpo a te lembrar, sem rodeios, que não importa o quão inabalável você tente se mostrar, a sua sobrevivência reside em necessidades básicas: Água. Ar. A liberdade de uma porta aberta.
Aguardava no colchão, as costas apoiadas na parede, fazendo uma contagem mental do tempo na ausência de um relógio, como se essa contagem fosse minha única defesa, quando a cadência de passos no corredor rompeu o silêncio. Não era o ritmo apressado dos outros, que invadiam e saíam da base com a desenvoltura de quem domina o espaço. Eram passos lentos, calculados. E, o que mais me afligia, eram passos sem pressa.
Meu coração apertou, e eu odiei isso.
A portinhola no meio da porta abriu com um clique seco.
— Água. — uma voz masculina disse do lado de fora, sem gentileza, só função.
Uma garrafa apareceu, empurrada pela a******a. Eu agarrei no impulso, antes que tirassem. A água estava fria, e eu senti vontade de beber tudo de uma vez. Segurei. Não por educação, por dignidade. Eu não queria parecer desesperada.
— Quem mandou? — perguntei, com a voz firme.
Silêncio.
Eu encostei a garrafa no peito como se fosse escudo.
— Eu quero falar com quem manda aqui. — repeti, mais alto. — Agora.
A portinhola fechou.
Eu xinguei baixo, e a raiva veio como faísca. Eu me levantei e fui até a porta, batendo com a mão aberta.
— Ei! Eu não sou bicho!
A resposta veio do outro lado, mais perto do que eu esperava:
— E por isso tá viva.
A voz era diferente. Mais grave. Mais calma. Não era a voz dos caras que me puxaram. Era outra coisa. Aquelas palavras me atravessaram como se o metal não existisse.
A fechadura girou.
O som do ferro cedendo me deu um frio na barriga que eu tentei esconder na postura. Eu dei um passo pra trás, a garrafa apertada na mão, e levantei o queixo, como se minha coragem fosse suficiente pra bloquear o medo.
A porta abriu.
Ele entrou sem pressa, como se o quarto fosse extensão do corpo dele.
Eu soube na hora: Lobão.
Não porque ele tivesse uma placa na testa, mas porque o ar mudou. O espaço ficou menor, como se a presença dele ocupasse tudo antes mesmo de encostar em qualquer coisa. Ele era alto, largo, e tinha o tipo de olhar que não pede licença pra te examinar. Não era olhar de desejo. Era olhar de dono de decisão.
Atrás dele, no corredor, dois homens ficaram parados, atentos, com a mão perto da cintura. Lobão nem olhou pra eles. Ele não precisava.
Ele fechou a porta por dentro, não trancando — só encostando, como quem avisa que, se quisesse, trancava com um dedo.
Eu fiquei em pé, segurando a garrafa como se fosse faca.
— Então você é o Lobão. — eu disse.
Ele me olhou de cima a baixo, devagar. Não com malícia. Com cálculo.
— E você é a Camilla. — ele respondeu, como se meu nome fosse item de lista.
A frieza dele me deu um ódio novo. Um ódio que não era só medo — era indignação.
— Por que eu tô aqui? — perguntei. — Eu não devo nada pra ninguém.
Ele caminhou até a cadeira e puxou com o pé, sentando sem pedir permissão. O gesto foi tão simples e tão dominador que me deu vontade de virar o quarto do avesso. Ele cruzou as mãos, relaxado, como se fosse reunião.
— Teu irmão deve. — ele disse.
— Então pega meu irmão! — minha voz subiu. — Eu não sou garantia de homem nenhum!
Lobão inclinou a cabeça, como se eu tivesse falado algo curioso, não algo desesperado.
— Ele já te colocou nessa posição. — ele respondeu. — Eu só tô lidando com o que ele me entregou.
— Mentira. — eu cuspi. — Ele não faria isso comigo.
Os olhos dele ficaram um pouco mais escuros. Não de raiva explosiva. De certeza.
— Camilla… no morro, todo mundo faz o que precisa pra não morrer. — ele disse, e a frase veio com uma tranquilidade c***l. — Ele escolheu você porque achou que você aguenta.
Aquelas palavras me atingiram num lugar feio, porque tinha uma ponta de verdade que eu não queria admitir. Meu irmão sempre achou que eu era a forte. A que resolve. A que segura.
— Eu quero falar com ele. — eu exigi, apertando a garrafa com força. — Agora. Quero olhar na cara dele.
Lobão descruzou as mãos e se inclinou um pouco pra frente. O quarto pareceu inclinar com ele.
— Não. — ele disse.
A palavra foi pequena e definitiva.
Meu sangue ferveu.
— Você não pode me prender assim! Isso é sequestro!
— Aqui eu posso. — ele respondeu, sem levantar o tom. — Porque aqui eu mando.
Eu senti minhas pernas quererem tremer. Eu segurei.
— Você acha que eu vou ficar quieta? — eu avancei meio passo. — Eu vou gritar. Vou fazer barulho. Vou—
— Vai fazer o quê? — ele me cortou, e finalmente a voz dele ganhou uma lâmina. — Vai chamar quem? A polícia? O morro inteiro sabe que você tá aqui. Sabe por quê? Porque teu irmão botou teu nome na mesa de gente errada.
Eu abri a boca, mas nenhuma frase saiu inteira. A raiva e o medo se embolaram.
Ele se levantou. Não rápido. Só levantou. E foi como se uma parede tivesse se erguido na minha frente. Lobão deu dois passos e parou perto o suficiente pra eu sentir o cheiro dele — fumaça velha, metal, um perfume discreto que me irritou por existir num homem como ele.
— Escuta bem. — ele disse, olhando direto nos meus olhos. — Ninguém vai tocar em você.
A frase devia me dar alívio. Só que na boca dele ela soou como posse.
— Eu não preciso que você me prometa nada. — eu rosnei. — Eu preciso sair daqui.
Ele nem piscou.
— Você não sai. — disse. — Não ainda.
Eu senti o impulso de jogar a água na cara dele. Juro que senti. O corpo inteiro pediu esse gesto, uma vingança pequena, um “eu ainda tenho controle de alguma coisa”.
Mas eu parei.
Porque eu vi nos olhos dele uma coisa fria demais: não era ameaça vazia. Era prontidão. Lobão não parecia um homem que perdeu o controle. Ele parecia um homem que decide quando alguém perde.
— Qual é o seu jogo? — perguntei, mais baixa agora, porque a minha coragem não tinha morrido, só tinha aprendido a medir o terreno. — O que você quer comigo?
Ele me encarou por um segundo longo.
— Eu quero o teu irmão. — respondeu. — Eu quero saber quem mandou ele fazer dívida e botar teu nome no meio. E eu quero que todo mundo entenda uma regra: comigo, ninguém brinca.
Eu engoli em seco, tentando manter o rosto firme.
— Então eu sou… moeda.
— Você é seguro. — ele corrigiu, como se a palavra fosse mais limpa. — E você fica viva enquanto eu precisar que você fique.
Aquilo me deu um nó no estômago.
— E se eu tentar fugir?
Lobão inclinou a cabeça, quase como se eu tivesse feito uma pergunta óbvia.
— Aí eu paro de ser o homem que te mantém viva. — ele disse, sem pressa. — Vira outra coisa.
Um frio percorreu minha coluna.
Eu apertei a garrafa com mais força, como se a água ali dentro pudesse me dar coragem líquida.
— Eu não vou ficar calada. — eu falei, firme, mesmo com o corpo inteiro em alerta. — Eu vou sair daqui. E quando eu sair, eu vou fazer meu irmão pagar por isso.
Pela primeira vez, um microsegundo, eu achei que vi algo no rosto dele. Não pena. Não compaixão. Quase… respeito. Ou talvez fosse só minha mente desesperada tentando encontrar humanidade onde não tinha.
Ele deu um passo pra trás, abrindo espaço, como se encerrasse o assunto.
— Bebe a água. — disse. — Come quando mandarem. Dorme quando der. E para de achar que bravura abre porta. Aqui, bravura só serve pra te manter inteira até o dia que eu resolver o teu destino.
Ele se virou pra sair, e antes de abrir a porta, falou sem olhar pra mim:
— Amanhã eu te dou uma resposta. Hoje eu só te dou limites.
A porta abriu. O corredor engoliu ele. A porta fechou de novo.
Fiquei ali, imóvel, segurando a garrafa, o coração martelando como um tambor de guerra. Uma verdade terrível se impôs:
Eu acabara de encarar o homem que comandava meu cativeiro. Ele não tinha a feição de quem aceita a derrota; parecia ser o colecionador de vitórias.
Encostei a garrafa nos lábios e tomei um gole.
A água gelada desceu, mas uma promessa subiu, quente e feroz, pela minha garganta:
Eu não cederia. Nem que, para isso, eu tivesse que me consumir num incêndio por dentro.